Adriana Esteves, a Thelma de ‘Amor de mãe’, admite: ‘Sou controladora também com os meus filhos’

Naiara Andrade
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A voz, doce e serena, do outro lado da linha, em nada remete à tensão de Thelma, à amargura de Laureta, à inveja de Inês, à histeria de Carminha... e tantos outros tons de personagens malvadas e/ou desequilibradas já vividas por Adriana Esteves em seus 32 anos de teledramaturgia. Aos 51, a atriz não crê que seja uma boa ideia rotulá-las como vilãs. “Acho até um desrespeito chamá-las assim”, afirma, já protegendo sua protagonista em “Amor de mãe” de um possível “apedrejamento”, na fase final da novela, que começa a ser exibida nesta segunda-feira (15) na Globo. Regina Casé, a Lurdes da trama, já adiantou à Canal Extra que, perto da nova Thelma, Carminha é “uma fofa”. A mulher que criou Danilo (Chay Suede) será capaz de fazer o impensável para uma mãe, justamente a fim de manter este título e esconder da nordestina que o rapaz, na verdade, é Domênico, seu filho perdido.

Nesta entrevista, Adriana se confessa um tanto quanto controladora com sua prole de três (Agnes, de 23 anos; Felipe, de 21; e Vicente, de 14); entrega curiosidades sobre a convivência em família, nesta época de distanciamento social; comenta o sensível retorno ao trabalho durante a pandemia do coronavírus; demonstra orgulho da parceria com Vladimir Brichta, de 45 anos, na vida e na carreira; e, ausente das redes sociais por opção e convicção, opina sobre “cancelamento”, termo contemporâneo, de efeitos devastadores há tempos.

Como foi ver Thelma de volta à TV, com a exibição do compacto de “Amor de mãe”?

Fiquei emocionada. Estamos todos tão à flor da pele, que eu achei tudo mais bonito, gostei mais ainda. No primeiro dia (1º de março), Vlad e Agnes estavam gravando (pai e filha estão no elenco de “Quanto mais vida, melhor”), Felipe não estava aqui em casa e Vicente ficou absorvido pelo jogo com amigos no computador. Assistimos eu e meu cachorrinho com os amigos da novela, no grupo do WhatsApp. A gente combinou de cada um mandar uma foto do momento. Eu me arrumei toda para sentar em frente à TV (risos)! É um trabalho belíssimo, de qualidade. Nós, brasileiros, estamos precisando ver coisas lindas na televisão, que tem sido uma ótima companhia. Fico envaidecida e orgulhosa de poder cuidar das pessoas com o meu trabalho.

Dentro dos protocolos de segurança no retorno aos estúdios para gravar as últimas cenas, o que causou maior estranheza?

A máscara não nos permitia ter a leitura labial. Dava vontade de pedir para a pessoa tirar, para ver qual era o grau de expressão no rosto dela. Essa experiência foi muito difícil. Já a placa de acrílico permitia extravasar, chegar mais perto. Fica meio frio fazer carinho e brigar a distância.

Os 23 capítulos finais foram mais emocionantes de gravar do que os 102 anteriores, por todas as circunstâncias?

Com certeza! A equipe inteira estava sensibilizada. Todos honrando o seu trabalho, mas com medo. Sair de casa é um risco, só por muito amor e necessidade. Não é fácil gravar na pandemia.

Do que sentiu e sente mais saudade nesses tempos de distanciamento social?

Pensando no coletivo, tenho saudade de ver as pessoas felizes do jeito que elas merecem ser. Felizes e livres. Senti falta do abraço no trabalho. Nesses oito meses em que gravamos a novela, nos tornamos uma família. Somos afetivos e, depois de um final de semana em casa, voltávamos na segunda-feira querendo trocar, se acarinhar. Lamento muito também não poder conviver direito com meus pais (o médico aposentado Paulo Felippe, de 79 anos, e a professora aposentada Regina, de 77). A gente dá um jeito, conversa pela internet, manda comida gostosa um para a casa do outro, mas... Quando peguei os dois para passarem um fim de semana comigo, estava todo mundo testado, de máscara, mandando beijo de longe.

