Afrofuturismo abre os debates do Wired Festival Brasil, no Planetário da Gávea

Quando se nasce e vive em situações adversas, é difícil pensar em algo além das necessidades básicas. Por isso, o conceito de afrofuturismo é tão poderoso para pessoas pretas e periféricas: ele liberta a imaginação e oferece perspectivas transformadoras da realidade. Nesta quinta-feira, três mulheres negras dividirão suas experiências afrofuturistas (transformadoras) no Wired Festival Brasil 2022.

Com o tema “Embarque imediato no metaverso”, este ano o evento acontece de 17 a 20 de novembro, presencialmente e on-line no primeiro dia, e exclusivamente no metaverso nos restantes. No dia de abertura do festival, a mesa “Cultura e futuro” acontece às 13h40, no Planetário, com a escritora Lu Ain-Zaila, a jornalista Carol Anchieta e a cientista da computação Nina da Hora. Para as três, a possibilidade de imaginar futuros inovadores é uma questão essencial.

— Nos meus trabalhos como jornalista e pesquisadora, uso o afrofuturismo para pensar inovação direcionada à negritude — conta Carol Anchieta, que é mestre em Design Estratégico para Inovação Social e curadora e editora de publicações como a revista Corpo Futuro e Design Ativista para a Mídia Ninja. — A imaginação é potente quando alcança todo mundo, mas, para o povo preto, isso vem muito da necessidade. Poucas pessoas têm a possibilidade da abstração da arte, de pensar a arte pela arte — reflete.

— Imaginar novos mundos depende do nosso tempo para fazer boas perguntas, interpretar, refletir, respirar. Atualmente, estamos vivendo como máquinas — critica Nina da Hora.

Por meio da conexão com a ancestralidade africana, o afrofuturismo oferece, para milhões pessoas que tiveram seus antepassados sequestrados pelo tráfico de escravos, uma nova perspectiva de vida (como a Wakanda do blockbuster “Pantera Negra”). Por essa razão, antes mesmo de ser uma escritora afrofuturista, Lu Ain-Zaila se considera uma mulher afrofuturista. À brasileira.

— Não existe uma perspectiva única de afrofuturismo. Existe o americano, mas tem também o que está se construindo no Brasil — explica Lu, autora da duologia de ficção científica “Brasil 2408”, protagonizada por uma heroína negra. — Não dá para escrever afrofuturismo se você não conhece a literatura negra. (Na minha obra) trago Leda Maria Martins, filósofos africanos, brasileiros, o pensamento de Oswaldo de Camargo, de Conceição Evaristo. Esses pensamentos sociais negros me ajudam a pensar o afrofuturismo sob uma perspectiva de Brasil.

No Brasil, músicos como Karol Conká, BNegão e a banda BaianaSystem, o artista plástico Maxwell Alexandre e escritores como Fabio Kabral e Alê Santos também se identificam como afrofuturistas. Mas o conceito não está restrito às artes. Pesquisadora na área de Pensamento Computacional, Nina da Hora se define como hacker antirracista.

— Parte de quem eu sou na tecnologia tem a ver com não admitir que elas sejam criadas para aflorar essas injustiças. Hackear é justamente uma forma de despadronizar o que não é inclusivo, justo — diz Nina.

Essa atitude se reflete, de modos distintos, em Carol Anchieta e Lu Ain-Zaila. Mas o pensamento é o mesmo: dar protagonismo ao povo preto.

— Acredito que é o aquilombamento que vai nos levar para a frente — diz Carol, citando o conceito de resistência criado pelo poeta, ator e ativista Abdias do Nascimento. — É o que vai nos potencializar para a gente conseguir tirar o olhar do colonizador de cima de nós, voltar ao passado, repensar o presente e se projetar num futuro inovador a partir da ancestralidade, que é o que propõe o afrofuturismo.

— Antes de tudo, o afrofuturismo é uma autoexpressão e uma forma de pessoas negras, cientes e conscientes de sua existência, olharem o mundo — complementa Lu.

O Wired Festival Brasil é uma realização Edições Globo Condé Nast e O GLOBO, com apresentação da Invest.Rio | Prefeitura RJ, patrocínio do Meta, da BMW e do Mercado Bitcoin, apoio de Johnnie Walker e Listerine e curadoria e experiências pela BRIFW. As inscrições podem ser feitas em https://bit.ly/3A865lQ.

Mesa discute tecnologias imersivas nas novelas

Idealizadora da Brazil Immersive Fashion Week, primeira semana de moda imersiva da América Latina (as apresentações do Immersive Talks da BRIFW este ano serão em parceria com o Wired Festival), Olivia Merquior pensa o tempo todo nos cruzamentos entre cultura e tecnologia. Nesta quinta-feira, às 17h50, ela participará da mesa “Travessia”, com a atriz Dandara Mariana e mediação do jornalista Leonardo Ávila. Eles debaterão como novas tecnologias interferem em linguagens estabelecidas, como as novelas — o metaverso é um dos temas da trama de Gloria Perez.

— A palavra “metaverso” foi sequestrada mesmo antes de entrar nos dicionários, o sentimento é de uma tendência que vai passar. Por isso, eu prefiro falar sobre as tecnologias imersivas que compõem esse novo sistema de troca de mensagens e histórias — adianta Olivia. — Assim como rádio, cinema, TV, computador modificaram o modo com que nos relacionamos, as novas tecnologias de realidade expandida vão gerar conteúdos tridimensionais, navegáveis e governáveis para sua audiência — explica.

Para Olivia, ver as novas tecnologias integradas a uma novela pode ser muito proveitoso.

— A novela das nove é um espaço de educação e democratização de assuntos muitas vezes pouco conhecidos pelo grande público — diz Olivia, que propõe uma reflexão ativa sobre o que consumimos em matéria de tecnologia:

— Vivemos os últimos anos como consumidores e geradores de conteúdo de redes sociais sem nos perguntarmos como essas plataformas funcionavam, e acabamos sofrendo os efeitos dessa falta de conhecimento. Abrir a discussão sobre o metaverso ou sobre a terceira fase da web é uma tentativa de explicarmos como essas tecnologias podem ser governadas de maneira mais positiva para a sociedade.