Acostumada a viver personagens ricas na TV, Malu Galli confessa: ‘Não me identifico com o lugar chiquérrimo em que me colocam’

Naiara Andrade
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A atriz em sua casa na Barra: quarentena de escritas e culinária

Uma novela das nove, exibida em pleno horário nobre da Rede Globo, vale por outras duas, uma das sete e uma das cinco, simultaneamente? Difícil dizer, ainda mais se tratando de três sucessos. Malu Galli se viu surpreendida com a suspensão das gravações de “Amor de mãe”, devido à pandemia do novo coronavírus, no início de março, mas foi recompensada em dobro: voltou ao ar em “Totalmente Demais” (2015) e “Malhação — Viva a diferença” (2017). Lídia, Rosângela e Marta vivem em universos bem diferentes, mas guardam características comuns: todas têm filhos e experimentaram a dor da traição, sendo abandonadas por seus respectivos maridos. Casada há 20 anos e mãe de um rapaz de 18, a atriz carioca detalhou para a Canal Extra como tem sido sua quarentena sob o mesmo teto que os dois homens de sua vida, comentou as reviravoltas em seu cotidiano e nas tramas de suas personagens, e explanou sobre beleza, maturidade, religião e relações humanas, entre outros assuntos, com a elegância que lhe é peculiar — embora confesse passar longe do requinte.

 

 

Assim que as gravações de “Amor de mãe” foram suspensas, o que você fez?

Fui com a família para um sítio que compramos em Visconde de Mauá, no fim do ano passado. Ficamos lá eu, meu marido (o artista plástico Afonso Tostes, de 55 anos) e meu filho (o estudante de Jornalismo Luiz Tostes), por duas semanas, em contato com a natureza. Foi ótimo! Só que eu não imaginava que essa parada fosse se alongar tanto. Foi tudo muito de repente, fomos entendendo aos poucos o tamanho da coisa. Voltamos para o Rio, porque a faculdade do meu filho deu início às aulas online e a gente precisava de internet rápida. Aí, passei a sentir os efeitos da quarentena na metrópole, já que moramos em apartamento.

Tem conseguido ficar em casa?

Eu me seguro ao máximo. Aqui na Barra, quando saio de carro para comprar alguma coisa, vejo muita gente na orla. É impressionante como as pessoas não estão dando valor ao isolamento, estão achando que são férias... A gente tem que fazer a nossa parte. Se todo mundo pensar que sair só um pouquinho não vai fazer mal, a calamidade é certa, não tem outra matemática possível.

 

Como tem se saído com as tarefas domésticas?

Eu tinha uma diarista, que vinha duas vezes por semana, mas fiz questão de dispensá-la com remuneração. Ela é diabética, não tinha a menor possibilidade de ela continuar pegando condução e vindo pra cá... Por outro lado, os afazeres de casa viraram uma distração pra mim, porque estou sem trabalhar. Nós três nos dividimos: eu cuido da roupa, meu marido faz o almoço, meu filho lava o banheiro... Conviver em família o dia inteiro é difícil, mas pode ser gratificante também, enriquecedor. Rolam uns estremecimentos de vez em quando, mas é normal.

Descobriu algum novo talento?

Eu gosto de cozinhar, e não exercia por conta da correria do dia a dia. Acabava comendo na rua ou fazendo uma coisa rapidinha em casa. Agora, tenho experimentado receitas. Fiz um pavê de morango com o meu filho, bolos... Nunca tinha preparado sobremesas! E tenho escrito um projeto de série. Antes da quarentena, já estava experimentando escrever, coisa relativamente nova na minha vida. Foi muito bom descobrir esse lado que sempre existiu em mim, mas que eu não tinha assumido. Agora, estou sedimentando essa outra maneira de exercer o meu olhar para o mundo. Mas, em termos de hobby, a culinária tem ganhado na quarentena.

Já que os doces estão bombando por aí, como tem feito para manter a boa forma?

Ah, isso é um problema! Se me avisarem em cima da hora que a novela vai voltar, não sei se vou caber nos figurinos (risos). Eu corria na areia para ficar magra! Depois de uma certa idade, tenho que fazer um esforço e tanto! Não posso comer tudo o que quero, preciso suar. Como a parte aeróbica está difícil, tenho feito ioga online e, volta e meia, eu invento mais umas coisas aqui. Não tenho disciplina para pular corda em casa, por exemplo, mas faço flexões. Nada que realmente faça o efeito desejado.

Você tem se comunicado com o elenco de “Amor de mãe”?

