Adotada aos 3 meses, Thainá Duarte conta que tem contato com mãe biológica: 'Queria muito cuidar de mim'

A voz embargada de Thainá Duarte, em dado momento desta entrevista, carregava memórias da época em que um pote de doce era a verdadeira recompensa de seus primeiros trabalhos como atriz, aos 13 anos. “Sou muito emotiva”, justifica, alegando ser uma “típica canceriana”. Aos 15, recorda-se dos banhos tomados na rodoviária do Rio depois de passar horas a fio no ônibus que vinha de São Paulo para marcar presença em testes de elenco na Globo, sempre acompanhada por uma apoiadora incondicional: sua mãe, dona Joice. “Fui adotada com 3 meses e muito acolhida pela minha família, todos me deram muito amor. Mas criou-se um contexto de interação muito particular. Sou uma mulher negra, meus parentes são brancos e sempre me vi nesse lugar de diferente. Ainda criança, criava esse culto à arte, de interpretar personagens, para tentar me encaixar.”

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Não só se encaixou, como conquistou seu próprio espaço no universo da dramaturgia, com obras importantes como “Cangaço novo”, série original da Amazon tratada como aposta para 2023. E olha que Thainá, hoje com 27 anos, quase desistiu de seguir com a carreira artística, já que ainda não havia recebido o “sim” de uma grande produção. Até ser selecionada para atuar em “Mundo cão”, com Lázaro Ramos, que marcou sua estreia no cinema, em 2016. “Tinha para mim que seria o meu último teste, achava que não tinha vocação. Passei para Engenharia na Universidade Federal de São Paulo, pensava em fazer algo que me desse dinheiro e, quando fui aprovada, minha vida mudou”, narra.

Três anos depois, a atriz foi escalada para interpretar seu papel de maior destaque, a Clara de “Aruanas”, dividindo set com nomes do quilate de Débora Falabella, Taís Araujo e Leandra Leal. “Thainá é uma presença, potência e força em cena. Nosso encontro foi muito feliz, tive a sorte de estar com ela nesse trabalho. Compartilhamos coisas muito íntimas e especiais. Tenho o maior carinho, amor e orgulho”, declara Leandra.

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O orgulho pela trajetória da atriz também é compartilhado pela mãe biológica de Thainá, com quem ela mantém contato desde sempre. “A Solange é retrato de uma realidade muito cruel do Brasil. Era uma jovem de 16 anos, do interior de Minas Gerais que veio para São Paulo trabalhar em casa de família, sem estrutura financeira e suporte familiar. Ela foi abrigada numa instituição de acolhimento e não podia ficar comigo”, comenta a artista. Coube ao pai levá-la para a casa de Joice, com quem tinha um relacionamento. Ele faleceria quatro anos depois. “Hoje, vejo minha mãe biológica como uma mulher que não conseguiu, mas queria muito cuidar de mim. E que bom que ganhei de presente a minha família. Tenho vontade de adotar, acho que seria uma forma generosa de retribuir.” Sua mãe adotiva, por sua vez, emociona-se ao falar da filha: “Veio de outra barriga, mas é minha de muitas maneiras. Em como é trabalhadora e esforçada, divertida e ótima companhia para uma viagem, além de inteligente e linda.”

Elogios fortuitos no entanto, eram raros ou nulos durante a infância e adolescência. “Ao longo da minha construção como mulher preta, fui muito questionada. Não me diziam que era bonita quando criança. Não porque não fosse, mas porque meu tom de pele não era agradável”, pontua.

A julgar pela desenvoltura da atriz nas fotos deste ensaio, em que Thainá aproveita frestas de luz que conferem sutileza à sua sensualidade, é difícil imaginar que explorar tal atributo seja desconfortável. “Estou num movimento de me apropriar da minha potência. Tenho medo de ser uma mulher bonita e sexy, de deixar as coisas fluírem, porque não sei como as pessoas vão me olhar”, diz. “Por ser uma mulher preta, já me objetificam estando normal, vestida, fazendo um ensaio que não seja nada provocativo. Sou o estereótipo da ‘mulata exportação’, me assediam todos os dias.”

Mas para participar da gravação do clipe de “20 ligações”, hit de Baco Exu do Blues, Thainá abriu mão de suas inseguranças e protagonizou cenas calientes com o rapper baiano. “Precisava de alguém que me conduzisse no mundo da atuação e sabia que ela conseguiria fazer isso. Thainá deixou o set muito confortável, e usou toda a expertise e experiência para que saísse o melhor resultado possível”, elogia o cantor.

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A menos de dois meses de terminar o ano, a atriz mantém o olhar focado nos próximos projetos, mas não deixa de tirar um tempo para reverenciar as figuras que pavimentaram o caminho para que pudesse correr. “A arte me cura, e poder curar nesse lugar é muito precioso.”