Acusado de apologia ao crime, TikToker terá que dar um tempo da rede social

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Respondendo a um inquérito por apologia ao crime, tendo sua foto divulgada pela Polícia Civil como se fosse criminoso, vítima de ofensas nas redes sociais e com a conta no TikTok temporariamente suspensa. A sequência de eventos poderia abalar qualquer pessoa de origem humilde, mas não o criador de conteúdo digital Vicson Ribeiro Paulo, de 19 anos. Morador do Complexo do Alemão, ele se viu envolvido em um furacão após encenar com três amigos menores de idade um vídeo simulando um assalto na praia de Copacabana e divulgar nas redes, mas acredita que tudo vai passar e vai seguir com o seu sonho de ser um humorista de sucesso na internet.

— É um furacão tudo isso que está acontecendo. Eu sempre fazia vídeos de palhaçada com meus amigos, zoeira. Aí no domingo meu amigo deu essa ideia e fomos fazer mais um seguindo uma ‘trend’no TikTok. Meu sonho é fazer conteúdo de humor nas redes sociais. Eu tinha uma base de seguidores já e ganhei mais uns três mil com o vídeo, mas tive de apagar por causa da confusão — disse.

Nascido e criado no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, Vicson deixou a escola para trabalhar como ajudante de pedreiro para contribuir com as despesas em casa. Dono de um grande senso de humor, foi incentivado por amigos a começar a criar conteúdo para redes sociais. Assim, aderiu ao TikTok, onde conseguiu muitos seguidores e visualizações com seus vídeos mostrando o cotidiano da comunidade.

— Eu comecei a fazer meus vídeos no ano passado. Eu sempre tive esse espírito de brincar, o pessoal me dizia que eu era engraçado, que deveria fazer conteúdo e a cada vídeo recebia mais elogios. Minha rotina é muito tranquila, quando tenho tempo, sempre gravava meus vídeos. Eu tenho como ídolos o Gabriel Nascimento, que é jogador, o Jeff Bala, o Guilherme da Tropa 9. Eles são minha inspiração e o tipo de humor que eu quero fazer — disse.

No entanto, o jovem terá de dar um tempo na produção de vídeos, pois sua conta no TikTok foi suspensa temporariamente. Ele pretende esperar um tempo para retomar a rotina, o que inclusive foi aconselhado para ele ao comparecer nesta semana na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente para prestar depoimento.

— Minha conta foi bloqueada por que o vídeo foi muito denunciado. O problema é que muita gente pegou e editou tirando a parte que eu dizia que era trolagem e jogaram em outras redes. Aí vieram me xingar e denunciar a publicação. Se não reativar depois, eu faço outra. Não vou deixar isso me abalar e vou seguir com meu sonho. Mas por enquanto vou dar um tempo, até o delegado disse para eu dar uma segurada.

As ofensas nas redes sociais foram muitas desde o último domingo. No início, o jovem ainda tentou responder explicando que o vídeo era uma brincadeira, mas diante de tantos xingamentos e muitas mensagens preconceituosas, desistiu.

— Pessoal tem muito ódio gratuito. Muita gente crítica e criminaliza por nós somos cria de comunidade. É gente dizendo que a gente devia morrer, que somos marginais. Isso teve repercussão pelo fato de eu e meu amigo sermos pretos, aí muita gente vê preto e favelado e já chama de bandido. E não querem ver o outro lado da história. Se fossemos brancos e moradores da Zona Sul, a história seria diferente. Aí seria só uma brincadeira inocente e tadinhos. Mas como não somos, sabe como é.

Sempre sorridente, Vicson só ficou sério quando perguntado sobre a divulgação da sua foto e dos amigos pela Polícia Civil. Colocados em fila na frente de um banner, como em uma apresentação de criminosos, ele pretende correr atrás de reparação. A Defensoria Pública do Rio de Janeiro se colocou à disposição da família do jovem, pois a ação da polícia contraria a decisão da 1ª Vara de Fazenda Pública da Capital, de 2014, que proíbe a divulgação de imagens de presos ou suspeitos. Além disso, ainda há o agravante de contrariar também o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma vez que havia menores de idade na imagem.

— Uma advogada já ligou e conversou comigo e com a minha mãe. Minha mãe teve todo cuidado de falar para irmos na delegacia para esse problema não ficar maior. Agora trataram a gente como se fossemos bandidos. Nós vamos nos encontrar com a advogada e vermos o que faremos, mas quero que eles digam que não somos criminosos.

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