Aeroporto é atacado com foguetes na véspera do fim da retirada do Afeganistão

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na véspera do prazo limite para a retirada das forças lideradas pelos Estados Unidos do Afeganistão, militantes dispararam cinco foguetes contra o aeroporto de Cabul, centro nervoso do processo de evacuação de civis e militares do país asiático.

Ninguém ficou ferido na ação. Segundo o Pentágono, um foguete atingiu uma área desocupada do aeroporto e outros foram interceptados. Eles foram lançados de forma improvisada de um carro.

A autoria do ataque foi reivindicada​ pelo EI-K (Estado Islâmico Khorasan), braço afegão do notório grupo terrorista, responsável pelo atentado que matou quase 200 pessoas na quinta (26).

No domingo, os EUA mataram ao menos sete pessoas ao atingir com um drone um carro-bomba que estava sendo levado para o aeroporto. Nesta segunda, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse que ameaça de ataques segue "muito ativa".

O Talibã, grupo fundamentalista islâmico que retomou o poder no dia 15, condenou tanto o ataque terrorista quanto a ação americana, dizendo que o uso de aviões não tripulados no país é ilegal.

A evacuação está nas suas horas finais. Ao todo, os EUA afirmam que foram retiradas de Cabul mais de 122 mil pessoas desde a véspera da chegada das forças talibãs à capital, mas o ritmo está diminuindo: no domingo (29), foram apenas 1.200, em 28 voos, incluindo militares e quase todo o pessoal diplomático.

A partir desta terça (31), o grupo será o que mais próximo de um governo o país terá. Segundo o porta-voz Zabihullah Mujahid à rede chinesa CGTN, assim que o último avião americano partir, o Talibã tomará posse do aeroporto, único ponto da capital que não está sob seu controle.

A saída encerrará 20 anos da mais longa guerra travada pelos EUA, e mais uma perdida. Assim como no Vietnã há quase meio século, a retirada americana foi marcada por fiascos e humilhação internacional.

Há, obviamente, diferenças, mas o governo de Joe Biden agora terá de fazer um longo trabalho de redução de danos políticos por sua decisão, tomada em abril, de cumprir o acordo assinado entre seu antecessor, Donald Trump, e o Talibã.

A aceleração da retirada deu a senha que os fundamentalistas expulsos do poder pelos mesmos americanos em 2001, por terem protegido os terroristas da Al Qaeda que perpetraram o 11 de Setembro, precisavam para promover uma ofensiva final.

Em duas semanas, Cabul caiu. Mas, como disse nesta segunda (30) o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, é só o começo de uma grande crise humanitária.

O órgão estima que até o fim do ano 500 mil dos 37 milhões de afegãos terão deixado o país, que já tem 2,2 milhões de refugiados em campos no Paquistão e no Irã.

Além da renovada ameaça terrorista do EI-K, que assim como o seu rival Talibã já havia atacado Cabul antes, um foco de preocupação é obviamente o próprio grupo que se consolida no poder de novo.

Os talibãs têm negado que irão repetir o regime obscurantista e violento de sua primeira encarnação, de 1996 a 2001, mas a realidade se mostra bem diferente. "Meus tios são policiais e, duas semanas atrás, fugiram para o Paquistão. O Talibã veio na nossa casa e perguntou sobre eles. Dissemos que não sabíamos e fomos torturados. Depois disso, fugimos para nossa aldeia, mas se eles nos acharem vamos morrer", escreveu um afegão a um grupo de ativistas brasileiros que tenta ajudar refugiados.

Outro, que se comunica por mensagens de áudio, chorou e pediu: "Por favor, não se esqueçam de nós". Os ativistas querem apoio de senadores brasileiros para a concessão de vistos a refugiados.

Um outro afegão que também está escondido, o jornalista Ahmed Ali, disse no fim de semana que buscava uma forma de sair do país por terra. Ele, que trabalhou com ocidentais, contou que parentes em Cabul foram interrogados, já que o Talibã está com acesso a identidades, dados pessoais e biométricos de todos seus alvos, a partir da tomada do Ministério do Interior.

Enquanto o drama se desenrola, os EUA seguem em uma tensa coordenação com os talibãs, avaliada pela Casa Branca como um mal menor ante o risco de ver toda a operação de retirada colapsar —obrigando uma intervenção militar, tudo o que Biden, que já teve de lidar com 13 militares mortos na quinta, não quer.

Outros países operam em velocidades diferentes. A China, como a frequente presença de porta-vozes talibãs em suas redes estatais mostra, quer o regime o mais estável possível para garantir a segurança de sua fronteira oeste.

Ao longo dos anos, os talibãs fomentaram grupos terroristas islâmicos na província de Xinjiang, o território de maioria muçulmana que é oprimido com mão de ferro por Pequim —os EUA acusam a ditadura comunista de genocídio por lá, o que naturalmente é visto pelos chineses como propaganda política.

Já a Rússia tem mantido uma distância regulamentar, mas com movimentos para tornar-se um ator central na política da região. Seu enviado para assuntos afegãos, Zamir Kabulov, afirmou ao canal Rússia-24 nesta segunda que a embaixada em Cabul está "estabelecendo laços" com os novos donos do governo.

Assim, disse, há a possibilidade de que outros voos de evacuação sejam possíveis para o pessoal elegível remanescente na capital. A Rússia, afinal de contas, não fazia parte da missão ocidental no país e não está submetida aos prazos de Biden. Há cerca de 140 russos e aliados ainda em solo.

Ao mesmo tempo, o Kremlin reiniciou os exercícios militares na fronteira do Tadjiquistão com o Afeganistão e anunciou que, após o fim deles neste mês, outras simulações semelhantes ocorrerão em outro aliado regional, o Quirguistão.

A Rússia tem bases militares remanescentes do tempo em que tudo aquilo era a União Soviética, país que invadiu e ocupou o Afeganistão de 1979 a 1989, e sua preocupação central é manter seu flanco sudeste estável e sem infiltrações radicais islâmicas.

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