Adultos com comorbidades deveriam ser vacinados antes de professores e policiais, dizem médicos

ARTUR RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo João Doria (PSDB) deveria vacinar pessoas adultas com comorbidades antes de iniciar a imunização de categorias como policiais e professores, dizem infectologistas ouvidos pela reportagem. Segundo Doria, o início da vacinação dos policiais será a partir de 5 de abril e dos professores, em 12 de abril. Na categoria dos professores, serão 350 mil profissionais que atuam da creche ao ensino médio, nas redes pública e privada. Já entre os policiais e agentes penitenciários são mais 180 mil. De três especialistas entrevistados pela reportagem, dois deles afirmaram que pessoas com comorbidades deveriam ser priorizadas. Um terceiro afirmou que a escolha por categorias profissionais é mais fácil de verificar que algumas comorbidades. O infectologista Julio Croda, da Fiocruz, afirma que seria importante vacinar adultos com comorbidades antes. "Do ponto de vista de evitar internações e óbitos com certeza as pessoas com comorbidades na faixa de 60 a 50 anos talvez devessem ser prioridade nesse momento antes desses grupos profissionais", diz. "[Esse grupo entre 50 e 60 anos com comorbidades] é uma fração importante de pessoas que ocupam leitos de UTI em todo país. Croda também afirma que há outras categorias também bastante expostas e que é difícil fazer a distinção. "A gente tem outros profissionais bastante expostos, como motorista de ônibus, pessoas que trabalham no comércio. Assim como força de segurança, profissional de educação, estão expostas na mesma intensidade. Motoristas de aplicativo, não são expostos igualmente a quem trabalha na força de segurança, educação? É mutio difícil fazer diferenciação entre motorista do transporte público, de aplicativo, atendente administrativo dos órgãos públicos e privados e um profissional na força de segurança e educação", diz. Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), define a medida como um privilégio que só pode ser resultado de pressões das categorias. "Qual deve ser a prioridade? Aquelas pessoas que durante um ano de experiência acumulada na pandemia morrem mais. Neste sentido temos um plano de imunização tanto do Ministerío da Saúde quanto o governo do estado de São Paulo que coloca os profissionais da saúde num primeiro momento por uma questão de manter a força de trabalho e depois aquelas pessoas que mais morrem. Se morre mais é porque interna mais, é porque fica mais tempo de hospital. São os idosos acima de 60 anos e pacientes com comorbidades", diz. Stucchi afirma que o ideal é que houvesse vacinação para todos. Mas, devido ao cobertor curto de vacina, é preciso fazer priorizações. Segundo ela, mesmo entre as pessoas com comorbidades é possível saber aquelas que mais morrem. Ela citou, por exemplo, a obesidade como um fator de risco. "Quando tivermos vacinas para estes grupos teremos que priorizar para essas comorbidades quem vai primeiro e quem vai depois. Neste sentido, eu vejo com muita preocupação que grupos que não são aqueles que têm maior risco de mortalidade tenham o privilégio de serem vacinados", diz. Conforme o jornal Folha de S.Paulo publicou, a iniciativa de Doria não é a única neste sentido de incluir categorias. Vereadores de São Paulo querem aprovar uma lei para incluir suas bases eleitorais entre os grupos que receberão as vacinas em negociação pela gestão Bruno Covas (PSDB). Entre as categorias citadas já são funcionários públicos, motoristas de ônibus, motoristas de táxi, motofretistas, sepultadores, coletores de lixo, entre outros. A exigência é que sejam grupos que tenham contato com o público. Marcio Bittencourt, médico do centro de pesquisas clínicas e epidemiológicas do hospital universitário da USP, afirma não achar inadequada a decisão de escolher categorias para ser vacinadas. "A minha dúvida é se não tem outros grupos de igual prioridade que poderiam estar entrando", diz. "A gente tem um grupo de que foi vacinado de forma preferencial, independentemente de faixa etária, que foram os profissionais da saúde. Alguns trabalhadores essenciais podem ser considerados como prioritários. E eu acho que professores e policiais, na minha opinião pessoal, fazem parte desse grupo". Bittencourt afirma que é importante em uma estratégia de vacinação que seja rápida e simples. "Algumas escolhas que podem eticamente fazer sentido podem não ser factíveis. Por exemplo, se for um critério muito difícil de verificar ou fácil de falsificar. Como você vai controlar qualquer pessoa diabética, como faz o controle? Fica um procedimento complicado", disse. Ele afirma, porém, que há grupos de comorbidades seria mais fácil. "Algumas comorbidades muito graves, pacientes oncológicos ou pacientes de diálise, eles frequentam o hospital, o serviço deles. Nesses casos, você poderia ir pelo serviço médico. As comorbidades muito complexas que frequentam o serviço médico com muita frequência até talvez tivesse uma forma fazer. Agora uma comorbidade como hipertensão, diabetes, sequela de AVC é muito complicado", diz.