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Adrenalina e preocupação sanitária movem blitz contra festas clandestinas

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A SUV insufilmada passa diante de um bar lotado na região do Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo, onde uma festa julina atrai uma enorme aglomeração de pessoas, desrespeitando as normas sanitárias de combate à Covid-19

“Delegado, já conferimos o local, é aqui mesmo, em um minuto passo a localização”, informa o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), acompanhado do seu assessor responsável pelo registro em vídeo das ações da força-tarefa criada para combater festas clandestinas em São Paulo.

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“Sabe aquele vídeo da socialite gritando e xingando o Frota, que virou meme? Fui eu que fiz”, conta o fotógrafo Alex Silva, sobre a cena em que a modelo e influenciadora bolsonarista Liziane Gutierrez xinga policiais e o deputado federal, envolvidos na ação que encerrou uma festa nos Jardins com ingressos a R$ 1.600. Além das ofensas, Liziane sugere que os policiais fossem para a favela.

“O pior de tudo é que de lá nós fomos direto para uma favela na zona leste, encerrar um baile funk que estava acontecendo”, comenta Frota em meio à espera pelos policiais civis do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos). 

Operações ocorrem de madrugada e são realizadas após um trabalho detalhado de coleta de informações com agentes infiltrados nas baladas clandestinas. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Operações ocorrem de madrugada e são realizadas após um trabalho detalhado de coleta de informações com agentes infiltrados nas baladas clandestinas. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

O grupo, um dos componentes da elite da Polícia Civil paulista, faz parte do núcleo duro das ações da força-tarefa, junto do GER (Grupo Especial de Reação). Os grupos dão apoio aos funcionários da Vigilância Sanitária do Estado e Procon-SP, responsáveis pela autuação dos responsáveis pelas festas.

Segundo Frota, cada pessoa presente nas festas representa R$ 5.000 em multa, por isso a importância na contagem de cada vez que uma festa é encerrada. E justifica também a discrição das ações.

Iniciadas em janeiro de 2021 após as festas de fim de ano, as operações contra festas-clandestinas ganharam corpo em março, com o estabelecimento de uma força-tarefa envolvendo diversos órgãos estaduais, que nasceu em uma reunião na sede do governo paulista, o Palácio dos Bandeirantes.

Se os policiais civis de elite são os braços das ações, o rosto é o deputado federal eleito na esteira do bolsonarismo em 2018, mas que se arrepende do apoio dado e recebido.

“Entendi já no começo de 2019 que eu havia errado e embarcado em uma canoa furada. O Bolsonaro logo de cara mostrou que não tinha nenhum objetivo social e não me arrependo de ter saído fora”, conta o ex-PSL que foi expulso do partido em meio a críticas ao governo federal.

COMO SÃO AS AÇÕES DA FORÇA-TAREFA CONTRA FESTAS CLANDESTINAS

Passados 4 meses de operações, o protocolo desenvolvido envolve segredos, discrição e adrenalina. Um grupo de 18 voluntários ligados ao gabinete do deputado atuam como inteligência das ações. 

O deputado federal Alexandre Frota atua na linha de frente e comanda
O deputado federal Alexandre Frota atua na linha de frente e comanda "informalmente" as fiscalizações da força-tarefa. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

São eles que, segundo Frota, entram infiltrados como convidados nas festas, mapeiam o número de seguranças, os equipamentos a serem confiscados, entradas, saídas, e passam tudo a Frota, que centraliza as informações.

“Os policiais do garra saem da base sem saber aonde vão. Somente o delegado responsável, que puxa o comboio, é que sabe o destino”, explica o parlamentar. Às 0h30 da última quarta-feira o destino é passado à equipe. O WhatsApp sempre aberto no celular não tem descanso, apesar das telas com luminosidade mínima e o rádio desligado. 

“Precisamos passar a ideia de que o carro está vazio; uma vez uma menina até se maquiou usando o vidro do carro conosco todos aqui dentro”, conta o fotógrafo Silva.

“Venham preparados porque o ambiente pode ser hostil; está na festa o dono daquela casa noturna em Paraisópolis envolvida no desaparecimento de duas meninas”, avisa o deputado ao delegado Ricardo Prezia, que em 20 minutos atravessa 35 km da cidade. 

Os agentes altamente armados chegam de repente já abordando os participantes. 

Um deles, em outra noite, contava após cortar as mãos arrombando um portão de aço na região central da cidade onde ocorria uma festa de público LGBT que o momento da chegada é o mais excitante: “Quando a gente entra, e não faz ideia o que vai enfrentar, a adrenalina vai a mil, é o que faz o trabalho valer a pena; depois são hora levando o pessoal à delegacia, fazendo relatório; são 10 minutos bons para 4 horas chatas”, conta.

As blitzes realizadas há 4 meses são coordenadas pelo Garra e pelo GER (Grupo Especial de Reação) da Polícia Civil de São Paulo. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
As blitzes realizadas há 4 meses são coordenadas pelo Garra e pelo GER (Grupo Especial de Reação) da Polícia Civil de São Paulo. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Além das multas, todos os equipamentos eletrônicos são confiscados e levados juntos aos responsáveis ao DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), e só são liberados após apresentação de notas fiscais. 

O delegado de plantão serve apenas ao Comitê de Blitze, o que dá agilidade, além de manter o segredo das operações. Segundo o deputado, já houve problema com policiais militares e delegados locais que vazaram a operação, que acabou não sendo realizada.

Toda furtividade, no entanto, não evitou que naquele dia o comboio não autuasse ninguém. Para não perder a viagem, os funcionários a Vigilância Sanitária lacraram um bar vizinho, aberto, enquanto as quase duas dezenas de veículos seguiam viagem para outro estabelecimento, e mais um terceiro, onde jovens de classe alta tentavam esconder o rosto na saída de uma casa quente, lotada e abafada.

Conforme a flexibilização aumenta, cai os cuidados gerais da população, e a atuação do comitê cujo principal nome - e mais xingado - é um parlamentar cujo passado faria sugerir que estaria na organização, e não no combate às festas. 

Um protagonista que já passou por diversos cenários na carreira, mas que afirma que policial nunca passou pela cabeça - apesar de não disfarçar o gosto pelo poder recém-adquirido.

Eventos são realizados descumprindo as regras da Vigilância Sanitária e os protocolos de segurança contra a Covid-19. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Eventos são realizados descumprindo as regras da Vigilância Sanitária e os protocolos de segurança contra a Covid-19. (Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
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