A gente tem um grupo no WhatsApp em que se fala todo dia. Postamos memes, vídeos engraçados, tem muita coisa bagaceira. É um espaço para trocar curiosidades e coisas leves, se divertir e se manter junto, já que cada um está num lugar diferente. Tem gente que está fora do Rio.

 

A novela saiu do ar com Lídia, sua personagem, acolhida pelo público. Ela começou a trama causando aversão, foi sofrendo com várias perdas e acabou despertando empatia. Você sentiu essa virada?

Lídia é uma personagem muito interessante por ter várias facetas, umas adoráveis e outras terríveis, mas todas muito humanas. A sensação que dá é que ela tem o peito em carne viva. Começou a novela em colapso emocional completo, totalmente fora do eixo. Era alguém que sinalizava a solidão e pedia ajuda, por falta de estrutura emocional. E aí passou por perdas trágicas, se apaixonou, teve momentos de prazer e alegria. A galera tinha uma implicância com ela, totalmente fundamentada, inclusive, porque era uma aristocrata com total falta de empatia com os subordinados. As pessoas ficavam revoltadas com a maneira com que ela tratava Penha (Clarissa Pinheiro), e dali a pouco a empregada virou uma bandida, muito pior do que a ex-patroa. E Lídia se tornou uma amiga do público, que a viu desarmada. As pessoas já sabem todos os defeitos dela, estão torcendo para ela se encontrar. É bonito acompanhar essa trajetória. Foram quatro meses muito intensos, não tive cenas frugais. Era sempre tiro, bomba e terremoto (risos). Eu, particularmente, gosto disso. Está sendo um grande prazer interpretar essa mulher.

 

E é seu primeiro papel numa novela de horário nobre, do início ao fim...

Sim! E o tamanho do alcance de uma novela das nove é realmente diferente. Fiz umas de muito sucesso nos horários das sete, das seis, mas não se comparam à fidelidade que a trama do horário nobre provoca. É onde você entende o impacto que a novela tem na vida do brasileiro, o quanto faz parte do nosso imaginário. É uma responsabilidade grande, e eu fico muito feliz por “Amor de mãe” ser uma obra com tantas pautas importantes a serem discutidas. Há pequenas revoluções acontecendo na novela em termos de forma e conteúdo, de representatividade.

Na história de Lídia, a autora Manuela Dias abordou temas importantes como sororidade, crimes digitais e alcoolismo. São questões com que você se identifica pessoalmente?

Com a sororidade sim, mas não tenho histórias relacionadas a crimes digitais nem alcoolismo próximas a mim. Felizmente. Ao mesmo tempo, são temas que estão aí. Você vê, escuta histórias, conversa sobre... Fazem parte da nossa sociedade. Achei muito interessante a autora abordar o alcoolismo numa mulher como Lídia, tratada como a mais elegante da novela. De repente, ela está ali babando, totalmente desmontada. A figura que parecia inabalável ruiu. Ou seja: ninguém está livre de ser enganado, se viciar, sofrer uma perda... Isso tudo faz parte da vida. O modo como a gente vai lidar com isso é que é o lance.

 

Lídia foi trocada por mulheres mais jovens. Do alto da sua experiência e da sua beleza, aos 48 anos, o que você diria a outras dessa faixa etária que se sentem inseguras com a própria aparência?

É muito difícil pra gente, a sociedade brasileira é uma das mais machistas do mundo. Existe um endeusamento da juventude, em detrimento da velhice: é vergonha você ter cabelo branco aparente, rugas, engordar, seu corpo mudar. As pessoas vão virando monstros porque preferem se modificar a envelhecer. A gente fica com a sensação de que está sempre inadequada. E os homens também são incentivados a demonstrar virilidade ficando com as novinhas. São valores vazios, que só geram infelicidade para todo mundo. Sabedoria e experiência deveriam ser mais importantes que aparência. A gente foi se perdendo, está aí essa pandemia para provar que está tudo errado...

Você já passou por intervenções estéticas por pressão da sociedade, da profissão ou mesmo por autoestima?

Eu cuido muito da minha pele porque trabalho com imagem. Se não fosse atriz, talvez eu não me cuidaria tanto. Hoje em dia, há muitos tratamentos a laser, estimuladores de colágeno, microbotox que dá um efeito de descanso... São pequenas coisas que não mudam a expressão, não afetam o equilíbrio do rosto, e que estimulam o rejuvenescimento das células. Eu uso, dentro das minhas possibilidades. Porque são milhões de ofertas, e todas caríssimas. Também para isso é necessário discernimento: saber o que você vai fazer e para o que vai dar o seu “dane-se”. Deixa cair, deixa enrugar. Paciência, é efeito do tempo.

