Adiamento de Censo e greve abrem nova crise política na Bolívia

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A Bolívia vive uma nova crise política, evidenciada por uma reunião realizada em Cochabamba nesta sexta-feira (28) pelo presidente Luis Arce. Oficialmente, o encontro se dá para que autoridades de diferentes partes do país manifestem sua posição sobre a data de realização do Censo.

O início do processo se tornou objeto de um impasse que desencadeou uma greve, iniciada há seis dias, em Santa Cruz de la Sierra. O governo defende manter o levantamento em 2024, mas políticos da oposição querem adiantar o processo para o ano que vem.

A capital crucenha, onde se desenhou o movimento de resistência, é dominada justamente por opositores de Arce. Um de seus líderes é o governador de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, vice-presidente do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz. Ele antecipou que não iria ao encontro desta sexta, recusando-se a negociar com o governo, e disse que sua província continuaria em greve.

"A reunião de Cochabamba não é técnica, é política. Portanto de nada serve que expliquemos nela nossas razões técnicas de por que queremos o Censo em 2023. A greve continua", afirmou ao jornal El Deber, baseado em Santa Cruz e de linha editorial contrária ao governo.

Conhecidos como Cívicos, os empresários da província ainda convocaram uma reunião paralela em Santa Cruz. "Nós não vamos negociar assim. A crise é aqui, o presidente tem de vir negociar aqui", disse o líder do grupo, Rómulo Calvo.

O encontro do presidente prevê a participação de mais de 300 autoridades, cada uma com direito a uma intervenção mínima de três minutos --sem hora para terminar, o evento deve se estender madrugada adentro. Arce se disse aberto ao diálogo com os Cívicos, desde que não haja exigência de que a data do Censo seja alterada.

A reunião se dá num ambiente de falta de transparência. Não foi autorizada a entrada de jornalistas e o sinal da TV estatal foi cortado. Não são permitidos celulares e quem fala deve deixar a sala na sequência, relatou um político de oposição à Folha.

Newsletter China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados; exclusiva para assinantes. *** Inicialmente, o Censo estava previsto para ocorrer em novembro deste ano, mas a gestão Arce decidiu prorrogá-lo até 2024, alegando problemas logísticos e outras prioridades. Para a oposição, a pesquisa não pode esperar mais, porque baseia políticas públicas e o Orçamento. Nesse sentido, os empresários de Santa Cruz afirmam que o adiamento prejudicaria a província, a mais fervilhante economia do país e com população crescente.

O grupo governista, por sua vez, afirma que a diferença de um ano na realização do Censo não representará grande diferença.

A crise levou o governo a suspender, de modo temporário, as exportações de grãos, farinha de soja, açúcar, azeite e carne. O ministro do Desenvolvimento Produtivo, Néstor Huanca, disse que a decisão "se estenderá enquanto continuar a greve em Santa Cruz, que impede o abastecimento regular de produtos ao mercado interno".

Sindicatos ligados ao MAS sugeriram realizar um cerco à cidade de Santa Cruz, para bloquear a entrega de alimentos enquanto durar a greve. Enquanto isso, os Cívicos conseguiram reunir apoios em outras províncias -houve uma marcha em La Paz e greves registradas nos departamentos de Beni e Tarija.

Eleito em 2020 depois de anos turbulentos de crise -que se seguiram à renúncia de Evo Morales e à chegada ao poder por meio de uma manobra legislativa de Jeanine Áñez, hoje cumprindo pena de prisão-, Arce volta a enfrentar o mais importante rival de seu partido MAS (Movimento ao Socialismo), o dos empresários de Santa Cruz.

O caso chama a atenção porque foi a partir de uma greve em Santa Cruz que se iniciou o processo de violentos enfrentamentos que levaram à queda de Evo. À época, os Cívicos apoiaram a proposta de interinidade de Áñez. Simbolicamente, a liderança do grupo decidiu começar a greve atual na mesma data do movimento de 2019. O MAS vê as ações como golpistas.

Ao partido governista a greve tem servido para reaproximar o ex e o atual presidente, que estavam afastados e voltaram a aparecer juntos para apoiar uma saída negociada.