Acusações de racismo dominam campanha eleitoral no Reino Unido

DANIEL AVELAR

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Faltando menos de duas semanas para os cidadãos do Reino Unido irem às urnas para escolher o próximo primeiro-ministro do país, os principais candidatos têm enfrentado acusações de racismo e intolerância religiosa.

Nos últimos dias, autoridades religiosas criticaram o premiê conservador, Boris Johnson, e o líder da oposição trabalhista, Jeremy Corbyn, pelo tratamento dispensado aos judeus e muçulmanos.

Intervenções deste tipo no debate eleitoral são incomuns no Reino Unido. Embora o eleitorado esteja dividido sobre os rumos do país em meio ao brexit, as recentes trocas de acusação sugerem que há um temor generalizado em relação ao racismo nos dois lados do espectro político às vésperas das eleições parlamentes de 12 de dezembro.

Em artigo para o jornal The Times, o rabino Ephraim Mirvis, líder judeu ortodoxo britânico, lamentou os incidentes de antissemitismo no Partido Trabalhista e disse que Corbyn é “inapto para ser primeiro-ministro” por “chancelar o veneno desde o topo”.

“A comunidade judaica assistiu com incredulidade enquanto apoiadores da liderança trabalhista perseguiram parlamentares, membros e até funcionários do partido por desafiarem o racismo contra os judeus”, disse Mirvis.

Um grupo de judeus que integra a agremiação diz ter registrado 130 casos de antissemitismo nas fileiras trabalhistas e acusa a liderança de não fazer o suficiente para punir os responsáveis.

Corbyn reagiu às críticas dizendo que o “antissemitismo é errado e vil”. Ele também prometeu “proteger todas as comunidades” religiosas do país caso seja eleito, mas se negou a pedir desculpas aos judeus de seu próprio partido.

Em seguida, um porta-voz do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha fez coro às críticas de Mirvis contra os trabalhistas, mas acrescentou que o Partido Conservador tem “um problema sério de islamofobia”.

“É bastante claro para muitos muçulmanos que o Partido Conservador tolera a islamofobia, permite que ela se espalhe na sociedade e fracassa em implementar medidas para erradicar esta forma de racismo”, disse o porta-voz.

O premiê Johnson, que já comparou muçulmanas que usam o véu islâmico a “caixas de correio” e “assaltantes de banco”, disse que a islamofobia é “inaceitável” e prometeu abrir um inquérito sobre os casos de discriminação na sua legenda.

PESQUISAS

Segundo uma pesquisa recente do instituto YouGov, 30% dos eleitores acreditam que Johnson é racista, enquanto 41% dizem que ele não é racista. Já 30% afirmam que Corbyn é antissemita, e outros 29% dizem que ele não é antissemita.

Ainda de acordo com o YouGov, o Partido Conservador lidera a corrida eleitoral com 43% das intenções de voto, seguido pelo Partido Trabalhista, que registra 32%. Os centristas do Partido Liberal Democrata têm 13% das intenções de voto, seguidos pelos ultradireitistas do Partido do Brexit, com 4%, e pelos ambientalistas do Partido Verde, com 2%.

Embora esses números indiquem uma vantagem de Johnson para ser reconduzido ao cargo de primeiro-ministro, a porcentagem de votos nas urnas nem sempre reflete a proporção de cadeiras conquistadas por cada partido no Parlamento pois o sistema eleitoral britânico é distrital, e não proporcional.

O resultado do pleito será decisivo para definir os rumos do brexit, aprovado por margem estreita em um plebiscito em junho de 2016. Após ser adiada diversas vezes, a saída britânica da União Europeia foi agendada para 31 de janeiro, mas ainda não há maioria no Parlamento para aprovar o acordo sobre os termos do divórcio negociado entre as autoridades de Londres e de Bruxelas.