Acordo entre prefeitura, estado e TCE prevê investimento de R$ 40 milhões no Campo de Santana

A enorme área verde, bem no coração do centro do Rio, é um convite quase irresistível para quem passa em meio à aridez dos prédios e do asfalto no entorno. Quem entra no Campo de Santana, no entanto, não demora a notar que há algo de errado. O aspecto geral de abandono da área salta aos olhos. Há muito lixo espalhado, embalagens de isopor e garrafas PET boiando nos lagos, mato alto, bancos danificados e um odor desagradável que acompanha os visitantes em boa parte do caminho. Embora seja possível observar duplas do programa Segurança Presente patrulhando o lugar, a sensação geral é de insegurança. Esses são alguns dos problemas que o convênio para a revitalização do espaço, assinado por prefeitura, governo do estado e Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), pretende resolver. O acordo prevê investimentos de R$ 40 milhões nos próximos quatro anos. Os recursos virão do saldo orçamentário de 2021 do TCE.

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Reabertura de banheiros

O projeto, que ainda será detalhado, abrange ações de preservação e recuperação de jardins e árvores — entre as quais, majestosas figueiras —, a revitalização dos lagos, o restauro de monumentos e a renovação de equipamentos, além da instalação de um moderno sistema de vigilância eletrônica. Um dos pontos que promete ter maior repercussão entre frequentadores e visitantes ocasionais é a reabertura dos banheiros, também incluída no plano de reforma. Hoje, nos 155 mil metros quadrados do Campo de Santana, não há sanitários disponíveis para o público.

— O Campo de Santana é um espaço histórico que será devolvido à população, trazendo mais segurança e destaque para aquela região. O local é sinônimo de tradição e tem potencial para se tornar um importante espaço turístico — disse Nicola Miccione, secretário estadual da Casa Civil.

A revitalização contará ainda com a restauração dos históricos portões do campo. Nas duas únicas entradas disponíveis, há um pequeno aviso impresso em papel comum no qual a Fundação Parques e Jardins informa que “o portão em frente à Av. Presidente Vargas está interditado por motivo de manutenção preventiva”. Como nem todos que entram prestam atenção no comunicado, é comum ver pessoas pedindo informações sobre como sair do parque. As guaritas em madeira também serão objeto de obra. E haverá melhorias em iluminação, drenagem e irrigação.

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Morador do Centro, o jornaleiro João de Deus, de 64 anos, frequenta o Campo de Santana diariamente. É lá que ele pratica seus exercícios, sempre na parte da tarde.

— Isso aqui era para ser uma maravilha. É muito bonito, seria ótimo se estivesse bem cuidado. Tem muita sujeira e mau cheiro, além da insegurança. Venho aqui fazer a minha caminhada, mas precisa melhorar muito — comentou João, enquanto se alongava na grade, tomada pelo mato, que cerca a Gruta Glaziou. A estrutura que imita uma gruta de verdade recebeu esse nome em homenagem ao paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, responsável, em 1880, pelo projeto do Campo de Santana tal qual conhecemos hoje.

Palco da história do país

O local, central na História da cidade e do país, recebeu a denominação de Campo de Santana muito antes do projeto de Glaziou. Há registros do uso do nome pelo menos desde meados do século XVIII. O campo foi palco das festas pela coroação de Dom João VI (1818), com direito a paradas militares e corridas de touro, e da aclamação de Dom Pedro I (1822). E testemunhou o fim do Império com a Proclamação da República há 133 anos, em 15 de novembro de 1889.

A cerimônia do convênio foi no dia 8 de novembro e teve como ato simbólico o plantio da chamada “árvore fundamental” do projeto.

— Estou certo de que a iniciativa irá render frutos para a região — afirmou Rodrigo Melo do Nascimento, presidente do TCE, órgão que funciona na Praça da República e é vizinho do Campo de Santana.

Mesmo com todos os problemas visíveis, o espaço atrai visitantes. A fauna que habita os jardins de inspiração inglesa, com vias sinuosas e árvores de quatro continentes, é uma das atrações principais. Estão por lá muitas cutias e gatos, mas também patos, galinhas-d’angola e até surpreendentes pavões. A pausa para foto é quase obrigatória.

— Venho aqui sempre que posso. Sento num banco e fico quieta só admirando os bichos. É um momento bom do dia, mas poderia estar mais limpo e ter mais segurança — disse Tânia Oliveira, de 48 anos, empregada doméstica.

O Campo de Santana é tombado tanto pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) quanto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Nos jardins, há monumentos em homenagem a personagens como Benjamim Constant, Catulo da Paixão Cearense e Vicente Celestino.

— O Campo de Santana, com fauna e flora exuberantes, remete à minha infância. E é assim com muitos cariocas — contou o vice-prefeito Nilton Caldeira.