Adilson encara volta ao futebol como recomeço: “Todos nós erramos na vida"

Adilson Batista durante partida do América-MG em 2018 (Fernando Moreno/Futura Press)

Por Marcelo Guimarães

Considerado como uma das revelações entre os treinadores que iniciaram nos anos 2000, Adilson Batista passou por grandes clubes do futebol brasileiro, como Grêmio, Cruzeiro, Atlético-PR, São Paulo, Santos, Corinthians e Vasco. Entre 2015 e 2018, ele ficou fora do futebol e só voltou a trabalhar na última edição do Campeonato Brasileiro pelo América-MG, em uma breve passagem.

Durante o período que ficou sem trabalhar, Adilson aproveitou para se aperfeiçoar, desde que deixou o Coelho. Ele foi viajou para acompanhar partidas, troca informações com companheiros de profissão e, principalmente, participou dos cursos ministrados pela CBF, como o da licença PRO. Satisfeito com o conhecimento adquirido, o treinador disse que encara o seu retorno como um recomeço na carreira.

- Fui para os Estados Unidos passear com a família, terminei o curso da CBF para receber a licença PRO. Surgiram duas situações, mas não se concretizaram. Todos nós erramos na vida. Eu acabei cometendo alguns erros, fazendo algumas escolhas que não deveria ter feito, mas isso faz parte da carreira. Infelizmente, no Brasil, todos estão tendo dificuldades para ficar um grande período em um clube. O futebol exige estudo, uma preparação melhor, mas quem comanda, escreve e torce não tem paciência. Se eu pudesse, eu teria feito todos os cursos antes e iniciado agora. Estou com 51 anos e é um recomeço. É um objetivo voltar a trabalhar nos grandes clubes. Eu estava fazendo um bom trabalho no América-MG. Infelizmente, por questões de qualidade, mesmo, acabamos perdendo alguns jogos e sobrou para mim.

Desde que a CBF começou com cursos para treinadores e gestores esportivos, Adilson disse que as pessoas ligadas ao futebol estão conversando mais e trocando experiências. Ele destacou a importância das atividades não só na formação de profissionais, como também no desenvolvimento dos atletas.

- Os treinadores estão conversando mais. Foram 160 em dezembro, essa troca é constante para que a classe melhore, além da lei Caio Júnior, com os direitos, deveres, responsabilidades e a ética. Estamos sempre conversando para que melhore o profissional em si. A qualidade dos nossos jogadores também e os professores são para isso.

Confira outros trechos da entrevista:

Você ainda pensa em fazer cursos de aperfeiçoamento fora do país?

- Eu sempre penso. O conhecimento é muito importante. Eu sempre estou viajando e acompanhado, principalmente, a América do Sul. Durante a última Florida Cup, eu acompanhei os clubes europeus. Eu conheço o Fábio Carille, o Rogério Ceni, da época do São Paulo. O Atlético-MG foi, o Internacional também, mas eu busquei algo a mais na Flórida. Fui ao Schalke 04 e ao Ajax para aprender o que eles estão fazendo e essa troca profissional é muito importante. A América do Sul também tem grandes profissionais. Essa troca precisa ser constante.

Na sua opinião, os treinadores brasileiros têm condições de trabalhar em grandes clubes europeus?

- O treinador brasileiro tem condição de trabalhar em grandes clubes da Europa. O Vanderlei Luxemburgo teve a oportunidade, assim como o Carlos Alberto Parreira, o Felipão, o Leonardo e o Carlos Alberto Silva. Gostaria de ter visto o Zico na Udinese, o Falcão na Roma, o Cerezo na Sampdoria e o Roque Júnior no Milan. Precisamos nos preparar. O futebol brasileiro acordou, a CBF está de parabéns com uma turma muito boa que está ajudando neste processo de formação, que é muito importante. O Brasil está dando um passo muito importante para se qualificar. Gostaria que todos os setores melhorassem.

Quais são as suas principais referências como treinador de futebol?

- Precisamos enaltecer os profissionais brasileiros. Eu tive uma escola muito boa e agradeço por isso. Desde o Ênio Andrade, Felipão, Carlos Alberto Silva, Nelsinho Baptista, Levir Culpi e Oswaldo de Oliveira. Nós temos ótimos profissionais no Brasil. Eles são capacitados, preparados, passam conteúdo e têm trabalhos ótimos. Agradeço também ao Rubens Minelli, Telê Santana, Vanderlei Luxemburgo e tantos outros da nova geração, que tem muito potencial. Eu vejo muito potencial no Roger Machado e no Maurício Barbieri. Temos tanta gente boa, mas a questão cultural, infelizmente, acaba atrapalhando. Claro que os grandes técnicos da Europa acabam sendo modelos para todos nós, mas temos que analisar a dificuldade no Brasil, o desgaste das viagens, a qualidade dos atletas.

A seleção brasileira está fora do próximo Mundial Sub-20 e o desempenho da equipe foi bastante questionado no último Sul-Americano. Como você analisa o trabalho de base feito no país?

- Nós estamos cobrando dos atletas de base, mas, para que eles se qualifiquem, é preciso exercitar. Vou te dar o exemplo do Athletico. Eu não trabalhei em categoria de base, mas o Athletico joga uma vez contra o Coritiba, outra com o Paraná, aí dois jogos pela Taça São Paulo, dois jogos pela Taça BH e depois em Porto Alegre. Agora que criaram o Campeonato Brasileiro. Então, como vamos qualificar os meninos? Na minha visão, esses meninos precisam estar integrados ao profissional. Depois das partidas, eles precisam jogar contra os reservas. O meu pensamento é esse. Como que vamos melhorar esses meninos sem enfrentamentos?

Como você avalia a estrutura dos clubes brasileiros atualmente?

- Hoje, está melhor. A evolução do Athletico é um grande exemplo. Quando eu comecei, a estrutura era uma coisa totalmente diferente da que há hoje, que é uma das melhores do país. Gostaria que todos os clubes tivessem essas estruturas, como o que também encontramos no Centros de Treinamento do São Paulo, do Palmeiras, do Cruzeiro e do Atlético-MG. O Corinthians também melhorou bastante desde a época que joguei lá. Os clubes precisam seguir esses exemplos na base e no profissional.

Você deseja trabalhar como gestor esportivo?

- Eu fiz um curso pela Universidade do Esporte, conversei com alguns profissionais, mas hoje não tenho desejo. A minha paixão, o meu amor e a minha vontade estão no treinamento, no dia a dia e nos jogos. Eu gosto disso. Quem sabe no futuro o Petraglia me convida para trabalhar no Athletico?

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