Adultização de meninas não é fenômeno recente

Imagem ilustrativa de duas adolescentes se maquiando (Foto: Getty Creative)
Imagem ilustrativa de duas adolescentes se maquiando (Foto: Getty Creative)

Você anda assustado com a escolha de looks da sua filha adolescente? A preferência é sempre por peças curtas, justas e decotadas? Por vezes, todas essas características ao mesmo tempo? Antes de pensar em iniciar uma discussão, é preciso entender que a adultização de adolescentes é algo comum e não um fenômeno atual.

"A adultização sempre existiu. Só lembrar que na geração dos seus avós era comum as pessoas se casarem com 15 anos. Dom Pedro 2º se tornou imperador do Brasil com 14 anos. O que acontece hoje é que o processo aumentou consideravelmente com a internet e as redes sociais", afirma a psicóloga Lucy Carvalhar.

O psiquiatra especializado em Psiquiatria Infantil e psicoterapeuta Wimer Bottura faz coro com Lucy. "Meu avô e meu pai começaram a fumar ainda crianças. Também nessa fase era muito comum que se começasse a trabalhar", diz Bottura.

Luto pelo corpo infantil

Ao falarem sobre a adultização como um processo natural, o que os especialistas sugerem não é que os pais aceitem sem discussão o comportamento precoce das filhas, mas que entendam o contexto para agir com efetividade, sem quebrar o diálogo.

"A adolescente passa por um momento de luto pela perda do corpo infantil. Acaba entrando em conflito com isso e querendo ser adulta logo", explica Lucy.

A força do grupo e da internet

Bottura faz questão de lembrar o ensinamento do pensador suíço Jean Piaget (1923 - 1980). "A ética das crianças é formada pelos amigos que ela tem. O que se torna ainda mais forte quando os pais são rígidos", avalia o psiquiatra. Ou seja, proibir por proibir não é uma estratégia que funciona.

Para Lucy, o melhor caminho é agir pelas beiradas. "Os pais podem sair junto com a filha para comprar roupas, podem mostrar referências de moda e de combinações", comenta a psicóloga. A especialista ressalta que a conversa e a proximidade são fundamentais porque é fato que as referências das redes sociais são hipersexualizadas. "Cantoras, atrizes trabalham com o corpo e é importante pontuar isso para a jovem."

Alerta sobre o machismo

Ainda que as adolescentes atuais tenham na ponta da língua o discurso "meu corpo, minhas regras", a especialista também ressalta que em nome da segurança da menina, é preciso alertá-la que, a despeito dos avanços nessa pauta, o Brasil é um país machista.

"A vida é como um filme. A cena de hoje prepara a de amanhã", afirma Bottura. A fala do psiquiatra é no sentido de alertar pais e mães para estarem sempre de ouvidos abertos para os filhos. A roupa não precisa ser o assunto principal, mas toques e orientações sobre ela podem permear as interações da família.

Ainda que estejamos falando da adultização das meninas, Lucy afirma que os meninos adolescentes não estão livres desse fenômeno. "É para se verem adultos que muitos querem fazer tatuagens, colocar piercings e alargadores e mesmo fazerem vídeos com conteúdo sexual", finaliza ela.

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