Afeganistão: um ano após volta do Talibã, mulheres vivem situação “sufocante”, diz ONG

AP - Hussein Malla

Um relatório divulgado nesta quarta-feira (27) pela ONG Anistia Internacional aponta que a vida das mulheres e meninas afegãs mudou radicalmente devido ao regime repressor do Talibã, que voltou ao poder no país em agosto de 2021. Membros da ONG realizaram uma pesquisa de campo no país, onde entrevistaram muitas cidadãs.

Em entrevista à RFI, Marie Forestier, uma integrante da Anistia Internacional que participou dessa missão, denuncia uma situação "sufocante" que destrói a vida de mulheres e meninas afegãs, na educação, na forma como se vestem, no trabalho ou mesmo em sua mobilidade. Para Forestier, as afegãs podem ser presas sob a justificativa de "corrupção moral", como os talibãs se referem às mulheres que saem às ruas sem serem acompanhadas por um homem da família.

Com isso, mulheres que saem desacompanhadas do pai, marido ou irmão, por exemplo, correm o risco de serem detidas. Nesses casos, elas não apenas são detidas arbitrariamente, como também são torturadas, espancadas e submetidas a maus-tratos, explica Maria Forester.

O conjunto de restrições impostas às mulheres em todos os níveis cria uma espécie de “teia de aranha sufocante” que impacta os mais diferentes aspectos de suas vidas, completa a pesquisadora.

Em maio, o Talibã deu um novo passo nas restrições das liberdades das mulheres no Afeganistão, impondo a elas o uso em público de um véu integral – de preferência a burca, símbolo da opressão feminina no país.

Desde que os extremistas voltaram ao poder no Afeganistão, o temido Ministério para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício emitiu diversas recomendações sobre como as mulheres deveriam se vestir.

Morte em câmera lenta

O relatório intitulado “Morte em câmera lenta” aponta outro fenômeno preocupante relacionado aos casamentos forçados e precoces, de que meninas muito jovens são vítimas. Afetadas pela crise humanitária e econômica do país, muitas famílias são incapazes de criar suas crianças e a única solução para elas é oferecer as meninas em casamento, para receberem um dote.

O fechamento das escolas para meninas piora a situação, já que não há mais perspectivas de educação e trabalho para elas. "Algumas mulheres, ou algumas meninas, fizeram planos para a educação e poderiam ter uma profissão e se sustentarem. Esses desejos, esses sonhos de futuro, são destruídos, pois não podem mais estudar. E a maneira de garantir uma renda, de poder viver bem, de novo, é se casar para ter um marido que as proverá”, analisa Forestier.

O congelamento de bilhões de ativos mantidos no exterior e a diminuição da ajuda internacional mergulharam a população em uma precariedade extrema. Quase 95% dos afegãos não comem o suficiente e esse percentual chega a quase 100% para os domicílios chefiados por mulheres. Cerca de 23 milhões de pessoas sofrem de fome aguda no país.

Além da situação econômica e educacional, outro fator que explica a decisão de casar uma jovem é a vontade das famílias de protegê-las dos talibãs. “O Talibã poderia levá-las, raptá-las para se casar com eles à força. Então, assustadas com isso, há famílias que decidiram casar suas filhas até mesmo com um primo para que o Talibã não as leve embora para se casar", relata.

Hospedada na casa de parentes, Marian vive aterrorizada desde que sua irmã mais velha, de 45 anos, viúva e mãe de uma menina, foi forçada a se casar com um combatente do Talibã, há alguns meses.

“Eles vieram diversas vezes à nossa casa e meus pais não puderam dizer uma palavra porque tinham medo do Talibã. Eles sempre nos mostravam suas armas”, ela conta. “Ele levou minha irmã para passar a noite em uma casa onde os soldados do Talibã moram. No dia seguinte, ele trouxe minha irmã para casa. E não voltou durante um mês [...] Neste momento, a maioria dos casamentos acontece assim, as mulheres se casam sob coação. Elas não têm direitos, são como objetos, trazidos ao mundo apenas para serem usados ​​e não para existirem”, conclui.

A família não se atreve a fazer uma denúncia, pois todas as organizações oficiais de apoio às mulheres em perigo foram fechadas pelo Emirado Islâmico do Afeganistão.

Nesta segunda gestão, após 20 anos de ocupação pelos Estados Unidos e seus aliados, o Talibã prometeu ser mais flexível. Porém, a promessa durou pouco e tem resultado em cada vez mais privações dos direitos das mulheres, que haviam desfrutado de duas décadas de liberdades no país.

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