Thelma, no início da novela, chorou muito. Você tem facilidade para se emocionar?

Essa é uma característica forte minha. Eu sou muito emoção. Meu filho Vicente é igualzinho. Quando pequeno, ele não ficava bem com isso. E eu expliquei que pode ser bom e bonito ser assim. Em cena, eu não choro simplesmente sob o comando do diretor ou por que o texto manda. Mas, sim, porque ali tem uma verdade que me emociona.

Nessa fase final, o jogo vira, e será Thelma quem fará muita gente chorar, mostrando sua feceta vilã, né?

Ah, não é bem assim... Ela será capaz de tudo para preservar o filho, não admite abrir mão do título de mãe. Mas as loucuras são passionais. Se bobear, ela faz as maiores atrocidades chorando, entra em total desequilíbrio. Só vendo!

Então você não a considera vilã?

Não, não. E, se você perguntar a respeito de personagens que fiz anteriormente, que ficaram bastante conhecidas, também digo que não são vilãs. Na hora em que me dão aquele papel, vira uma pessoa pra mim. Eu acredito que aquele alguém existe, que representa milhares de outros. Vilã, na minha cabeça, é algo tão estereotipado! Acho até um desrespeito com minhas personagens chamá-las assim.

Mas Thelma mereceria um castigo?

Eu acho que ela merecia conseguir se encontrar, porque sofre muito. Tem uma dor grande, é triste, precisava evoluir. Eu queria muito que todo mundo pudesse crescer, melhorar. Mas, para algumas pessoas, isso parece tão difícil, né? Para ela, também.

Além de superprotetora, Thelma é uma mãe muito controladora. Você já se pegou fazendo o mesmo com Felipe, Vicente ou Agnes?

Já, não posso mentir. Sou controladora também (risos)! Quer um exemplo? Eu comecei a gravar “O cravo e a rosa” (2001) antes de terminar a licença-maternidade do Felipe. Deixava as três mudas de roupa que meu filho trocaria durante o dia prontinhas, para a babá colocar nele as que eu queria. De três em três ceninhas, eu telefonava para saber como estava tudo. É muito controle, mas também é amor. Ainda mais com o primeiro filho, né? E até hoje, com os três já crescidos, ainda sou meio assim. Mas tento entender até onde posso ir, quando está sendo nocivo a eles. Não tenho problema com tatuagens, cabelos coloridos, nada disso. Eu curto e me divirto. Acho que sou mais controladora com qual faculdade vão fazer, se estão sendo bons alunos...

Os três enveredaram por carreiras artísticas, como os pais?

Agnes está se formando em Psicologia, fez Tablado, faz CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e foi selecionada para essa novela das sete, com o Vlad. Felipe é cantor e faz Direito. Vicente está no 9º ano na escola e é cheio de talentos artísticos. Ele é igual ao pai, um comediante nato. Aliás, é a mistura da mãe com o pai: chora e faz rir com facilidade. Também é gamer e se interessa por fotografia. Era preciso um assistente para o ensaio de fotos remoto da sua matéria. Então, bati na porta do quarto dele e pedi ajuda. Ele ficou durante 1h20 seguindo as diretrizes do fotógrafo, posicionou muito bem as câmeras. Eu morri de orgulho! Se um dia Vicente virar fotógrafo, já tem no currículo que ajudou na capa da Canal Extra (risos)!

Assim como Danilo não é filho biológico de Thelma, Agnes chegou pronta para você, é uma filha do coração...

Antes de engravidar do Felipe, tentei por quase seis anos ser mãe e não conseguia. Eu e o pai dele (o ator Marco Ricca) estávamos pensando em adotar. Depois, eu me separei do Marco. Quando conheci Vladimir, ele era viúvo e já tinha a Agnes. Meu namoro com Vlad foi ficando sério, e naturalmente ela se tornou uma filha pra mim. Ainda tivemos juntos o Vicente. Os três, biológicos ou não, são meus filhos, não tem nenhuma diferença.

Agnes sempre a chamou de mãe?

