Advogado de bombeiro atropelador diz que seu cliente pediu tratamento para alcoolismo e não recebeu

Rafael Nascimento de Souza
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Foto: Reprodução

Advogado do capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos, que, na madrugada de segunda-feira, atropelou e matou o ciclista Cláudio Leite da Silva, de 57 anos, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, Ângelo Máximo disse que seu cliente luta contra o alcoolismo há anos e vinha tentando tratamento junto ao comando, “mas o auxílio estaria sendo negado”. Porém, em nota, a informação foi desmentida. A corporação destacou que o oficial recebeu auxílio da Diretoria de Assistência Social em pelo menos três ocasiões desde 2017. A última, no ano passado. Ele chegou a ser atendido pelo serviço de psicologia.

João Maurício foi duramente criticado durante o enterro de Cláudio, realizado nesta terça-feira no cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. “Como capitão de uma corporação criada para salvar pessoas, ele deveria ter se dado ao respeito. Deveria ter socorrido meu irmão”, desabafou o o aposentado Rogério Leite da Silva. O militar fugiu do local do acidente, mas acabou sendo preso duas horas depois.

O atropelamento aconteceu na Avenida Lúcio Costa, altura do Posto 10, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio. Cláudio morava a cerca de 200 metros do lugar onde foi atingido em cheio pelo carro de João Maurício, que estava em alta velocidade.

Por conta da pandemia, apenas parentes acompanharam o enterro. Não houve velório. Cláudio, que sofreu múltiplas fraturas, foi sepultado pouco depois das 14h. Assim como Rogério, ele era aposentado. Tinha o ciclismo como hobby: pedalava dezenas de quilômetros de segunda a sexta-feira, sempre de madrugada, pela orla da Zona Oeste. O irmão lembrou que Cláudio não andava de bicicleta nos fins de semana, por medo de ser atropelado.

— Fizesse sol ou chuva, ele estava pedalando. Chegava a percorrer mais de cem quilômetros em um único dia. Saía do Recreio, passava pela Praia da Macumba, pela Prainha, por Grumari e ia até Guaratiba. Poucos dias antes de morrer, postou nas redes sociais um vídeo com um apelo, pedindo a motoristas para não ingerirem bebida alcoólica. Temia ser atropelado por alguém bêbado. Foi o que lhe aconteceu — disse Rogério, emocionado.

João Maurício também aparece em um vídeo, gravado com um celular pouco antes do acidente. Nas imagens gravadas por uma pessoa que ficou impressionada com o seu comportamento em um posto de gasolina da Avenida Gláucio Gil, o oficial do Corpo de Bombeiros aparece cambaleando, segurando uma garrafa de uísque e uma de vodca, além de um copo, ao lado de seu Hyundai HB20, que estava com documento vencido desde 2018. Segundo a testemunha, ele saiu do estabelecimento “cantando pneu”.

O teste de alcoolemia ao qual João Maurício foi submetido seis horas depois do atropelamento deu negativo. Para a Polícia Civil, o resultado não foi positivo porque um perito avalou apenas sua capacidade psicomotora. O bombeiro se recusou a ceder amostras de sangue e urina. Isso, porém, não o impediu de ser indiciado por homicídio doloso (intencional), fuga do local do acidente e embriaguez ao volante. Ontem, a Justiça converteu a prisão em flagrante do oficial em preventiva.

— Considerei a relevância das imagens gravadas no posto — explicou o delegado Alan Luxardo, titular da 42ª DP (Recreio). — Diante de todas as provas colhidas, não restam dúvidas de que ele ingeriu bebida alcoólica e estava visivelmente confuso e atordoado, sem condições de dirigir.

Na semana passada, João Maurício havia sido preso após agredir a mulher, que é deficiente física. O casal tem dois filhos, e, por ordem judicial, o oficial estava proibido de se aproximar dela.

Em depoimento à polícia, a mulher contou que ficou paraplégica depois de sofrer um acidente de trânsito causado pelo militar, que estaria dirigindo embriagado. O capitão tem 19 multas não pagas, dez por excesso de velocidade.

Segundo o advogado Ângelo Máximo, a mulher de seu cliente não ficou paraplégica devido a um acidente, mas, sim, por causa de um AVC.