Acusado de assassinar Shinzo Abe teria buscado vingança contra Seita Moon

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AP - Juntaro Yokoyama
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O acusado pelo assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, Tetsuya Yamagami, de 41 anos, está detido e declarou aos investigadores que atacou Abe porque acreditava que o político estava vinculado a uma organização religiosa. A mãe de Yamagami é integrante da Igreja da Unificação, confirmou nesta segunda-feira (11) a organização, também conhecida como Seita Moon, que está presente no Brasil e em vários países do mundo.

A imprensa japonesa afirmou que a família de Yamagami teve problemas financeiros após doações de sua mãe ao grupo religioso e que ele buscava vingança.

Yamagami queria se vingar de uma "organização", segundo informações divulgadas na sexta-feira (8), mas o nome da entidade só foi revelado nesta segunda-feira. O atirador acreditava que Abe tinha vínculos com este grupo.

"A mãe do suspeito Tetsuya Yamagami é membro de nossa organização e tem participado de nossos eventos uma vez por mês", declarou Tomihiro Tanaka, presidente da Igreja da Unificação no Japão, em uma breve entrevista coletiva em Tóquio.

Tanaka não revelou detalhes das doações da mãe do acusado, alegando que uma investigação policial está em curso e com a qual a organização deseja "cooperar".

Ele afirmou que a igreja está horrorizada com o assassinato "selvagem" e que Abe "nunca" foi um de seus membros ou conselheiro.

As informações sobre Yamagami incluem várias especulações, incluindo a de que teria passado três anos na Marinha japonesa. Outra afirma que ele assistia vídeos no Youtube para aprender a fabricar armas caseiras como a utilizada no ataque.

Abe morreu depois de ser baleado na sexta-feira no momento em que discursava em um comício em Nara (oeste do Japão).

Seita Moon em detalhes

Aqui estão alguns fatos sobre este movimento religioso nascido na Coreia do Sul que sempre cultivou laços com líderes políticos, enquanto construia um império econômico global.

Seu fundador, o controverso Sun Myung Moon (1920-2012) nasceu em uma família de agricultores no que hoje é a Coreia do Norte. Ele afirmou ter tido aos 15 anos uma visão de Jesus Cristo que o ordenou a continuar sua missão para que a humanidade alcance um estágio de pureza “sem pecado”.

Refugiado da Coreia do Norte, rejeitado pelas igrejas protestantes sul-coreanas considerando-o herege, Moon fundou sua própria igreja em Seul em 1954, que rapidamente se envolveu na política ao adotar inicialmente uma linha ferozmente anticomunista, atraindo assim a simpatia de regime militar da Coreia do Sul na época.

Moon também conviveu com chefes de estado estrangeiros, como Richard Nixon nos Estados Unidos, a quem ele apoiou durante o escândalo de Watergate. Na França, na década de 1980, sua Igreja manteve brevemente ligações com a Frente Nacional, hoje Reunião Nacional (RN), fundada por Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen.

Presença no Brasil

O líder religioso sul-coreano, conhecido no Brasil como reverendo Moon chegou a controlar 800 mil hectares entre Brasil e Paraguai. A seita tem templos e fiéis fervorosos principalmente no Mato Grosso do Sul (MS).

A seita Moon seria a maior proprietária de terras do Paraguai, com um território do tamanho da Palestina.

A organização foi gradualmente se tornando um império econômico presente em vários setores (construção, alimentação, automotivo, turismo, educação, mídia...) que tornou seu fundador um bilionário.

Sun Myung Moon fez sua primeira turnê mundial em 1965 e se estabeleceu nos Estados Unidos no início dos anos 1970. Condenado por sonegação de impostos pela justiça americana, passou mais de um ano preso no país no início dos anos 1980.

Qual é a sua importância?

Conhecida por celebrar casamentos coletivos em massa, a Igreja da Unificação é hoje controlada pela viúva de seu fundador, Hak Ja Han, sua segunda esposa com quem teve uma dúzia de filhos.

A organização afirmou em 2012 que tinha 3 milhões de seguidores em todo o mundo. No entanto, esse número é muito exagerado, segundo especialistas. Sua influência diminuiu claramente desde a década de 1980, devido a mudanças sociais e políticas na Coreia do Sul, vários escândalos e divisões internas, antes e depois da morte de seu fundador.

Além de seu país de origem, a Igreja está presente principalmente nos Estados Unidos - onde se autodenomina "Federação das Famílias pela Paz e Unificação Mundial" - e no Japão, país onde teria várias dezenas de milhares de devotos.

Que ligações com Shinzo Abe?

O suposto assassino de Abe, Tetsuya Yamagami, 41, "se enfureceu contra certa organização" e decidiu matar Abe porque acreditava que o ex-chefe de governo tinha uma conexão com ela, disse a polícia japonesa na sexta-feira (8).

A mídia local rapidamente mencionou uma organização religiosa, sem nomeá-la, e afirmou que Yamagami estava zangado com ela porque havia obtido grandes doações de sua mãe, colocando sua própria família em grande dificuldade financeira.

Tomihiro Tanaka, presidente do ramo japonês da Igreja da Unificação, confirmou nesta segunda-feira que a mãe do suspeito é membro da organização desde 1998 e se viu em dificuldades financeiras por volta de 2002.

“Não sabemos as circunstâncias que levaram esta família à falência”, disse, porém, afirmando que as doações para sua Igreja foram feitas de forma voluntária e que os valores tampouco eram impostos.

Tanaka também apontou que Shinzo Abe "nunca" foi um de seus membros ou conselheiros. No entanto, organizações próximas à Igreja da Unificação convidam regularmente figuras políticas importantes para conferências sobre o tema da paz mundial.

O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, falou online para um desses simpósios em 2021, e Abe também foi criticado por um grupo de advogados japoneses por enviar uma mensagem de vídeo em um evento semelhante.

Esses advogados, que defendem pessoas no Japão acusando a seita de tê-las arruinado, também protestaram quando Abe enviou uma mensagem de parabéns em uma grande cerimônia de casamento em massa organizada pela Igreja em 2006.

Homenagem

Parentes e amigos de Shinzo Abe prestaram homenagem nesta segunda-feira (11) em Tóquio ao ex-primeiro-ministro japonês assassinado, pouco depois de o secretário de Estado americano Antony Blinken ter chamado Abe de "homem de visão".

A homenagem aconteceu um dia depois da vitória da coalizão do governo nas eleições para o Senado, o que consolidou sua maioria na Câmara Alta. A votação aconteceu dois dias após o assassinato de Abe.

O carro fúnebre com o corpo de Abe chegou ao templo Zojoji na tarde de segunda-feira para o funeral com a presença de autoridades e empresários.

Algumas horas antes, Blinken, que já estava na Ásia, fez uma visita não programada ao Japão para expressar as condolências dos Estados Unidos.

Blinken entregou ao primeiro-ministro japonês Fumio Kishida uma carta do presidente americano, Joe Biden, destinada à família de Abe.

"Quando um amigo está sofrendo, o outro amigo aparece", declarou o secretário de Estado.

Abe "fez mais do que qualquer outra pessoa para elevar a relação entre Estados Unidos e Japão".

"Vamos fazer todo o possível para ajudar nossos amigos a suportar o peso dessa perda", disse, antes de elogiar Abe como um "homem de visão com a habilidade de concretizar esta visão".

(Com AFP)

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