Enquanto governo aponta o dedo para ONGs e DiCaprio, Ricardo Salles fecha "acordo" com desmatadores

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em evento no último dia 20. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Enquanto, para o público externo, o governo Bolsonaro ataca ONGs e atribui a militantes ambientalistas a responsabilidade pelas queimadas na Amazônia, num plano conspiratório que envolveria até dinheiro de Leonardo DiCaprio, a portas fechadas o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles se reúne com infratores ambientais e se compromete a aliviar a fiscalização em uma das mais importantes reservas extrativistas do país, a que leva o nome de Chico Mendes, líder seringueiro assassinado em 1988.

O repórter Fabiano Maisonave, que esteve em Rio Branco e Xapuri para contar a história, publicada na Folha de S.Paulo, obteve o currículo dos presentes à reunião: um já ameaçou de morte um servidor do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Outro é acusado de abrir uma estrada ilegal na reserva. Outro já foi condenado por desmatamento. Outra é acusada de manter um haras na área.

Os infratores ambientais se reuniram com o ministro em 6 de novembro para se queixar da “truculência” dos agentes ambientais. Participaram ainda do encontro deputados e vereadores acrianos que fazem lobby pela diminuição da reserva, que só neste ano perdeu 74,5% quilômetros quadrados de floresta (aumento de 203% em relação a 2018, segundo a reportagem).

O compromisso de que o governo aliviaria para os desmatadores funcionou: em visita à reserva, no último dia 27, o repórter flagrou nova queimada em uma área que havia sido embargada pelo ICMBio.

A revelação acontece no momento em que a autoridade participa da Conferência Internacional sobre Mudança Climática das Nações Unidas (COP-25), iniciada na segunda-feira, dia 2, em Madri (Espanha), onde Salles se reuniu com o português António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, em busca de recursos ao país. 

Em condições normais de pressão e temperatura, a reunião com desmatadores às vésperas do encontro internacional seria motivo de escândalo.

No Brasil atual, há quem prefira cair na conversa de que o grande responsável pelo desmatamento é o astro de “Titanic”.