Afeganistão: cinco mitos que dificultam compreensão da crise atual

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Combatentes do Talebã são vistos na caçamba de um veículo em Cabul, no Afeganistão, em 16 de agosto
Combatentes do Talebã são vistos na caçamba de um veículo em Cabul, no Afeganistão, em 16 de agosto

A crise deflagrada nas últimas semanas com a aceleração da retirada das forças dos Estados Unidos do Afeganistão, a queda do governo do presidente Ashraf Ghani e a volta do Talibã ao poder no país colocaram esse país da Ásia Central outra vez no centro das atenções.

Aspectos da história, da sociedade e da cultura afegãs, que normalmente atraem pouca atenção dos políticos, da imprensa e dos acadêmicos, voltaram ao centro do noticiário e ganharam destaque nas redes sociais.

Imagens dramáticas de afegãos aglomerando-se nos postos de fronteira e no aeroporto de Cabul em fuga diante do avanço dos talibãs correram mundo, fazendo com que questões muitas vezes repetidas nos últimos 40 anos voltassem à tona: por que esse país está no centro de mais uma tragédia?

O que faz do Afeganistão um exemplo de Estado falido ou eternamente convulsionado? Que papel têm religião, cultura, etnia e disputa de poder entre potências nessa situação? Essas e outras perguntas põem em evidência uma grande quantidade de mitos, preconceitos e incompreensões sobre o Estado afegão.

A seguir, algumas dessas ideias e o que elas contêm de realidade e fantasia.

O Afeganistão é ingovernável

A palavra persa afghan designa um tipo de colete de couro de carneiro usado pelas tribos patanes. O nome Afeganistão significaria, assim, "terra dos que usam afghan".

De origem remota, os patanes correspondem a cerca de 38% a 42% da população do atual Afeganistão (as estimativas variam, e a imprecisão é agravada pela inexistência de censos nacionais recentes).

Assim como boa parte dos povos entre o Planalto Iraniano e o Vale do Indo, hoje no Paquistão e na Índia, os patanes converteram-se em sua esmagadora maioria ao islamismo de linha sunita a partir das invasões árabes da região, no século 7. O Estado afegão atual delimitou-se no século 19.

A língua dos patanes, o pashtu, incorpora elementos dos idiomas persa, turco e árabe. Monarcas afegãos jamais buscaram utilizá-la como instrumento de uniformização nacional à maneira europeia: na corte, historicamente, a língua franca era o persa (conhecida como "o francês do Oriente", em razão de sua tradição burocrática e literária).

Embora os patanes tenham historicamente dominado o Afeganistão, seu sentido de pertencimento não se limita às fronteiras do país. Uma parcela importante habita o noroeste, o sudoeste e o sul do Paquistão, fazendo com que a delimitação entre os dois países, a chamada Linha Durand, que data da época da Índia britânica, nunca tenha sido oficialmente reconhecida pelo Estado afegão.

Ao se estabelecer, o Estado afegão incorporou dezenas de populações não-patanes. As mais significativas em termos numéricos são tajiques, uzbeques, turcomenos e hazaras.

Homem na contraluz abana churrasco na rua
Um ambulante afegão em Mazar-i-Sharif, cidade que abriga comunidade de uigures

O perfil geográfico do Afeganistão, dominado em suas porções norte e central pela cordilheira do Hindu Kush, fez com que muitos desses povos vivessem relativamente isolados em enclaves distribuídos ao longo de vales, com pouco ou nenhum contato com outras etnias ou mesmo com as instituições oficiais afegãs. Isso fez com que a principal ameaça à estabilidade do Estado afegão tenha surgido geralmente não do interior, mas de seus poderosos vizinhos: Pérsia (hoje Irã), Rússia e Grã-Bretanha.

Antes da invasão soviética, Afeganistão era democrático

Até 1973, o regime político do Afeganistão foi uma monarquia hereditária dominada pela mesma família, os Durrani, de origem patane. A organização social dos patanes é de tipo tribal, ou seja, que remonta a um suposto ancestral comum (nesse caso, um mítico parente do profeta Maomé, fundador do Islã). A partir de 1950, o rei Zahir Shah assinou três tratados de amizade e cooperação com a União Soviética, interessada em assegurar um ponto de apoio ante o Irã do xá Reza Pahlevi, aliado do Reino Unido e dos Estados Unidos.

