Adversária do Brasil, Venezuela perde blindagem e sente efeitos da crise no país

Bruno Marinho
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A bolha em que o governo da Venezuela tentou manter a seleção do país está cada vez mais frágil. Durante anos, enquanto crises econômicas e sociais se sucediam no país, a equipe vinho tinto era protegida, muito graças ao seu potencial como instrumento de propaganda do chavismo. Mas veio a pandemia, com agravamento das condições de vida, e a redoma parece perto de se quebrar.

A Federação Venezuelana de Futebol (FVF) está em crise. Não apenas de comando — ela é administrada hoje por uma junta temporária, depois que o presidente Jesús Berardinelli morreu de Covid-19, em agosto. O gargalo é principalmente financeiro. Antes de falecer, Berardinelli foi preso, acusado de mau uso do dinheiro público. A FVF depende quase exclusivamente do patrocínio de estatais. Outra fonte de receita, menos relevante, é a bilheteria dos jogos da seleção. A Covid-19, com uma tacada só, fechou os estádios para o público e diminuiu o repasse de verbas dos patrocinadores.

Um ex-funcionário da FVF, que preferiu não se identificar, lembrou como, em outros tempos, a seleção melhorava a vida do interior do país. Por não ter um estádio de grande capacidade, Caracas, capital da Venezuela, normalmente não recebe os jogos. Mas é justamente na cidade que o abastecimento é menos afetado pelo embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Quando se avança para lugares como Mérida e Táchira, a falta de luz, combustível e alimentos é mais recorrente. Menos quando a seleção ia para lá.

— O governo deu todas as facilidades para a seleção jogar. Ela nunca sofreu com a falta de eletricidade nas cidades. O policiamento também era reforçado — lembra: — Com a pandemia, a situação dessas cidades piorou.

Apesar dos esforços externos, a seleção e, principalmente, seus jogadores resistem a exercer o papel de propagandistas do governo. Mesmo gozando de condição socioeconômica acima da média no país, não conseguem isolar os familiares das privações que assolam algumas regiões da Venezuela. Existe, por parte deles, a ciência do que acontece no exterior da bolha.

Quem está fora do país se sente mais à vontade para falar. Daniel Cadena é venezuelano, jornalista, editor do site Onefootball, da Alemanha. Segundo ele, o efeito da crise no futebol é mais complexo:

— As várias crises nacionais têm impacto multidimensional: o futebol sofre em nível profissional, os recursos para a base desapareceram, e o caos da federação é um grande exemplo de tudo isso. O impacto tem sido o aprofundamento de um modelo extremamente insustentável, onde o Estado é quem deve prover a maior parte dos recursos e onde a corrupção é tão generalizada que é realmente impossível dizer quanto dos orçamentos originais chega ao seu destino.

Existe um alento dentro de campo, originário de uma geração talentosa. Da seleção convocada para o jogo de hoje, seis jogadores fizeram parte da equipe vice-campeã mundial sub-20, em 2017. Houve troca de treinador — Rafael Dudamel deu lugar ao português José Peseiro. Mas o começo nas Eliminatórias foi difícil: derrotas para Colômbia e Paraguai.