Adeus ano velho, feliz ano novo: cariocas reveem sua trajetória em 2020 e contam o que esperam para 2021

Regiane Jesus
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RIO — Está chegando a hora de dizer adeus a 2020, um ano que não deixa saudade nem dúvida de que é de batalhas que se vive a vida. Limites foram testados, e superação foi palavra de ordem. Ninguém passou impunemente pelo calendário que se encerra em 31 de dezembro. Mas como enquanto houver sol ainda haverá esperança de dias melhores, é o momento de sacudir a poeira e tentar outra vez. O caderno Tijuca + Zona Norte foi atrás de quem dividiu nestas páginas suas histórias de medo, angústia e dificuldades durante a pandemia para saber como estes personagens estão às vésperas de receber 2021.

A médica Julia Albuquerque, professora da Faculdade Souza Marques, em Cascadura, e pediatra do Hospital Municipal Jesus, em Vila Isabel, estava grávida quando estampou a capa do caderno, em 30 de maio, e compartilhou o momento delicado que atravessava ao gerar uma nova vida em meio à pandemia. Em 8 junho, ela deu à luz Henrique, uma bênção numa época marcada por perdas. Neste mesmo mês, o bailarino Paulo Salles, ex-professor da Lona Cultural Carlos Zéfiro, em Anchieta, dividiu a dor de ter entregado o apartamento onde morava, em Madureira, por não conseguir mais pagar o aluguel, já que os trabalhos no setor cultural estavam suspensos. Nessa fase de desespero, ele chegou a pensar em trocar a dança por outra profissão. Para ele, a sensação é de que o pior já passou no campo profissional, mas cursar uma faculdade segue em seus planos.

Com o cancelamento de festas e eventos, a tijucana Patrícia Araujo, dona do Buffet Sonho Real, precisou se reinventar às pressas. Criou um kit de festa em casa e cestas temáticas, inclusive uma de arraial junino, que fez sucesso. A artesã Nereusa Mariano, moradora de Brás de Pina, também precisou encontrar uma nova fonte de renda. Em abril, deixou de fazer bolsas para vender em feiras e passou a fabricar máscaras. Foi o que garantiu seu sustento.

Quatro pessoas com profissões diferentes, realidades distintas, que representam o que se viu este ano: ninguém ficou 100% imune à Covid-19. Faltou dizer que o principal pedido de todos para 2021 é um só: saúde!

Quando engravidou de Henrique, agora com 6 meses, Julia imaginou reunir os amigos e familiares em um animado chá de bebê, fazer um ensaio fotográfico de gestante, ter a companhia da mãe na maternidade, levar seu menino para passear na praia nos primeiros meses de vida. Apesar da dificuldade de ser assombrada pelo fantasma de uma doença que insiste em tentar tirar o brilho de um momento tão mágico, a médica prefere olhar para o que foi positivo em meio a tantas frustrações:

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— A minha união com o Bernar (Colosimo, gerente financeiro) se fortaleceu. Na maternidade, éramos só eu, ele e o nosso filho. Nesse período de reclusão, tento refletir ao máximo sobre o valor de ter quem a gente ama por perto. Agradeço por não ter sido contaminada pela doença e pelo fato de meu marido e meus sogros, que testaram positivo, já estarem curados. O ano está sendo muito triste para a humanidade, mas tive uma grande felicidade, o nascimento do Henrique.

Os bastidores da chegada de Henrique não foram como a médica Julia Albuquerque sonhou, mas o que importa mesmo é ter o seu bebê nos braços.

— Foi tudo ao contrário do que imaginei, não confraternizei com os meus amigos e familiares, mas o meu filho está aqui com a gente, lindo, risonho e saudável — diz a pediatra e nutróloga, já de volta à rotina de trabalho.

Além de saúde e de vacina para todos, Julia tem um desejo bem particular para 2021:

— Quero poder comemorar o primeiro aniversário do meu filho com uma festa linda. Vai ser o arraial do Henrique!

Após contar o seu drama pessoal nas páginas do caderno Tijuca + Zona Norte, o bailarino Paulo Salles foi procurado por pessoas que o ajudaram a levar suas aulas de balé para o universo digital. A iniciativa só não deu muito certo porque a maioria de seus alunos não tinha acesso à internet de qualidade para acompanhar seus ensinamentos. O retorno às atividades presenciais resolveu este problema e lhe trouxe a garantia de uma renda. Mas o novo normal não é facilmente assimilado por todos.

