Adriana Behar, CEO demitida da CBV, lamenta: 'Mulher em cargo de chefia e com bom trabalho ainda é um desafio'

Adriana Behar, duas vezes medalhista olímpica, não é mais a CEO da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). Após pressão de onze presidentes de federações, especialmente da região Nordeste, berço do atual presidente da entidade, Walter Pitombo, o Toroca, ela foi comunicada de seu desligamento nesta terça-feira.

Em menos de dois anos na função, Adriana, a primeira mulher a ocupar cargo de alto escalão na modalidade, incluiu na agenda da entidade políticas de diversidade, abrangendo regulamentação para que atletas transgêneros disputem competições nacionais.

-- Mulher em cargo de chefia, fazendo um bom trabalho, ainda é um desafio muito grande nesse ambiente -- lamentou Adriana, que falou sobre a questão da diversidade, uma bandeira levantada pela sua gestão: -- Não existe a percepção da importância disso. Esse também é um desafio muito grande, de entender o quanto isso agrega valor e até aproxima investidores. E, claro, da importância de ter um ambiente de inclusão e de oportunidades para as mulheres se desenvolverem.

Adriana lembrou que este ano a CBV criou políticas de equidade de gênero e valorização da diversidade. Sobre as políticas de inclusão, tema ainda sensível no âmbito esportivo, Adriana disse:

-- A mim não assustou, mas talvez aos outros -- disse Adriana. -- Ainda temos um desafio muito grande, de novo, como mulher, de trazer temas que não são só obrigatórios mas fundamentais nos dias de hoje, onde o pilar esportivo é fundamental, mas também os pilares de formação, diversidade e de inclusão. Esse é um caminho de inovação e modernidade. O esporte é também uma ferramenta de posicionamento social. Mas isso, claro, traz um ambiente novo e muitas vezes as pessoas não se sentem confortáveis. É uma mudança de cultura e de status quo.

Em uma carta endereçada ao presidente da CBV, as federações Paulista, Amazonense, Sergipana, Paraibana, Baiana, Pernambucana, Distrito Federal, Goiana, Maranhense, Rondoniense e Paraense, pediram a demissão de Adriana e alegaram que a CEO "passa boa parte do tempo no exterior, com a família" e culpam essa "ausência" pela falta de negócios beneficiando a CBV, além dela "não ter experiência em gestão".

Curioso é que, no meio do voleibol, Toroca é considerado um "presidente fantasma", uma vez que não comparece nos eventos esportivos e nunca concede entrevistas aos jornalistas. Quem comanda a CBV é seu vice, Radamés Lattari.

-- Esses mecanismos retrógrados, onde a política conta mais... Esses movimentos que citei, que são fundamentais e obrigatórios atualmente, quando não se tem convergência, cria-se um abismo muito grande. Entre o que é uma gestão que traz não só inclusão, mas processos de transparência, para que de fato uma entidade esportiva seja uma prestadora de serviço para o ecossistema, e o que existe hoje em dia no âmbito esportivo. E se não mudar, o distanciamento será cada vez maior — argumenta. — A política é mais importante, agarrar-se ao poder é prioridade e o desenvolvimento real do voleibol torna-se tão secundário.

Ao contrário do que alegam estas federações, Adriana é presente tanto na sede da entidade no Rio de Janeiro quanto em eventos de vôlei de praia e quadra. Tem acesso a atletas, tanto que jogadores e membros de comissão técnica, tanto da praia quanto da quadra, se mostraram surpresos com a demissão de Adriana.

Quando questionada sobre o motivo pelo qual foi demitida, Adriana demorou a responder:

-- Boa pergunta, não sei. Não tive esta resposta -- falou. -- O que eu digo é que desde o dia que assumi a posição de CEO, o meu trabalho e responsabilidade, de forma muito clara, foi voltado para um trabalho de inovação, modernização e de gestão, pautados em responsabilidade e transparência porque é assim que eu entendo que uma entidade esportiva ou qualquer empresa deve trabalhar. Esse foi o meu compromisso até o último dia. Minha dedicação foi integral, não tinha dia, hora, final de semana ou feriado. E, sinceramente, em pouco tempo, todos puderam perceber os grandes avanços que esta gestão fez.

O pedido de demissão de Adriana havia sido discutido em reunião há cerca de um mês em Maceió (AL), berço de Toroca, que se comprometeu em demiti-la em um momento mais adequado. À época, a seleção brasileira feminina de vôlei disputada Mundial, no qual ficou com a medalha de prata.

A CEO ficou sabendo da carta e a respondeu, também em um documento endereçado à presidência da entidade. Nela, ela cita que o modelo de trabalho híbrido foi acordado com Radamés no convite para que ela trabalhasse na CBV. Reforçou ainda que o "trabalho remoto é amplamente utilizado por entidades esportivas, como o Comitê Olímpico do Brasil, e por grandes empresas nacionais e internacionais. A pandemia reforçou seu sucesso e funcionalidade".

Em cinco páginas de texto, ela cita diversas realizações, incluindo novos patrocinadores, que trouxeram R$ 6 milhões para a confederação, novos convênios com órgãos públicos, e bons resultados das seleções de quadra.

Foi com Adriana que a CBV se tornou este ano a primeira Confederação esportiva do Brasil a adotar uma política interna de promoção da equidade de gênero e valorização da diversidade. Em material divulgado à imprensa em outubro, ela explicou ainda que a CBV publicava políticas próprias e novas diretrizes para a inclusão de atletas transgêneros "com a segurança de indicadores claros e transparentes” nas competições nacionais.

Via nota a CBV confirmou a saída de Adriana, mas não deu detalhes: "A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) informa que, a partir desta quarta-feira (9/11), Adriana Behar não ocupa mais o cargo de CEO da entidade. Desde março de 2021, quando assumiu a função, Adriana se dedicou ao crescimento e ao desenvolvimento do voleibol, conquistando importantes resultados. A CBV agradece todo o seu empenho e reconhece os méritos do trabalho realizado, porém neste momento a opção é seguir por outra linha de gestão interna. Bicampeã mundial e duas vezes medalhista olímpica, Adriana Behar tem seu nome na história do voleibol e terá sempre o respeito e a admiração da CBV"