Advogado morto no Centro citou diplomata Sérgio Vieira de Mello em TCC: 'Não pode haver segurança sem paz verdadeira'

“Um ser humano tem o direito de viver com dignidade, igualdade e segurança. Não pode haver segurança sem uma paz verdadeira, e a paz precisa ser construída sobre a base firme dos direitos humanos”. As palavras do diplomata Sérgio Viera de Mello, morto em 2003 durante um atentado em Bagdá, no Iraque, ganharam destaque no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do advogado Victor Stephen Coelho Pereira, de 27 anos, quando ele se formou em Direito na Universidade Cândido Mendes, em 2020. Apaixonado pelo trabalho do alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU), o rapaz abordou em seu texto os deslocamentos feitos por refugiados na África em decorrência das guerras étnicas e tribais. Na madrugada do último sábado, Victor morreu assassinado a facadas no Centro do Rio, durante um assalto.

No resumo do TCC, Victor destacou que "a migração é feita por indivíduos em situação regular ou irregular, na sua maioria estudantes, vítimas de tráfico de seres humanos, indivíduos que querem um asilo ou são refugiado". Graças à análise feita com participação da economista Carolina Larriera, ele foi aprovado com nota 10, com louvor e indicação para publicação. Na conclusão, Victor lembrou a trajetória de Vieira de Mello e citou o livro “O homem que queria salvar o mundo”, biografia do diplomata escrita por Samantha Power. Na obra, ela mostra os trabalhos humanitários do biografado em Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Camboja, atuando diretamente com refugiados e em campos de guerra.

A professora universitária Alexandria Alexim, que ministra Direito Internacional na instituição, foi a orientadora do advogado ao final do curso de Direito. Ela classificou a morte de Victor como uma barbárie:

— Foi um crime bárbaro. A cada dia que passa, ficamos mais revoltados com essa situação. Um menino jovem, em início de carreira, que tinha um futuro brilhante pela frente e parte dessa forma cruel. Victor era muito gentil e querido por todos. Sempre foi muito amado por professores e alunos – contou a orientadora, que completou:

— Ele sempre foi um excelente acadêmico e um aluno brilhante. Fui orientadora de monografia dele sobre os refugiados da África Subsaariana. A felicidade dele foi ter na banca Carolina Lareira, viúva do Sérgio Viera de Mello, como uma das professoras que analisavam seu TCC. E, recentemente, estávamos analisando e discutindo a publicação da monografia dele em vários artigos científicos.

A professora descreveu Victor como um "fã incondicional" de Vieira de Mello, justamente por conta do trabalho com refugiados:

— Ele tinha essa admiração pelo Sérgio. Por isso, passou a ser chamado de pacifista. Os refugiados sempre se deslocam por conta dos conflitos armados. E ele morre sendo vítima de uma situação inexplicada. O trabalho dele será publicado de forma póstuma.

Bacharel em Direito, João Chamarelli, de 36 anos, conta que conheceu Victor na faculdade, onde foram colegas de Diretório Acadêmico. Ele diz que o amigo era “um pacificador e seria um expoente da paz na cidade”:

— Ele era um sujeito amável, gentil, tranquilo e pacificador, como costumamos dizer na faculdade. Ele era muito simples, raro caso de unanimidade. O seu TCC era sobre os conflitos humanitários. Um dos seus maiores exemplos era o (diplomata Sérgio) Vieira de Mello. Ele era sempre respeitoso e respeitado. A família está devastada.

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