Acordo entre Rússia e Turquia acaba com sonho curdo de autonomia

Por Jean-Marc Mojon
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(Arquivo) Forças russas patrulham a fronteira entre Síria e Turquia, ocupando o espaço deixado pela retirada das tropas americanas

O acordo entre Rússia e Turquia assinado nesta terça-feira em Sochi, balneário russo sobre o Mar Negro, representa o fim da autonomia 'de facto' dos curdos no nordeste da Síria, opinam os analistas.

Os curdos sírios esperavam que seu decisivo apoio à comunidade internacional na luta para derrotar o "califado" do grupo Estado Islâmico (EI) fosse resultar em seu reconhecimento.

Entretanto, em vez disso, os Estados Unidos anunciaram a retirada de suas tropas da região, deixando os curdos sírios desprotegidos.

O acordo de Sochi representa uma verdadeira derrota para as forças curdas, que há duas semanas controlavam quase um terço do território da Síria, e agora estão a ponto de perdê-lo totalmente.

"Para os curdos, isso representa o fim de 'Rojava', de seus sonhos de autonomia", opina Fabrice Balanche, um geógrafo especializado na Síria.

O futuro de Rojava - o nome que os curdos dão à sua região - foi selado após o acordo entre o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e seu homólogo russo, Vladimir Putin.

Rússia e Turquia mobilizarão patrulhas conjuntas no nordeste da Síria para garantir a retirada das milícias curdas da zona.

Erdogan informou que o acordo com a Rússia - aliada do governo sírio - abarca os setores nordeste do país, onde se desenvolve a ofensiva de Ancara contra as Unidades de Proteção Popular (YPG) curdas, que considera "terroristas", para estabelecer uma "zona de segurança".

A Turquia e a Rússia controlarão a maior parte da fronteira turco-síria.

- Atados -

O acordo obriga os curdos a se desarmarem e a se retirarem, o que significa que eles deixarão de controlar boa parte de suas principais localidades.

"Em termos de perda de território, perdem praticamente tudo", assegura Balanche.

A ofensiva turca, iniciada em 9 de outubro no nordeste sírio e suspensa na semana passada, foi possível graças à retirada das tropas dos Estados Unidos, mobilizadas ao longo da fronteira para se interpor entre sua aliada da Otan, Turquia, e as milícias curdo-sírias.

A retirada dos Estados Unidos deixou os curdos atados, obrigando-os a pedir ajuda ao regime de Damasco diante da ofensiva turca.

Agora, "Damasco quer controlar tudo aquilo que a Turquia não ocupa" no nordeste do país, explica Balanche. O regime de Bashar Al Assad quer continuar reconquistando o território nacional que começou a perder desde o início da guerra, em 2011.

O único ponto positivo para os curdos do acordo Putin-Erdogan é que freia a ofensiva turca, evitando um possível banho de sangue e uma catástrofe humanitária.

Dezenas de civis morreram durante os dias que durou a ofensiva turca, assim como mais de 250 combatentes curdos.

Além disso, as Forças Democráticas Sírias (FDS), uma coalizão árabe-curda, perderam 11.000 combatentes em cinco anos de operações militares contra o EI, junto à coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

O comandante das FDS, Mazlum Abdi, havia deixado claro após o início da recente ofensiva turca que era melhor chegar a um acordo do que correr o risco de um "genocídio".

Os curdos "se livraram de uma maior ofensiva turca que os teria expulsado para muito longe de suas terras", explica Balanche.

Eles estabeleceram uma região semiautônoma de fato no nordeste da Síria depois do caos provocado pela guerra no país.

Agora, as milícias curdas "poderiam se tornar uma força combatente, mas sob a égide do exército sírio", opina o pesquisador especializado em Síria, Samuel Ramani.

"A Rússia não vai necessariamente ajudar os curdos, mas ao mesmo tempo quer reduzir a magnitude da presença militar da Turquia, e por isso deseja que o maior número de zonas curdas se reintegrem ao regime de Bashar Al Assad e à Síria", explica Ramani.