 

Beleza é um dos assuntos que você comenta com seus seguidores no Instagram. Assim como política, religião, culinária... Por vezes, recebe comentários antipáticos. Isso a incomoda?

Às vezes, consigo ter a maturidade de não responder, mas em outras não aguento, né? Rebato, mas aí me chateio, é muito tóxico. As pessoas vêm com uma agressividade totalmente gratuita, que foi construída em relação aos artistas, especialmente os da Globo. Muito preconceito! Acho que rolou uma lavagem cerebral. É um ódio cego e papagaio, que fica repetindo mentiras. E dá para perceber quando são robôs comentando e quando não são. Eu faço questão de entrar no perfil da pessoa para entender o que a leva a escrever aquilo. E geralmente é gente que se diz muito religiosa, cita Deus... É um retrato assustador do que virou a sociedade brasileira. Não sei se as pessoas involuíram ou se estavam camufladas e agora se sentem à vontade para revelar sua verdadeira face.

Você já se mostrou adepta do candomblé, faz postagens sobre isso. É uma religião de matriz africana. Como se aproximou desse universo?

Fui criada no catolicismo, estudei em colégio de padres, mas nunca fui praticante. Tinha uma visão holística das coisas, mas não seguia rituais, rezas, nada. E, aparentemente, a religião não fazia falta na minha vida. O teatro, sim, sempre ocupou um lugar muito sagrado para mim, eu me sentia alimentada por ele. Foi por causa do teatro que eu conheci o candomblé. Eu estava dirigindo uma tragédia grega, “Oréstia”, em 2011, e comecei a estudar as religiões tradicionais. Numa festa de família, conheci uma filha de mãe de santo de um terreiro de Nova Iguaçu, na Baixada, e pedi para ir lá com o elenco da peça. Fiquei impressionada com a beleza da festa! O candomblé é muito estético, tem uma relação forte com o canto, a dança, a comida, a roupa... Aquilo me deixou emocionada, e eu comecei a frequentar, a ajudar, a cuidar da minha harmonia interna. Encontrei um lugar de acolhimento, que me fez repensar a minha visão de mundo. Porque candomblé não é só religião, é cultura, filosofia, modo de vida. Abriu minha cabeça de forma absoluta, e eu renasci.

 

Já foi atacada por causa da sua religião?

Não, mas uma vez eu postei sobre o candomblé e perdi vários seguidores. Isso não é uma queixa, é uma constatação. Não estou nem aí por ter perdido. Eu sou o que sou, quem não quiser me seguir por isso, tchau, muito bem. Acho até melhor que a pessoa vá embora do que ficar ali me agredindo.

Seu porte físico geralmente a direciona para papéis de mulheres elegantes, de classe alta. Gostaria de variar mais?

Isso acontece mais na televisão, que lida com os estereótipos. Tanto é que a gente fala em “núcleo rico” e “núcleo pobre”. No cinema não tem muito disso, já fiz personagens de classe média baixa em alguns filmes. No teatro, dependendo da peça, a situação social da pessoa nem é uma questão. Mas realmente, por conta do meu tipo físico, longilíneo, eu acabo fazendo mais essas mulheres ricas e elegantes nas novelas. A verdade é que eu, Malu, não sou nem um pouco assim. Primeiramente, porque não sou de família rica nem essa pessoa chique e requintada, que se veste com classe o tempo todo. Meus pais me educaram direitinho, mas não sou sofisticada na minha maneira de me vestir nem no meu lazer. É raro me ver em eventos, levo uma vida muito simples. Eu nunca investi na imagem de celebridade. Isso me preserva, de certa forma. Frequento supermercado, feira, praia, e quase ninguém me reconhece. Não sabem o meu nome, geralmente, só o da personagem que estou interpretando. Aí pensam: “como pode ser ‘aquela atriz’ se está assim sem maquiagem, de chinelo?”. Na vida, não me identifico com o lugar chiquérrimo em que me colocam na TV. Mas quando tenho que fazer papéis assim, acho que vou lá e defendo bem a ideia.

 

Nesse aspecto, a Rosângela de “Totalmente Demais” foi um respiro?

