Adeus, Diego Armando Maradona

Matheus Pichonelli
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Argentina's soccer team head coach Diego Maradona waves to his fans at a stadium in the eastern Indian city of Kolkata December 6, 2008. Thousands of excited fans lined the road to give Maradona an emotional welcome. REUTERS/Parth Sanyal (INDIA)
Argentina's soccer team head coach Diego Maradona waves to his fans at a stadium in the eastern Indian city of Kolkata December 6, 2008. Thousands of excited fans lined the road to give Maradona an emotional welcome. REUTERS/Parth Sanyal (INDIA)

Leopoldo Luque não é jogador.

Mas se por algum instante da vida imaginou como seria marcar um gol e correr para os braços da torcida ele descobriu no último 4 de novembro. Naquele dia, após uma hora de cirurgia para drenar uma pequena hemorragia no cérebro de Diego Armando Maradona, coube ao médico particular do craque dar a notícia aos fãs: tudo correu bem na partida entre a vida e a morte. A notícia foi celebrada como gol. E Luque foi carregado pela torcida, eufórica. Se você não chorou largado com a cena você está morto por dentro.

Mas vida de torcedor é assim.

Num dia, vem a euforia.

No outro, o efeito-rebote em forma de realidade.

E a realidade é que a finitude é a única adversária que não se vence nem permite revanche no jogo seguinte.

Diego Maradona morreu menos de um mês após aquela celebração. Uma celebração que fez até os mais desencantados com o esporte imaginar que o futebol, às vezes, é maior que a vida.

Quem já se encantou com o que Maradona era capaz de fazer em campo sabe que ele não era desse mundo. Não se sabe de onde era, mas este local de origem chamou de volta.

Este aqui, de terra batida e pastagem, como os que ele aprendeu a bater bola, era território transitório, com intervalos não de 15, mas de 90 minutos entre batalhas mundanas, de lutas e convicções políticas e duelos diários para se manter sóbrio, longe do romantismo que o vício poderia suscitar.

Longe da euforia, seu próprio médico relatava, cansado, como era difícil lidar com o gênio dos campos, humano fora dele. Um gênio que queria fugir o tempo todo das amarras e restrições hospitalares.

A volta para casa foi sua última vitória. Maradona estava onde queria estar.

A celebração dos torcedores com sua vitória parcial contra a morte foi a última vitória do gênio das intensidades, que fez do jogo um campo de guerra. E que, para vencer, usou tudo o que estava ao alcance, inclusive as mãos.

O tempo, como o futebol, não permite paralelos. Mas a essa altura é possível dizer que nada, nem Messi, chegará aos pés da idolatria por quem destroçou os rivais britânicos após ver seu país ser destroçado na Guerra das Malvinas. Não foi apenas a maior atuação individual da história das Copas. Foi uma revanche contra a História.

Para uma multidão, Maradona era Deus.

Longe dela, era o cidadão inquieto e inconformado. Era também o torcedor apaixonado, que desviava bolas com o olhar de quem precisava ser amarrado no camarote das arenas para não entrar em campo.

Maradona foi um dos poucos ídolos que viu em vida seu nome virar nome também nome de igreja. Seus seguidores têm como mandamento não julgar o que seu deus fez em vida, mas sim o que ele fez na vida deles.

Um dos fundadores dessa igreja não titubeou em batizar as filhas gêmeas, nascidas em 2011, de Mara e Dona. Quem mais provocaria paixão assim?

Maradona talvez não saiba. Mas, menos de um mês atrás, quando completou 60 anos, foi tema de um pequena obra-prima escrita pelo repórter Marcos Uchôa e exibida no Esporte Espetacular da TV Globo.

Naquela semana, Maradona foi cumprimentado por Pelé, com quem sempre rivalizou. Mas que, naquela semana de outubro, o mês 10, número estampado em suas camisas, escreveu: “Vou sempre aplaudir e torcer por você, meu amigo”. “Que você continue sorrindo e me fazendo feliz”, completou o Rei, que uma semana antes, ao celebrar 80 anos, também recebeu felicitações do ídolo-fã.

Na crônica, Uchôa perguntava, como uma predição, se existe vida depois do futebol. Ele mesmo respondia que não. Não naquela estratosfera celestial. E definia: como Pelé, Maradona não é imortal. Mas é eterno.

Maradona não era deste mundo. Mas antes de voltar para onde veio, seja lá onde for, encheu o povo de alegria e regou de glórias este sono, como os versos eternizados da música “La Mano de Diós”.

De onde estiver, que continue sorrindo. Como um dia nos fez sorrir.