— As pessoas não entendem que a máscara é um acessório essencial. Muitos alunos acham que sou radical quando digo que só vão entrar na sala quando estiverem com o rosto protegido. Fico triste ao perceber que muita gente só acredita no perigo da doença quando alguém próximo morre ou é internado. De uns tempos para cá, minha maior preocupação não é com os movimentos da dança ou com as sapatilhas, é com o uso da máscara — lamenta o bailarino, que pode ser encontrado no perfil @psaalles, no Instagram.

A instabilidade da profissão também aflige o bailarino, que espera começar a cursar a faculdade de Fisioterapia neste ano que se aproxima. Projetos não faltam ao artista:

— Não penso em mudar de profissão, mas preciso de um plano B. Estou me preparando para o Enem porque quero começar a faculdade em 2021. A partir de janeiro, eu também desejo conseguir expandir os projetos sociais que já toco, mas aos quais não pude me dedicar tanto devido às dificuldades impostas pela pandemia. Eu e mais alguns bailarinos voluntários estamos empenhados em dar oportunidade para crianças de comunidades começarem a dançar. Quem nasce e vive numa favela também merece ter acesso à arte.

Festas e eventos faziam parte do dia a dia de Patrícia Araujo. O trabalho era o sustento e a alegria da proprietária do Buffet Sonho Real. De repente, um cancelamento atrás do outro lhe tiraram o sono. A criação de kits de festa em casa foram a salvação. Até o momento, a empresária segue oferecendo apenas este tipo de serviço. O desejo, claro, é retomar a antiga rotina. Mas abrir mão do novo formato de negócio que nasceu durante uma crise profissional nunca antes vivenciada está fora de cogitação.

— Descobri um outro segmento de trabalho, que foi o que me tirou do vermelho e virou o meu ganha-pão, embora, financeiramente, eu não esteja no mesmo patamar que tinha antes da pandemia. Mas dá para pagar as contas e me manter ativa. O kit réveillon é a mais recente novidade. Faço uma cesta personalizada, que o cliente monta como quiser, com os petiscos de sua preferência — diz a empresária, que aceita encomendas pelo WhatsApp 98495-4479.

Para 2021, mesmo sem ter superado as perdas financeiras, Patrícia não pede nada material:

— Só peço saúde e força para seguir na batalha. Espero que as pessoas se protejam enquanto esta doença ainda estiver aqui. Não podemos esquecer que estamos lutando contra um inimigo poderoso e invisível.

Grande aliada no combate à Covid-19, a máscara se tornou o sustento de Nereusa Mariano durante a pandemia. A artesã ganhava a vida produzindo bolsas de pano e comercializando-as em feiras do bairro onde mora, em Brás de Pina, mas, com a necessidade do distanciamento social, encontrou na fabricação da proteção facial uma forma de colocar comida em casa e pagar as contas. Até porque sua filha, Michelle Bernini, perdeu o emprego, já que atuava no ramo de eventos.

— Eu continuo fazendo máscaras, não tanto quanto antes. No começo, eu me sentava na máquina de costura e só levantava para tomar banho e dormir um pouquinho. Os pedidos foram caindo com o tempo porque muita gente passou a fazer, mas tenho clientes que só compram comigo. O volume de trabalho diminuiu uns 60%. Para aquecer as vendas, estou fazendo máscaras brancas e brilhosas para o réveillon — diz a também costureira, que disponibiliza para contato o perfil @neubags, no Instagram.

Um emprego formal é o que Nereusa pede para 2021, além do kit básico, composto por vacina e saúde:

— Preciso ter estabilidade, um dinheiro certo todo início de mês. Estou fazendo um treinamento para trabalhar como copeira, mas ainda não sei se vou ser contratada. Espero que sim! A minha intenção é fazer máscaras e bolsas como um complemento de renda, porque amo costurar, mas não por necessidade. Se Deus quiser, vou conseguir o emprego de carteira assinada que tanto quero!

Que tudo se realize no ano que vai nascer, com direito a muito dinheiro no bolso, e saúde para dar e vender! Feliz 2021!

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