Aeronáutica omite destino de cloroquina em ofício enviado ao MPF

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***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL,  08-04-2021 - O comandante da Aeronáutica que está deixando o cargo, tenente Antônio Carlos Bermudez, durante cerimônia de cumprimento aos oficiais generais promovidos, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 08-04-2021 - O comandante da Aeronáutica que está deixando o cargo, tenente Antônio Carlos Bermudez, durante cerimônia de cumprimento aos oficiais generais promovidos, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aviões da FAB (Força Aérea Brasileira) transportaram em missões ao menos 132 caixas e 5.000 comprimidos de cloroquina. Detalhes do destino da droga, que não tem eficácia contra a Covid-19, são mantidos em sigilo.

A informação está em ofício assinado pelo então comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Antonio Carlos Bermudez, e enviado ao MPF (Ministério Público Federal) em Brasília, de 15 de março.

O MPF instaurou inquérito civil para investigar a política da cloroquina do governo Jair Bolsonaro (sem partido). A suspeita é de improbidade administrativa na distribuição do medicamento. O principal alvo da investigação é o general da ativa Eduardo Pazuello, demitido em março.

"No que concerne à distribuição do princípio ativo, foram transportadas, em duas oportunidades, 132 caixas e 5.000 comprimidos, sucessivamente, do medicamento cloroquina em missões da FAB", limitou-se a dizer o comandante em relação à atuação da Aeronáutica no transporte da droga de 2020 a fevereiro de 2021, período estipulado no pedido de informações do MPF.

Bermudez, demitido do cargo por Bolsonaro em 30 de março, junto com os comandantes de Exército e Marinha, não explicou ao MPF a quantidade de medicamento transportada nas 132 caixas, não disse quando houve o transporte nem para onde se destinou a droga.

A reportagem pediu à Força que informasse os detalhes. "Não há informações disponíveis além das que já estão constando no documento citado na pergunta", respondeu a assessoria de imprensa.

A reportagem identificou casos em que a cloroquina foi destinada a comunidades indígenas na Amazônia, para o chamado "tratamento precoce", e não para a finalidade original da medicação, que é tratar casos de malária.

A distribuição de cloroquina a indígenas entrou no foco da CPI da Covid. Integrantes da comissão querem investigar a entrega deliberada do medicamento a essas comunidades, principalmente em regiões mais isoladas.

Pelo menos um transporte, de 1.500 comprimidos, foi feito pela FAB à região amazônica da Cabeça do Cachorro, no Amazonas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, em junho de 2020. Ali estão 23 etnias indígenas, como yanomâmi, wanano e baniwa.

Outra missão envolveu um avião da FAB, em Roraima. Lotes de cloroquina foram distribuídos a distritos sanitários que cuidam dos yanomâmi. A missão ocorreu no fim de junho e começo de julho.

Os registros mostram uma distribuição de pelo menos 60 mil comprimidos do medicamento, além de azitromicina, outra droga sem eficácia para Covid-19.

Até agora, o Exército foi a Força mais escrutinada por órgãos de fiscalização e nos primeiros requerimentos e depoimentos na CPI da Covid, em razão de sua participação na produção da cloroquina, por ordem de Bolsonaro.

O Laboratório Químico Farmacêutico do Exército produziu 3,2 milhões de comprimidos da droga. Para isso, gastou R$ 1,1 milhão.

A força começou a viabilizar o dinheiro dois dias depois de Bolsonaro ter determinado ao então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, que houvesse aumento na fabricação do medicamento. Azevedo foi demitido pelo presidente um dia antes dos três comandantes.

A produção da cloroquina contaria com a participação dos três laboratórios oficiais de Exército, Aeronáutica e Marinha, conforme nota da FAB.

A resposta do então comandante da Aeronáutica ao MPF informa ainda que a Força fez aquisição de cloroquina. Foram adquiridos 5.120 comprimidos, pelos quais foram pagos R$ 6.985,55. As compras foram feitas com base em dois pregões, um de 2018 e outro de 2020, com vigência até março.

A reportagem questionou a Aeronáutica se a cloroquina foi usada em militares com Covid-19 ou com suspeita da doença. Não houve resposta ao questionamento.

O MPF enviou ofícios aos comandos de Aeronáutica e Exército com base em reportagem do jornal Folha de S.Paulo em 6 de fevereiro. A reportagem mostrou que Bolsonaro mobilizou as duas Forças, cinco ministérios, uma estatal e dois conselhos para viabilizar sua política da cloroquina. A Aeronáutica sustenta que sua participação se deu a partir de planejamento do Ministério da Saúde, repassado ao Ministério da Defesa. "A Força Aérea apenas cumpre a missão", diz.

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