Presidente, por que seu ex-advogado recebeu milhões de um fornecedor do seu governo?

Matheus Pichonelli
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Brazilian Frederick Wassef, lawyer of President Jair Bolsonaro, attends the inauguration ceremony of the Minister of Communications Fabio Farias, at Planalto Palace in Brasilia, Brazil, June 17, 2020. (Photo by Sergio LIMA / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
O ex-advogado da família Bolsonaro Frederick Wassef. Foto: Sergio Lima/AFP

Jair Bolsonaro ficou irritado quando um repórter perguntou a ele por que Fabrício Queiroz depositou R$ 89 na conta de sua mulher, a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Bolsonaro não soube responder, mas sabe por que se irritou. Queiroz é o ex-assessor acusado de embolsar salário dos funcionários do filho que foi localizado pela polícia na casa do então advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia (SP).

A pergunta que irritou Bolsonaro partiu de um repórter de O Globo, o mesmo jornal que nesta quarta-feira 26 revelou que Wassef, o guardião de Queiroz, recebeu um repasse de R$ 2,3 milhões da sócia de uma empresa com contratos com o governo federal.

Foi o Coaf, o mesmo Conselho de Controle de Atividades Financeiras que identificou movimentações atípicas de Queiroz, que revelou a transação entre o Wassef e Bruna Boner Leo Silva, sócia da empresa Glovalweb Outsourcing, fundada e administrada por sua mãe e ex-mulher do advogado, Maria Cristina Boner Leo.

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Em março 2019, já na gestão Bolsonaro, um consórcio integrado pela Globalweb teve suspensa pelo governo federal uma multa de R$ 27 milhões aplicada pela Dataprev, empresa pública vinculada ao Ministério da Economia. Parte de outro consórcio, a empresa conseguiu também na gestão Bolsonaro dois aditivos contratuais com uma empresa vinculada ao Ministério da Educação, numa decisão que chamou a atenção da Controladoria-Geral da União.

O Coaf aponta “comunicações de operações suspeitas” nas contas de Wasseff entre 2015 e junho de 2020 -- o mês em que Queiroz foi encontrado em sua casa.

Foi Wasseff, segundo o Coaf, quem fez um depósito de R$ 10,2 mil a um médico urologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, que por acaso também atendeu Queiroz. O advogado jura que o pagamento médico se refere a uma internação dele próprio.

Se não fosse, e daí? Quem não faria isso por um amigo, não é mesmo?

Recentemente, a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação preliminar para apurar supostos pagamentos da empresa JBS ao ex-advogado da família Bolsonaro.

De acordo com uma reportagem da revista Crusoé, Wassef recebeu R$ 9 milhões da companhia dos irmãos Batista, a quem o governo Bolsonaro pagou R$ 47 milhões para fornecer picanha, maminha e filé mignon aos militares.

Enquanto faz as contas, o presidente pode colocar mais alguns itens na lista de perguntas incômodas que prefere não responder.

Uma delas é por que seu então advogado abrigou Fabrício Queiroz em sua casa em Atibaia. E por que, com tantos defensores disponíveis em Brasília, ele se aproximou justamente de alguém em conflito de interesses relacionados a multas e contratos federais?

Ameaçar encher alguém de porrada pode ser notícia. Mas não é resposta.