Eu nunca a deixei me tratar por “tia”. Ainda pequena, ela me chamava de Dri. Um dia, ouvindo Felipe gritar “mãe” o tempo todo, ela falou igual. Ficou muito sem graça, e eu a tranquilizei: “Se você quiser, pode me chamar assim, eu sou a mãe da casa”. Acho que era o que ela queria ouvir. Eu luto muito para corresponder ao amor que a mãe daria a ela. Gostaria que ficasse satisfeita com a forma com que eu cuido da Agnes junto com o Vlad. Mas preciso dizer que ser mãe de um filho de Vladimir é muito fácil. Ele é um apaixonado pela criação. Vlad, aqui em casa, é sinônimo de um grande cara. E ele ainda tem uma harmonia muito bonita com Marco Ricca, que é um excelente pai para Felipe.

Quando você chegou na vida do Vladimir, ele já tinha resolvido a situação da guarda de Agnes?

Quando eu o conheci e ainda éramos colegas de trabalho, não. Mas, antes de a gente começar a namorar, ele já tinha conseguido a guarda. Acompanhei tudo de perto, e como amiga eu o ajudei na luta para ter sua filha. Foi uma grande injustiça, felizmente revertida cedo. Agora ela está aqui linda, bem criada, em harmonia com a família da mãe biológica, com a avó materna...

Você fala do Marco Ricca com amizade e carinho. Deve ter sofrido com a internação e intubação dele por Covid, em dezembro...

Chegamos ao desespero de achar que ele não sobreviveria. Ele tem duas filhinhas, a esposa dele, Luli (Miller, atriz) está grávida... Ele não é só o pai do Felipe, mas um grande homem. Nossas famílias são muito próximas. Foi um susto horroroso.

Um pouco antes, Vladimir também foi diagnosticado com a doença, né?

Sim, Vlad foi diagnosticado, mas, graças a Deus, sem sintomas. Felipe e a namorada, Flavinha, também. Mas eu, Vicente e Agnes não pegamos. Nos isolamos, com todos os cuidados de higiene. Não dá pra brincar de roleta russa.

Quais foram as suas válvulas de escape durante a quarentena?

Eu fiquei muito dona de casa. Não cozinho muito bem, mas consigo me virar. A gente se revezou para limpar e organizar a casa, aguar as plantas... Na hora do lazer, jogamos xadrez, vemos séries e filmes, juntos e separados. Procuramos levar uma vida mentalmente saudável.

Sua relação com Vladimir se fortaleceu, nessa convivência 24 horas por dia?

A gente sempre foi muito parceiro. Formamos uma “duplona”. A gente pensa muito parecido em relação a tudo. Ficamos preocupados com nossos filhos, tentamos propiciar um equilíbrio dentro de casa: não criar fantasmas onde não existem, dar o tamanho real para o que é grave, fazer com que estejam fortes. A gente procurou regular horário para dormir, ficamos atentos a dar bons exemplos. E ter alegria, bom humor no dia a dia.

Vocês fizeram 15 anos de casados agora. São um dos casais mais duradouros e queridos do meio artístico. Percebem esse carinho?

Fizemos 15 anos de casados no dia 11 de fevereiro. São 17 juntos, no total. Ficamos muito felizes que gostem e torçam por nós, é claro. Mas, no trabalho, não pensamos como casal. Sempre tivemos o cuidado de garantir as nossas individualidades, as identidades artísticas de cada um.

Já fizeram alguns trabalhos juntos. Chegaram a contracenar em “Amor de mãe”?

Fizemos as novelas “Coração de estudante” (2002) e “Kubanacan” (2003), o filme “Real beleza” (2014), a série “Justiça” (2016), as novelas “Segundo sol” (2018) e, agora, “Amor de mãe”. Este é o nosso sexto encontro. Thelma e Davi tiveram um diálogo rápido, no galpão. Em “Justiça”, acho que a gente não contracenou. Ele estava lindo, fazia par com Jéssica Ellen, que é meu xodó e hoje é minha nora na novela (risos). Quando eu e Vlad estamos no mesmo projeto, podemos organizar direitinho as férias juntos. É bom por isso.