Embora a proximidade com a União Soviética tenha garantido relativa proeminência a simpatizantes comunistas entre militares e intelectuais, que seriam decisivas para a proclamação da república em 1973, o Afeganistão continuou sendo, em grande medida, um país de população majoritariamente rural organizada em linhas étnicas e tribais e, portanto, tradicionalistas.

Enclaves de modernidade e liberdade à maneira ocidental limitavam-se às grandes cidades, como a capital, Cabul, a leste, e Herat, a oeste, onde a maior parte da população sentia-se mais próxima do Irã do que do restante do país.

A inexistência de um projeto de modernização por parte da monarquia e, depois, dos militares que dominaram o regime republicano - a partir de 1978, organizados em um partido comunista dividido em duas frações - fizeram com que o Estado afegão não entrasse em choque com chefes tribais e mulás, evitando uma crise como a que resultou, no Irã, na Revolução Islâmica de 1979.

Mulheres afegãs desfrutavam de plena autonomia e liberdade

Mulheres afegãs
No regime do Talebã as mulheres são obrigadas a cobrir todo o corpo

Uma imagem tornou-se muito frequente na mídia e nas redes sociais com o avanço do Talibã no Afeganistão: a de jovens universitárias de minissaia e saltos altos em Cabul no início dos anos 1970.

A afluência de mulheres às universidades foi uma das consequências mais visíveis da entrada do país na órbita soviética a partir de meados do século XX - um grande número de jovens profissionais egressas do ensino superior em Cabul chegaram a completar sua formação na URSS ou no Leste europeu.

Essa emancipação, porém, foi aparente e circunscrita a bolsões de classe média nos grandes centros urbanos. Nas regiões rurais, a maioria das mulheres afegãs continuou vivendo sob o tacão de uma estrutura rigidamente patriarcal, sob códigos de honra e conduta que muitas vezes as impediam até mesmo de frequentar escolas e limitavam suas perspectivas de vida a uma existência familiar e doméstica.

A religião é a força motriz da sociedade afegã

Pessoas passam por um santuário em Ghazni
Pessoas passam por um santuário em Ghazni, cidade histórica do Afeganistão

Embora cumpra um papel importante, a religião não é o único fator que explica a dinâmica social e política do Afeganistão. A mais importante minoria religiosa é a xiita, dominante entre os hazaras.

Segmentos cristãos e judaicos foram historicamente irrisórios e hoje, na prática, desapareceram. O chamado islamismo fundamentalista ou militante emergiu com força por razões políticas a partir do movimento de resistência à ocupação soviética, em 1979.

"Apesar de o Afeganistão ser uma colcha de retalhos, a religião é, sim, o amálgama que une todas essas tribos. O único fio entre esses povos é o islã. Não dá para dizer que é a força motriz, porque acima do islã está o código de honra dos clãs e das tribos, a questão da hospitalidade e da defesa dos iguais acima de tudo, o orgulho da sua história. Portanto, concordo em parte que a religião é importantíssima na sociedade afegã, mas compartilha a ética do clã e da tribo o que constrói o tecido social afegão", afirma Andrew Traumann, professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (Unicuritiba).

Invasão era única resposta possível ao 11 de Setembro

A presença americana no Afeganistão desde 2001 foi oficialmente justificada pelos governos americanos como resposta aos atentados de 11 de Setembro.

Embora não houvesse afegãos entre os sequestradores (dos 19, 15 eram sauditas, um era egípcio, um libanês, um iemenita e um natural dos Emirados Árabes Unidos, todos países amigos dos EUA), a Al-Qaeda, rede que idealizou e perpetrou os ataques, tinha no Afeganistão sua principal base e foi beneficiada pela recusa do então regime talibã a entregar o líder da organização, Osama bin Laden.

Retrospectivamente, porém, seria impossível afirmar que uma ocupação de duas décadas estivesse no horizonte dos envolvidos na resposta aos ataques, em que pese a magnitude dos atentados e a comoção mundial.

"Vinte anos após os ataques, o resultado é uma política externa estadunidense em frangalhos para a Ásia Central e para o Oriente Médio. Podemos nos perguntar: quais alternativas os EUA teriam? Seja uma ação retaliatória, com bombardeamento, seja uma ação coletiva no âmbito das Nações Unidas no sentido de pressionar aquele grupo que estava no poder e, a partir de uma postura internacional e institucional, levar a cabo uma política de controle do terrorismo internacional", diz Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

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