Nas séries “A mulher do prefeito” e “Tapas & beijos” (ambas de 2013), fiz umas mulheres muito loucas, nada finas. Em “A vida da gente” (2011), uma personagem de classe média, com dificuldades financeiras. Mas, no geral, em novelas eu vivo mulheres mais abastadas mesmo. Quando me apareceu a Rosângela, que legal! Personagem popular, mãe solteira de três filhos, moradora da periferia, uma raladora, uma brasileira. Foi muito divertido! A parceria com Ailton Graça foi deliciosa, assim como com Lellê, Felipe Simas, todos do elenco. A gente ficou muito amigo, tinha muito prazer em fazer a novela. Para quem achava que eu não seria convincente em papel de pobre... Acho que o convencimento depende muito da caracterização. Assim como Rosângela, Lídia também é uma construção. Eu não moro numa casa como a dela, nunca comprei uma roupa daquelas, não tenho nem dinheiro para isso! O universo dela também está muito distante da minha. Tudo é uma questão de construção crível daquela realidade, sem forçar a barra. Conto com a sensibilidade das equipes de caracterização e de figurino, além da direção de arte de cada novela.

Lídia, Rosângela e Marta têm histórias que giram em torno de ex-maridos, traições e maternidade...

Nossa, é verdade! Nem tinha pensado nisso. Acho que tem a ver com a idade, com aquilo que a gente conversou antes: na sociedade brasileira, as mulheres da minha faixa etária geralmente enfrentam uma separação, são trocadas por outras mais jovens. É a idade da loba, expressão terrível! De alguma forma, a teledramaturgia ainda fica batendo nessa tecla. Eu acharia importante, a partir de agora, contarmos outras histórias. Tudo bem, a novela reflete a nossa sociedade. Mas também dialoga com ela. Ficção e realidade se retroalimentam. Podemos propor na televisão novas formas de pensar sobre as relações.

 

Você foi casada antes de conhecer seu atual marido? Acha possível uma boa convivência com os ex?

Tive namorados com quem morei junto, mas eu era muito jovem. Casamento mesmo, só com o Afonso, a gente está junto há 20 anos. Eu não sou muito próxima dos meus ex porque a vida acabou nos afastando mesmo, não porque houve brigas. Mas tenho amigas que mantiveram a amizade com os seus, coisa que acho perfeitamente possível. A gente tem que superar os problemas, se reinventar, transformar relações. É sinal de evolução. Ficamos muito apegados a rancores e mágoas, acho que dar um passo além é necessário.

Como você lida com a traição? Acha fidelidade importante num relacionamento duradouro como o seu?

Fidelidade a quê? Acho que cada casal tem um pacto. Se for usar o termo “fidelidade”, tem que ser a esse pacto. Eu prefiro a palavra “confiança”, é ela que não pode ser quebrada. Há de se entender o que cada casal precisa para ser feliz e respeitar o pacto feito a dois. O que não dá para aguentar é mentira, vida dupla... A sociedade continua aceitando isso, principalmente em relação aos homens. Acham que é normal, que é assim mesmo. Não! Enganar, passar o outro para trás, é muito ruim.

E como é sua relação com Luiz, seu único filho? É uma mãe superprotetora?

Ambos somos muito intensos. Brigamos e somos muito amigos também. Eu sou totalmente superprotetora. Gostaria até de ter tido outro filho, mas acabou não acontecendo por circunstâncias da vida. Acho que, quando você tem outros filhos, se torna uma mãe melhor. Porque não fica totalmente focada num só, com todas as cobranças, expectativas, cuidados e preocupações. Os filhos únicos sofrem, nesse sentido. Eu tenho uma irmã e eu acho que isso me ajudou a dividir tudo, ônus e bônus.

Em “Malhação”, Marta abandonou a profissão de modelo pelo casamento, depois acabou traída. Você desistiria de uma carreira por um amor?

Nunca! Sempre fui muito apaixonada por minha profissão, por ter sempre alguma coisa a dizer, ter uma função no mundo. Eu não conseguiria viver só a minha vidinha caseira, com a minha família. Não me sentiria completa desse jeito.

 

Você tem se assistido nas novelas que voltaram ao ar em edição especial?

Tenho! Eu sou superautocrítica, para mim é muito complicado me ver. Claro que, com o passar dos anos, fui me acostumando, mas ainda é difícil. Até você parar de olhar você e olhar o todo, a história, tem uma adaptação a ser feita. Tanto é que quando estou gravando eu não gosto de conferir a revisão de cena. Se não me agrada, aquilo já me desanima para a próxima. A maioria dos atores é assim. Como telespectadora, eu gosto dos trabalhos. São novelas superbonitinhas, bem feitas, bem dirigidas. Independentemente de me ver ou não, eu gosto das histórias contadas. E me sinto orgulhosa por ter feito parte desses projetos.