Você não tem perfil em redes sociais. Nunca teve curiosidade?

Cada um sabe o que já passou na vida e como quer continuar a construir sua história. Eu não daria conta, e não acho que isso seja um demérito. Se você não dá conta de algo, é melhor não fazer. E quando eu digo “não dar conta”, é emocionalmente. Isso consumiria um espaço em mim que eu não tenho disponibilidade pra dar.

Ignorar esse universo é uma bênção?

Não ignoro tudo. Eu leio notícias pela internet, só não estou nas redes sociais. Assim, não fico bisbilhotando a vida dos outros e nem permito que tenham acesso a intimidades minhas. Quando querem que eu veja alguma coisa fofa que postaram, os amigos me mandam por WhatsApp. Acho lindo! E as coisas mais nocivas, as pessoas elegantes me poupam. Fico só com a parte boa (risos).

Karol Conká disse ser a “nova Carminha” quando saiu do “Big Brother Brasil 21”. Quando você soube dessa fala dela, afirmou que não se sentia apta a comentar, porque não acompanha o reality. O tema que essa edição tem suscitado é o “cancelamento”. Algo que acontece constantemente nas redes sociais...

Eu tenho um nervoso desses nomes da moda... Agora é “cancelamento”. A gente vê tanta grosseria, tanta deselegância, tanta falta de cuidado com o próximo! Estamos vivendo um momento tão maior que isso! Era para todos terem mais empatia, mais amor, menos julgamento. Talvez sejam coisas desse tipo que me tirem das redes sociais. Eu não acho que a gente tenha que dar opinião sobre tudo. Você tem, sim, que ter sua opinião, mas não precisa emiti-la. Para algumas coisas, a gente nem tem conhecimento suficiente. Por exemplo, o “Big Brother Brasil”. É um fenômeno social, não tenho dúvida. Tanto que é muito falado, muito discutido. Mas existe o gosto particular. Não é o tipo de programa que me atraia. Na verdade, me dá até um certo sofrimento ver aquelas pessoas expostas ali.

Você sofreu uma espécie de “cancelamento”, na época da novela “Renascer” (1993). Reerguer-se foi mais difícil do que construir a carreira do zero?

Com meus 20 anos, talvez eu não tenha tido humor para entender que um jornalista brincava com a protagonista da novela das oito, produto muito visto e importante. Mas o trabalho da gente está aí para ser criticado, sendo bem ou mal falado. Talvez seja mais fácil para mim conversar sobre isso com você com meus 50 anos. Deve ter havido um folclore de que eu sofri quando não fui elogiada no início da minha trajetória de atriz. Isso pode ter acontecido, mas não tem tamanho. O importante é a trajetória de uma mulher que trabalha pra caraca, anos e anos a fio. E que, felizmente, tem trabalhos muito bonitos para serem apresentados.

Carminha é um sucesso arrebatador da sua carreira. Mas pouca gente lembra que você interpretou a icônica Nazaré Tedesco na fase mais jovem, dividindo a personagem com Renata Sorrah em “Senhora do destino” (2004)...

É que foi por uma semaninha só (risos). E foi lindo, porque eu e Renata somos meio almas gêmeas. Amo ter dividido uma personagem com ela! A gente já foi mãe e filha duas vezes, em “Pedra sobre pedra” (1992) e em “Segundo sol”.

Por que acredita dar tão certo nesses papéis de mulheres desequilibradas?

Eu tenho a sorte de ser convidada para personagens muito bem escritos. E muito diferentes.

Do drama ao humor, inclusive. Celinha, de “Toma lá, dá cá”, voltou à Globo, aos sábados.

Não sabia que estava reprisando de novo... O “The voice+” é aos domingos, né? Adoro!

O que ainda falta viver na carreira, que começou no posto de apresentadora, e não de atriz?

Ah, eu ainda vou viver muito, amor, estou só na metade! Vem muita Carminha, muita Thelma, muita louca por aí. Também posso ser centrada, posso ser serena... Eu faço de acordo com as oportunidades. Dentro de mim tem um pouco de tudo.