Acusados de crimes da ditadura quebram silêncio na Argentina

O pacto de silêncio entre acusados pelos crimes de lesa-Humanidade no regime militar argentino começou a mostrar fissuras por revelações do ex-ditador Jorge Videla que desencadearam uma série de buscas em residências de ex-chefes militares, segundo analistas.

"Está ocorrendo algo estranho, porque as declarações de Videla são diferentes das anteriores. Isso gera incômodos entre os acusados", afirmou à AFP Julieta Parodi, líder da organização de Filhos da Província de Córdoba (centro), de filhos desaparecidos.

Videla, de 86 anos, que está preso e enfrenta duas condenações à prisão perpétua por violações dos direitos humanos, afirmou pela primeira vez que na ditadura foram assassinadas de 7.000 a 8.000 opositores e completou que os chefes militares de cada região eram os que controlavam a lista de desaparecidos.

Cerca de 30.000 pessoas desapareceram no regime militar, segundo as organizações de direitos humanos, que há anos pedem que os processados divulguem onde estão os corpos dos sequestrados.

O polêmico depoimento de Videla, base do livro "Disposição Final", do jornalista Ceferino Reato, fez com que vários tribunais a cargo de julgamentos por crimes de lesa-Humanidade ordenassem buscas em residências de ex-chefes castrenses, nas foram encontradas documentações que ainda estão sendo investigadas.

Um dos domicílios onde foi realizada uma busca foi o do ex-general Luciano Benjamín Menéndez, na cidade de Córdoba, que acumula sete condenações à prisão perpétua, e de onde a polícia retirou cerca de 30 caixas com documentos.

"Foi apreendido muito material em 24 de maio na casa de Menéndez. Possivelmente algo será encontrado. O que guardam é muito importante. As expectativas sobre o conteúdo são grandes", disse à AFP CLaudio Orosz, advogado da ação em um julgamento do ex-militar em Córdoba.

Parodi afirmou que durante a revista da casa onde cumpre prisão, Menéndez, de 89 anos, "surpreendeu-se e ficou ofendido, como se ainda fosse intocável".

As declarações de Videla, detido em uma prisão comum e cuja residência em Buenos Aires também sofreu buscas em abril passado, geraram uma das poucas desavenças públicas em três décadas entre os responsáveis pelas violações dos direitos humanos na ditadura.

O ex-ditador afirmou que outro ex-chefe militar, Santiago Omar Riveros, sabe onde está o corpo do chefe da extinta organização guerrilheira Exército Revolucionário do Povo (guevarista), Mario Roberto Santucho, assassinado por um comando militar em 1976.

"Ele foi covarde. O desgraçado está mal assessorado. Jogou a responsabilidade sobre mim", disse Riveros ao criticar Videla, cujas declarações levantaram suspeitas de órgãos humanitários e analistas após realizar dezenas de julgamentos por crimes políticos.

O popular historiador e escritor Felipe Pigna disse à AFP que o livro de Reato "parece um comunicado de Videla em forma de entrevista".

Pigna, autor de 'best sellers' como "Mulheres Tinham Que Ser" e "Libertadores da América" e diretor de um programa de TV, valorizou a eventual divulgação de listas de desaparecidos, já que os militares "sempre negaram que estas existissem", mas sustentou que de qualquer forma não são necessários esses documentos para comprovar as violações aos direitos humanos.

"A descoberta de documentos não traz mudanças substanciais no nível histórico ou jurídico, porque o plano do terrorismo de Estado está comprovado" nos julgamentos, afirmou Pigna.

Atualmente, estão em andamento 14 julgamentos orais por crimes de lesa-Humanidade em 12 cidades da Argentina, enquanto que desde 1983 foram condenadas mais de 200 pessoas, a maioria a partir de 2010, segundo dados oficiais.

Desde que foi realizado o histórico julgamento das Juntas em 1985, no qual foram condenados à prisão perpétua o ex-ditador Videla e outros comandantes, os militares respondem diante dos tribunais que nada sabem sobre o que aconteceu com os desaparecidos.

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