Adeus, depressão: confeiteira encontra cura em seus biscoitos amanteigados

Não causaria surpresa se a confeiteira Danielle Gentil montasse um altar em sua casa, em Piedade, para homenagear os biscoitos amanteigados — doces e salgados — que prepara. A devoção deve-se não ao fato de os clientes confidenciarem que as guloseimas são de comer rezando, mas, sim, por terem um efeito milagroso na vida da cozinheira, que fez cursos de gastronomia na Itália e na França, além de ter trabalhado em dois restaurantes na Irlanda, onde morou por pouco mais de um ano.

Gesto de amor: Cão resgatado doente em frente a escola no Itanhangá ganha um lar

Sem perder a ternura: Sócias da produtora Das Minas promovem o empoderamento feminino através do audiovisual

Quando a dor do fim de um casamento, em 2014, levou-a a um diagnóstico de ansiedade e depressão, descobriu nas bolachas uma terapia não convencional para recuperar a saúde mental. As rosquinhas também foram fundamentais para que a professora de culinária complementasse a renda durante o período em que fixou residência no país europeu, entre 2018 e parte de 2019.

As delícias ainda se mostraram imprescindíveis no ano seguinte, após o início da pandemia. Foram as vendas dos amanteigados que derretem na boca que garantiram a sobrevivência da proprietária da Gostosa Gentileza, empreendimento especializado em biscoitos e sobremesas. Atualmente, além de cuidar do seu negócio, ela voltou a compartilhar os segredos das suas receitas divinas (inclusive as dos “biscoitos que salvam”) com os alunos da ONG Anjos da Tia Stellinha, no Grajaú.

Estudante de Gastronomia na IBMR, Danielle tem desde a infância uma relação íntima com a cozinha.

Mudança de vida: Após ficar hipertenso, executivo pede demissão e faz sucesso como designer floral

— A minha avó materna (Jandyra, já falecida) sabia cozinhar muito bem, só não tinha as técnicas. Como eu sempre fui curiosa e gostava de comer, ficava perto dela para descobrir como os ingredientes se transformavam em verdadeiras maravilhas. Aprendi de tudo um pouco com ela, mas ficava responsável por preparar os doces. Demorei a entender a culinária como profissão. Só em 2007, depois que me casei, passei a investir na cozinha. Fiz cursos de pratos típicos de festa junina, pães, salgados, frango desossado... Nesta época, postava o que preparava no Orkut e as pessoas perguntavam se eu fazia para vender. Eu respondia que sim, mas não sabia cobrar e perdi muito dinheiro por causa disso. Nestes cursos livres, não ensinam a colocar preço nos produtos — diz a cozinheira, de 47 anos, que estudou Jornalismo e Letras, mas não concluiu as faculdades.

No ano seguinte, ela aprendeu a parte de finanças no curso de cozinheiro do Senac. Depois, estudou na Faetec. E não parou mais.

— Em 2012, me formei em chef executiva, pelo Senac, e entendi que realmente havia nascido para trabalhar com gastronomia. É a minha grande paixão. Não por acaso, os biscoitos salvaram a minha vida — conta.

Antes de precisar tirar forças das massas amanteigadas para continuar seguindo em frente, a confeiteira entendeu que o seu sentimento pela culinária ia além do preparo. Ensinar o ofício era uma necessidade.

Renascimento: Eletricista que sobreviveu a descarga elétrica e passou por 26 cirurgias conta o drama que viveu em livro

— Batalhei por uma vaga de professora na Faetec Quintino e fui selecionada. Não demorou para também dar aulas no Senac. Eu me realizei, mas pensei em desistir de tudo quando o meu casamento acabou. Não tinha ânimo para nada — recorda.

Foi um médico psiquiatra quem a conduziu para encontrar a cura com a ajuda de uma atividade prazerosa.

— Ele me disse que poderia me receitar medicamentos para eu tratar as crises de ansiedade e a depressão, mas que me aconselhava mesmo a fazer algo que me desse alegria. Foi aí que cheguei em casa e decidi preparar os biscoitos amanteigados. Fiz a massa, enrolei, coloquei para assar... Isso me trouxe paz. A partir daí, passei a vender os biscoitos pela primeira vez. Este trabalho me rendeu um dinheiro bacana, e também fui superando os meus problemas. Em vários momentos, precisei parar com as encomendas de biscoitos porque estava dando aulas e ficava sem tempo para prepará-los. Mas a verdade é que eles sempre me salvaram. Retomei, recentemente, os amanteigados. Mas, desta vez, motivada apenas por oferecer aos clientes um sabor inesquecível — garante.

Os biscoitos foram companheiros de Danielle até na Irlanda:

Recapeamento: Obras recuperam o asfalto da Avenida Marechal Rondon

— Fui para lá decidida a não voltar mais. Não sabia falar inglês, mas encarei o desafio. Trabalhei em dois restaurante e ainda vendia, além dos biscoitos, bolo, brigadeiro e outros doces. Os irlandeses e as pessoas de outros países que viviam lá ficavam enloquecidas com esses sabores tão brasileiros.

Em 2019, devido a um problema de saúde na família, ela voltou para o Rio. Quando recomeçou a dar aulas, veio a pandemia, e os cursos fecharam as portas.

— Fiquei cinco meses em casa sem trabalhar. Mais uma vez, os biscoitos me salvaram — frisa a confeiteira, que prepara as guloseimas nos sabores tradicional, amendoim, chocolate, casadinho de goiabada e doce de leite, além dos salgados, disponíveis nas versões queijo, cebola, alho, ervas finas e pimenta.

O desejo de Danielle é ensinar as suas receitas a bordo de um motor home:

— Quero ter uma cozinha itinerante para sair pelo mundo, parando de cidade em cidade e ensinando o que aprendi. Este é o meu maior sonho. Tenho fé que um dia, num futuro próximo ou distante, vou realizar esse projeto de vida — confidencia ela, que recebe encomendas pelo perfil @gostosagentileza, no Instagram.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos