Africanos estendem missão militar contra radicais islâmicos em Moçambique

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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Países-membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, principal grupo multilateral do sul do continente, concordaram nesta quarta-feira (12) em estender a permanência de suas tropas no norte de Moçambique, onde o governo tenta combater um grupo insurgente ligado ao Estado Islâmico.

Na segunda (10), reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou os impactos do conflito na população de Cabo Delgado. Em quatro anos, ao menos 3.000 pessoas já morreram e 735 mil tiveram que deixar suas casas fugindo da violência e do caos climático -147 mil delas têm até cinco anos.

O grupo militar liderado pela África do Sul iniciou em junho o envio de tropas, que inicialmente ficariam em Moçambique por três meses. Em outubro, a missão foi prorrogada até janeiro e, agora, será mais uma vez estendida. O comunicado desta quarta não informou o novo período pelo qual os soldados permanecerão na região.

"A comunidade notou o bom progresso feito desde o início da missão em Moçambique e alargou seu mandato", declarou a organização.

Ao todo, 16 países integram o grupo africano. De acordo com dados de agosto, a África do Sul forneceu 1.500 homens para a missão e a maior parte do equipamento militar pesado. Ainda integram a força Zimbábue, Botsuana e Angola. Ruanda, que não é membro da SADC, foi outro a enviar soldados ao país.

Equipes militares dos Estados Unidos e da União Europeia também oferecem treinamento às Forças Armadas moçambicanas, e há suspeitas de que mercenários russos e sul-africanos atuem no conflito ao lado de Maputo.

Inicialmente, o governo moçambicano se mostrou relutante quanto à ajuda internacional, mas a situação começou a mudar quando militares do país começaram a perder territórios para os insurgentes. Após a chegada de tropas estrangeiras, várias áreas foram retomadas das milícias, incluindo Mocímboa da Praia, importante cidade de Cabo Delgado, a 290 km da capital da região, Pemba.

Segundo as forças de segurança, todas as bases dos insurgentes foram destruídas. Estima-se que, no início do conflito, os rebeldes tenham reunido cerca de 3.000 combatentes --número que hoje pode ter caído, devido às baixas causadas pelo avanço das tropas internacionais.

Localizado no extremo norte da ex-colônia portuguesa, Cabo Delgado é historicamente uma região pobre e isolada, que pareceu ter tirado a sorte grande há dez anos, com a descoberta de vastos depósitos de gás natural.

Em abril do ano passado, porém, a empresa francesa Total interrompeu um projeto bilionário depois que a milícia islâmica atacou a cidade de Palma, quase na fronteira com a Tanzânia e perto das instalações da companhia.

O município foi cercado por terroristas na data em que o grupo francês anunciou a retomada de obras da refinaria de extração de gás. Houve relatos de que grande parte da cidade tinha sido destruída e de que havia cadáveres estendidos pelas ruas. O governo disse que dezenas morreram nos ataques, sem dar números exatos.

Cerca de 19% da população de Moçambique é muçulmana, grupo menor apenas que o de católicos, que são 27%. Em Cabo Delgado, a proporção se inverte para 53% e 36%, respectivamente.

Além do conflito armado, os deslocados pelo conflito ainda sofrem com desastres naturais, acelerados pelas mudanças climáticas. Em cinco décadas, de 1970 a 2019, 79 eventos extremos ocorreram no país lusófono, o que o coloca em segundo lugar entre os mais atingidos no continente africano, atrás da África do Sul (90), de acordo com dados da OMM (Organização Meteorológica Mundial) --na China, líder global, foram 721.

Os impactos ambientais têm afetado também a disponibilidade de recursos como água potável. Segundo dados da Cruz Vermelha para a África, Cabo Delgado contou 3.400 casos de cólera em agosto de 2021, enquanto no mesmo período do ano anterior a cifra era de 2.200. Casos de diarreia, segunda causa de mortes de crianças com menos de cinco anos, superaram 28,6 mil no primeiro semestre de 2021.

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