Adesão a manifestações contra Jair Bolsonaro estimula a oposição, que vai debater novas formas de atuação

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Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images
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  • Atos contra Bolsonaro aconteceram em 24 Estados e no DF

  • Foi a primeira vez, desde o início da pandemia, que país registrou manifestações significativas contrárias ao presidente nas ruas

  • Manifestações acontecem num momento em que Bolsonaro se vê pressionado pela queda de sua popularidade nas pesquisas de opinião e pela CPI da Covid no Senado

A adesão às manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no fim de semana, gerou uma onda de entusiasmo entre partidos de esquerda — e de surpresa nos aliados do Palácio do Planalto. Líderes de partidos como o PSOL defendem novos atos para fortalecer um eventual processo de impeachment. PT e PDT querem uma análise mais cautelosa sobre os próximos passos, principalmente diante do risco de uma terceira onda de contaminação pela Covid-19.

Para integrantes do PT e do PDT, os atos de anteontem foram um exemplo do que as pesquisas eleitorais vêm demonstrando: a perda sistemática de apoio do presidente.

Presidente do PT, Gleisi Hoffmann acredita que os atos fortalecem tanto a luta pelo impeachment, quanto servem como impulso às articulações da oposição de olho em 2022. Os próximos passos, diz ela, serão definidos ao longo da semana:

— Nós vamos ter uma reunião com as frentes (Povo Sem Medo e Brasil Popular) para fazer a avaliação dos atos e da luta a seguir.

Gleisi nega que os atos sirvam como instrumento de campanha para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, no ato do Rio, o Lula recebeu até mesmo um boneco inflável com uma faixa presidencial. Presente na manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, a petista diz que as manifestações são contrárias a Bolsonaro.

Carlos Lupi, presidente do PDT, concorda com a necessidade de atos de rua, apesar da pandemia. A expectativa, segundo ele, é que esse tipo de evento se tornará mais frequente na medida em que a vacinação avance. Ele nega, no entanto, que esse cenário fortaleça uma eventual polarização entre Lula e Bolsonaro.

— É o que eles (bolsonaristas) querem — diz Lupi.

Guilherme Boulos (PSOL) é francamente favorável à continuidade dos atos:

— Existe um clima real para construir um impeachment, tanto pelos crimes já cometidos quanto pela CPI no Senado. As ruas sinalizaram isso ontem, com responsabilidade, usando máscaras. A gente precisa se opor ao negacionismo, mas não pode esperar por 2022.

Atos podem continuar por todo país

Foto: Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images
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Porta-voz da Coalizão Negra por Direitos, um dos organizadores dos atos de sábado, Douglas Belchior defende um calendário permanente de mobilização.

— Não tem queda de presidente sem povo na rua, nem no Brasil nem no mundo. Derrubar o Bolsonaro só será possível se a rua continuar fervendo. O grande desafio dos movimentos sociais agora é como avançar na mobilização — diz.

O senador Humberto Costa (PT-PE), prega cautela:

— Foi necessária uma ação concreta, mas espero que pare por aí, porque especialistas vêm alertando para a possibilidade de uma terceira onda de infecções por Covid-19 — diz ele.

Aliados de Bolsonaro aproveitaram a expressiva adesão aos atos para criticar os opositores do presidente pelas aglomerações registradas em atos favoráveis ao governo.

Apesar das orientações dos organizadores, da distribuição de álcool em gel e do majoritário uso de máscaras entre o público, o distanciamento social não foi respeitado em diversos momentos no sábado.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), integrante da tropa de choque do presidente na Câmara, diz ser preciso “muito mais que isso" para fazer um impeachment avançar, mas se disse surpresa com o volume das ruas:

— Como sempre a única cidade que mais teve gente foi em São Paulo, que realmente me impressionou a quantidade. E agora, com isso, eles não podem mais acusar o presidente ou qualquer um de nós de ‘aglomerar’, ou seja, acabou a narrativa de ‘genocida’, certo?

Ação investigada no Recife

No Recife, a ação da Polícia Militar para debelar a manifestação contra o presidente, considerada violenta pelo próprio governador de Pernambuco Paulo Câmara (PSB), será investigada pela Corregedoria da corporação. Duas pessoas, que não participavam dos atos, foram atingidas por balas de borracha. De acordo com o governo, sofreram danos permanentes na visão e serão indenizadas.

A investigação pretende descobrir a razão pela qual a PM agiu de forma violenta. O tema é visto como delicado por assessores de Câmara. Há simpatia de setores das forças policias a Jair Bolsonaro. Interlocutores do governo têm evitado atrelar a ação a alguma insubordinação da força policial.

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