Afegãos que vivem perto de Washington se unem para ajudar refugiados

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ANNANDALE E SPRINGFIELD, EUA (FOLHAPRESS) - Quando surgiu a notícia de que refugiados afegãos chegariam aos arredores de Washington, pedidos de ajuda se multiplicaram. Em poucos dias, porém, eles não eram mais necessários: fraldas, cobertores e alimentos lotaram espaços destinados a doação, e a arrecadação foi suspensa em muitos locais.

A retomada do poder pelo Talibã e o caos que se instalou em Cabul na sequência, com pessoas se aglomerando em volta do aeroporto em busca de uma rota de fuga, mobilizaram a já atuante comunidade de origem afegã na região da capital americana.

O grupo organiza protestos para pedir mais ajuda internacional, auxilia pessoas a saírem do Afeganistão e tenta facilitar a adoção de crianças que chegam aos EUA sozinhas -um grupo local fez uma reunião pública, por Zoom, para explicar o processo a famílias interessadas.

A operação de retirada das tropas ocidentais no país da Ásia Central, abalada por ataques que na quinta-feira (26) deixaram mais de 180 mortos, vem acompanhada de um novo fluxo de refugiados.

Nathaniel Greenberg, professor de árabe na Universidade George Mason, fez uma campanha para chamar tradutores voluntários, já que muitos recém-chegados não falam inglês. "Em 48 horas, recebi mais de 40 mensagens de tradutores de dari e pashtun [idiomas afegãos], a maioria moradores aqui da região", contou ele à reportagem.

A resposta rápida não o surpreendeu. "Um censo de 2015 mostrou que há 182 línguas e dialetos faladas no condado de Fairfax, [na Virgínia]. É uma das áreas com mais diversidade linguística e conexão internacional dos EUA", diz. "É um bom lugar para receber praticamente qualquer refugiado. E um bom lugar para viver, então espero que muitos deles fiquem."

Um estudo da George Mason apontou que, em 2017, cerca de 12 mil imigrantes afegãos moravam na região apelidada de DMV, que reúne o Distrito de Colúmbia (onde fica a capital) e os estados de Maryland e Virgínia.

"Em muitos casos, os afegãos vêm para cá para se juntar a familiares e amigos que moram aqui há anos ou décadas. Como há grande diversidade, é mais fácil arrumar trabalho. Há muitos lugares contratando, e mesmo quem não domina o inglês consegue algo em áreas como cozinha e limpeza", afirma Khaul Parsa, 45, em uma conversa em um café Starbucks em Annandale, na Virgínia, a 30 minutos de carro da Casa Branca.

"Morar aqui ajuda os afegãos a manter suas tradições de forma mais fácil. Há vários centros muçulmanos e mesquitas e muitos lugares que vendem comida halal [preparada de acordo com os preceitos muçulmanos]."

Os estabelecimentos ficam, no entanto, quase escondidos na paisagem típica de subúrbio americano. Atrás do Starbucks, com um jardim elevado à frente, estão uma mesquita e centro comunitário, o Mustafá Center, com entrada a vários metros da rua.

Em outro ponto de Annandale, há um enorme supermercado afegão, atrás de uma loja de conveniência. Ali, há inúmeros tipos de chás, cereais, temperos e carnes. Quando a reportagem foi ao local, mulheres com e sem véu faziam compras, enquanto um padeiro preparava samosas e outras massas.

Parsa mora nos EUA há quatro anos. Antes, trabalhava em uma ONG no Afeganistão. Um dia, enquanto dirigia, sofreu uma emboscada, que atribui ao Talibã, e tomou sete tiros. Ficou meses internado e depois conseguiu um visto de estudante para imigrar. "O Talibã é um grupo terrorista e racista. Não podemos confiar neles".

O ativista tem recebido centenas de mensagens de afegãos que buscam ajuda para deixar o país, muitas vindas de gente que ele não conhece. As pessoas enviam fotos de documentos, para mostrar que colaboraram com os EUA, na esperança de obter apoio para acelerar o processo. Uma policial, por exemplo, mandou imagens de vários certificados de treinamentos que fez, com bandeiras de países da Otan. Ela teme ser morta pelo Talibã se for capturada.

"Meu celular quebrou alguns dias atrás e perdi milhares de contatos. Estou tentando reconstruir a agenda, enquanto não param de me ligar e mandar mensagens. Mal consigo dormir de noite", conta.

A chegada dos novos refugiados na região ocorre de modo discreto. Inicialmente, eles eram levados a um ginásio no campus da North Virginia Community College, mas agora estão alojados no Dulles Expo Center, pavilhão ao lado de um hipermercado e de vários restaurantes de fast food.

O centro foi cercado por tapumes pretos e é vigiado por militares e policiais. Os afegãos chegam de ônibus e descem em uma área restrita. Eles ficam ali algumas horas ou dias, enquanto esperam o trâmite de documentos. Quem consegue o green card ou já tinha um pode ir embora; os que depenem de análise do visto ficam retidos e mais tarde seguem para outras bases. Os ônibus trafegam com soldados a bordo.

"Muitos perderam ou tiveram de jogar os celulares fora no caminho e agora estão com dificuldades para contatar conhecidos", diz um funcionário do local, que não quis se identificar. "Ao final, todos serão ajudados de alguma forma, mas não está claro como tudo vai funcionar".

"Aqui as coisas estão bem organizadas. Há comida, atendimento médico e análise de papéis. Documentos estão sendo traduzidos para completar os processos", conta Maro Kazemi, 38, que trabalha como tradutora voluntária no local. "Mas temos a preocupação de que o prazo de 31 de agosto não será suficiente para resgatar todos que ainda estão lá. O governo Biden precisa rever esse prazo".

A data é o limite dado pelo governo americano para concluir sua retirada do Afeganistão -e tanto falas de Biden quanto ameaças vindas do Talibã deixam clara a baixa probabilidade de ela ser estendida.

"Meu tio e mais alguns parentes ainda estão no Afeganistão. Eles tentaram escapar na manhã de quarta, mas tudo estava travado na região do aeroporto", conta Oresh Ghousi, 28. Filha de pais afegãos e nascida nos EUA, ela ajuda a organizar protestos aos fins de semana em Washington, para tentar atrair atenção internacional.

Eles tentam convencer os EUA e os demais países a não reconhecerem o Talibã como governo e a ampliarem o resgate e o acolhimento de refugiados no exterior.

A família de Oresh é dona de alguns negócios em Springfield, também na Virgínia. Ela administra um salão de beleza; sua mãe, Layla, 56, tem um spa; e o irmão, Arsalan, 31, toca um restaurante de comida afegã, o Big Red Halal, cuja decoração combina elementos afegãos, grafites e uma TV que exibe futebol americano.

No restaurante do irmão, Oresh conta que deu entrada no processo para adotar uma criança afegã. "Ainda não sei quanto tempo vai demorar, mas quero dar, ao menos para uma delas, as mesmas chances que tive aqui."

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