Adaptação de 'Persuasão' reforça tese de que Jane Austen foi influenciada pelas pioneiras do feminismo

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As damas da Regência Inglesa ficariam em choque se pudessem assistir à nova adaptação da Netflix para o romance “Persuasão”, publicado em 1817. Afinal, o que diria aquela aristocracia, tão bem alimentada por macarons e chazinhos da tarde, se visse Anne Elliot, protagonista deste que é um dos mais aclamados livros de Jane Austen, abrindo mão dos comportados bonnets para correr descabelada na grama, gritando, em francês: “Vive la Révolution!”? Enquanto incita os sobrinhos —pela primeira vez interpretados por atores negros —a empunhar espadinhas de madeira contra uma Maria Antonieta imaginária, a protagonista idealizada pela diretora Carrie Cracknell e interpretada por Dakota Johnson — atriz americana marcada pela ousada trilogia “50 tons de cinza” —demonstra simpatia à queda da rainha, símbolo de uma nobreza que minguava sob o impacto da Revolução Francesa. Mas seria mesmo tão surpreendente reconhecer em Jane Austen esta verve revolucionária?

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Muito em função da forma como a família Austen decidiu editar o legado da parente famosa —Cassandra Austen, irmã e confidente, queimou mais de três mil cartas da escritora, enquanto o sobrinho, James Edward Austen-Leigh, enfatizou a imagem de uma tia doce, recatada e do lar ao assinar a primeira biografia da autora —, o imaginário coletivo construiu a imagem de uma senhorinha água com açúcar, que escrevia para mulheres sonhadoras. No entanto, pesquisadores contemporâneos — como a americana Miriam Ascarelli, em “A feminist connection: Jane Austen and Mary Wollstonecraft”, e a brasileira Julia Romeu, em seu livro “Um lugar só dela: O feminismo em Jane Austen” (a ser lançado pela Bazar do Tempo) — enxergam cada vez mais evidências de conexão entre as obras de Jane Austen e o movimento protofeminista. Especificamente, possíveis citações de Austen aos assertivos textos de Wollstonecraft, autora do icônico manifesto “Uma reivindicação pelos Direitos da Mulher”, de 1792.

‘Criaturas racionais’

Contemporânea de Jane Austen, a inglesa Wollstonecraft ousou viver uma vida livre, foi à França se unir aos revolucionários e morou com o homem que amava, sem ser casada com ele. Não à toa, é considerada a mãe do movimento feminista britânico que nasceria no século seguinte.

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— Acredito que há feminismo na obra de Jane Austen. Wollstonecraft reivindicava que as mulheres fossem vistas como “criaturas racionais”, expressão que Jane Austen usa em “Persuasão” e“Orgulho e preconceito” (1813), em falas de personagens que pedem o mesmo respeito. Apesar de não existir prova desta influência, evidências apontam que sim —defende Julia Romeu. — Não é coincidência que a Sra. Croft, uma das personagens mais sensatas da trama, e que inspira a protagonista a ir atrás de seus sonhos, vivencie um raro casamento feliz. A semelhança entre os nomes Wollstonecraft e Sra. Croft também levanta a hipótese de uma homenagem à Wollstonecraft.

Sem frescura

Defensora de uma Anne Elliot que se permite agachar para fazer xixi no mato, mergulhar no mar de Lyme, beber bons vinhos e não se importar em ter a barra do vestido suja de lama — uma clara homenagem à Elizabeth Bennet, de “Orgulho e preconceito” —, Dakota Johnson parece endossar esta teoria.

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— Em “Persuasão”, Jane Austen nos convida a refletir sobre a falta de escolha das mulheres, especificamente, no amor. As uniões eram decididas por terceiros, motivadas por status, dinheiro e segurança, e o livro traduz o desejo de romper com tudo isso. Esta questão segue muito atual. Até que ponto decidimos sobre a nossa vida, nosso corpo? Até que ponto ainda nos permitimos ser persuadidas? —ressalta a atriz, que vem sendo voz ativa contra o recente retrocesso da Suprema Corte americana em relação ao aborto, assunto sobre o qual se manifestou nas redes sociais, pedindo que as pessoas votem em “candidatos pró-escolha”.

Para transpor o desafio de tornar este embalsamado clássico da literatura em algo de fato atraente para a geração TikTok, a produção enfatizou o humor ácido característico da escritora.

— O que tentamos fazer foi pegar a essência da Anne do livro, com seu forte senso de si mesma e uma excelente percepção das pessoas ao seu redor, e intensificar. Assim, ela se tornou um pouco mais direta e espirituosa —explica a diretora Carrie Cracknell, que apostou em uma personagem que quebra a quarta parede e fala com a câmera.

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Produtora executiva, Christina Weiss Lurie chegou a cogitar atualizar a trama para os tempos atuais. A ideia não foi adiante, mas permaneceu o desejo por personagens com ares contemporâneos. Assim, para construir o seu capitão Wentworth, o ator Cosmo Jarvi em nada resgata os códigos de cavalaria seguidos à risca por atores como Rupert William Penry-Jones, louro e de olhos azuis, que viveu o personagem na produção da BBC, em 2007, e, muito menos, o gestuário semi-blasé de Mr. Darcy, imortalizado por Colin Firth em “Orgulho e preconceito”, de 1995.

Com roupas amassadas e barba por fazer, o herói austeniano de Jarvi ganha o coração da protagonista ao reconhecê-la como um “ser racional”. Declarações como “Você é tão inteligente (..) sempre direta, centrada e calma” ou ainda “é irritante o mundo lhe negar uma vida pública”, evidenciam um antenado Wentworth, provando que as definições de cavalheirismo foram atualizadas para o século XXI.

Diversidade de elenco

Em sintonia com o movimento de naturalizar atores não-brancos na corte, como na série “Bridgerton”, o elenco de “Persuasion” privilegia a diversidade.

— Um elenco diversificado conecta a mensagem de Austen a um público mais amplo. Foi emocionante ver as pessoas que cresceram apaixonadas por seus romances finalmente se verem representadas. Para muitos do elenco foi também a primeira vez em que atuaram em um filme de época — celebra Carrie.

Mas as mudanças não foram bem recebidas por todos, e fãs tradicionais do livro expressaram nas redes descontentamento com o tom do filme. Já a presidente da Jane Austen Sociedade do Brasil, Adriana Sales, vê com bons olhos a iniciativa.

— Vem preencher uma lacuna histórica marcada pelo imperialismo ocidental. O efeito da metalinguagem, de falar com a câmera, traduz também essa ironia de questionar o que está sendo veiculado. Em certo sentido, essa ironia se estende para a escolha do elenco e dá espaço aos que, historicamente, nunca tiveram voz. A arte tem de ser plural em todas as suas nuances —ela defende.

Soma-se a isso uma forte mensagem de liberdade nas escolhas afetivas, com a qual a produção parece sugerir uma Jane Austen que preza pela ideia de que qualquer maneira de amor vale a pena. “Está tudo bem encontrar o amor em seus próprios termos, por menos ortodoxos que sejam. Não permita que lhe digam o que fazer ou a quem amar”, conclui uma amadurecida Anne Elliot, enquanto planeja acompanhar o marido em suas aventuras em alto-mar.

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