Advogado é assassinado em Niterói; ele já foi preso por escoltar traficantes quando era policial

O ex-policial civil e advogado Carlos Daniel Ferreira Dias, de 40 anos, foi morto na manhã desta terça-feira em Itaipu, Niterói, Região Metropolitana do Rio. Equipes da Polícia Militar estão no local.

Em 2011, o então inspetor foi preso, em novembro, pela Polícia Federal por escoltar bandidos em fuga da comunidade. Ele foi um dos responsáveis pela retirada do chefe do tráfico no Morro de São Carlos, na época, Anderson Rosa Mendonça, conhecido como Coelho, e, na Rocinha, de Sandro Luiz de Paula Amorim, conhecido como Peixe, por ocasião da ocupação para a instalação da UPP.

Em 2012, Daniel foi condenado a 12 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de tráfico de drogas, posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e favorecimento pessoal. Ele terminou a faculdade de Direito em 2015, enquanto ainda estava atrás das grades, e tirou o registro na Ordem dos Advogados do Brasil do Rio (OAB). Atualmente, atuava na defesa de Daniel Aleixo Guimarães, um dos réus pela morte do investidor Wesley Pessano e apontado nas investigações como braço direito de Glaidson Acácio dos Santos, o "Faraó dos bitcoins".

Nascido e criado na Vila da Penha, Daniel teve o privilégio de estudar em escolas particulares do bairro e frequentar cursos de inglês. Era estudioso, lia muito. Desde criança, tinha um sonho: ser advogado.

Chegou a trabalhar, ainda adolescente, como auxiliar num escritório de advocacia. Em 2001, resolveu fazer prova para inspetor da Polícia Civil. Passou e, no ano seguinte, começou uma carreira que parecia ser promissora. Já no primeiro ano de polícia, Daniel se destacou pela inteligência e a dedicação.

Em dez anos de polícia, Carlos Daniel teve duas passagens pela 15ª DP (Gávea): em 2002 e 2003. A segunda durou até 2007. Virou referência quando o assunto era Rocinha e a quadrilha de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, ex-chefe do tráfico na comunidade.

Com grande habilidade nos grampos telefônicos, o policial tinha muita informação sobre os criminosos da área. A prisão de alguns deles, como Dudu da Rocinha e Patrick do Vidigal, foi resultado de suas investigações. A operação que resultou na morte do maior ladrão de residências do Rio, Pedro Dom, também.

A única condenação de Nem por tráfico de drogas ocorreu a partir do trabalho de Daniel. Por duas vezes, em 2005 e 2006, a equipe do policial na 15ª DP ganhou moções de louvor na Assembleia Legislativa, pelo trabalho contra o crime na região. Ambas condedidas pelo então deputado Noel de Carvalho.

O policial que era referência, porém, começou a ser alvo de desconfiança dos colegas de polícia. Em dezembro de 2009, abriu um campo de paintball em sociedade, meio a meio, com Alexandre Leopoldino Pereira da Silva, o Perninha — morador da Rocinha preso em 2005 por tráfico de drogas. Embora nunca tenha ostentado riqueza — o máximo que usava era uma pulseira grossa de ouro — tinha um Honda Civic ano 2009 (um novo custa cerca de R$ 60 mil) apesar do salário em torno de R$ 2.500.

Daniel começou a descobrir que as informações que tirava dos grampos lhe davam poder. Para alguns amigos, ficou arrogante porque sabia demais sobre o crime.

Os policiais que conhecem a trajetória de Daniel garantem que o envolvimento dele com traficantes, na realidade, foi com os bandidos do Morro do São Carlos, então dominado pela mesma facção da Rocinha.

Com a ocupação da comunidade no centro do Rio, em fevereiro de 2011, o policial teria ajudado os criminosos a fugirem para a favela de São Conrado, levando armas e drogas. Assim, Daniel teria se aproximado dos bandidos da Rocinha. Mas ele e Nem não se davam bem. O traficante foi o responsável pela morte de dois informantes que Daniel tinha na Rocinha. Um deles era Lucas do Gás.

A interceptação telefônica de uma conversa entre Nem e um policial civil, em 2006, mostra que o traficante ficou sabendo que Lucas era informante de Daniel. Naquela noite, o X-9 foi morto. Daniel chegou a ter um filho com a irmã de Lucas

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