Agência Europeia aprova vacina contra varíola dos macacos, que pode se tornar nova DST nos EUA

REUTERS - EDUARDO MUNOZ

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) anunciou nesta sexta-feira (22) ter aprovado uma vacina contra a varíola humana para estender seu uso contra a disseminação da chamada varíola dos macacos, que pode receber o mais alto nível de alerta da OMS. O aumento de casos da doença acendeu o alerta vermelho das autoridades de Saúde dos Estados Unidos, que já preveem que a infecção possa se tornar uma doença sexualmente transmissível (DST) de ampla circulação no país.

Nos Estados Unidos, Nova York contabiliza a maioria dos casos da doença, mas as autoridades estão lutando para enfrentar as infecções: não há vacinas suficientes e os cuidados médicos são limitados. Uma situação que tem provocado indignação nas comunidades mais afetadas, como a LGBTQIA+.

A luz verde do regulador da União Europeia (UE) chega no momento em que o mundo aguarda as conclusões dos especialistas após uma reunião, nesta quinta-feira (21), do Comitê de Emergência da OMS, cujo diretor-geral expressou preocupação com o número crescente de casos desta varíola em todo o mundo.

Em frente às clínicas de um bairro de Nova York, as filas que esperam a vacina contra a varíola dos macacos às vezes se estendem por diversos quarteirões. As consultas para se vacinar são quase impossíveis de serem marcadas com antecedência. Assim, muitos estão denunciando a inação das autoridades norte-americanas diante da proliferação da doença.

"A varíola dos macacos está se espalhando como um incêndio", afirmou um homem que não quis se identificar, em entrevista à RFI. "No último fim de semana, um amigo meu esperou muito, muito tempo na frente de uma clínica com centenas de pessoas, porque o sistema tinha bugado. Mas o principal problema é que eles não têm vacinas suficientes", testemunhou.

Outro entrevistado declarou conhecer "pessoas que têm varíola neste momento e não conseguem obter o remédio para aliviar a dor". "E conheço outros que já tentaram quatro vezes marcar uma vacina, sem sucesso", complementou.

Estigmatização da comunidade homossexual

Desde o surto de varíola dos macacos nos Estados Unidos, mais de 700 pessoas foram afetadas só em Nova York. Os números estão aumentando rapidamente.

Ainda que qualquer pessoa possa ser infectada, a comunidade LGBTQIA+ é a mais duramente afetada. Nesta quinta-feira, a associação Act Up organizou um comício em Manhattan para exigir melhores cuidados. Muitos temem uma nova estigmatização da comunidade homossexual por causa da doença, sexualmente transmissivel.

"As pessoas têm medo por causa da epidemia do HIV dos anos 80 e 90. Eles temem que os homossexuais sejam vistos como portadores de doenças", declarou um porta-voz da organização.

Diante das críticas, as autoridades norte-americanas prometem aumentar a capacidade de vacinação nos próximos dias. Cerca de 26 mil doses de vacina são anunciadas para esta semana.

A vacina

A vacina Imvanex, da empresa dinamarquesa Bavarian Nordic, foi aprovada na UE desde 2013 para a prevenção da varíola, sendo agora aprovada contra a varíola dos macacos devido à semelhança entre este vírus e o da varíola humana.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse nesta quinta-feira que estava "preocupado" com o número crescente de casos de varíola dos macacos na abertura de uma reunião do comitê de emergência, pedindo conselhos a especialistas.

A situação piorou nas últimas semanas, com mais de 15,3 mil casos em 71 países, de acordo com os números mais atualizados das autoridades sanitárias dos EUA (CDC, na sigla em inglês).

Em uma primeira reunião, em 23 de junho, a maioria dos especialistas recomendou que Tedros não declarasse uma emergência de saúde pública de alcance internacional.

"Efeitos colaterais suaves"

O surto incomum de casos de varíola fora dos países endêmicos da África Ocidental e Central, detectado no início de maio, espalhou-se desde então pelo mundo, tendo a Europa como seu epicentro.

Detectada pela primeira vez em humanos em 1970, a varíola dos macacos é menos perigosa e contagiosa que sua "prima", a varíola humana, que foi erradicada em 1980. Na maioria dos casos, os pacientes são homens que mantêm relações sexuais com homens, são relativamente jovens, e vivem principalmente em cidades, de acordo com a OMS.

A doença começa com uma febre alta e rapidamente se desenvolve para uma erupção cutânea com crosta. A infecção geralmente tem sintomas leves e normalmente a cura acontece espontaneamente após duas ou três semanas.

O regulador europeu baseou sua recomendação em dados de diversos estudos com animais que mostraram proteção contra o vírus da varíola em primatas após serem vacinados com a Imvanex. "O perfil de segurança do medicamento é favorável, com efeitos colaterais leves a moderados, e o CHMP [sigla em inglês para Comitê de Medicamentos para Uso Humano] concluiu que os benefícios do medicamento superam os riscos", revelou a EMA em uma declaração.

A empresa dinamarquesa Bavarian Nordic, único laboratório que produz uma vacina licenciada contra a varíola dos macacos, afirmou nesta terça-feira (20) ter recebido uma encomenda de 1,5 milhão de doses de um país europeu, a maioria a ser entregue em 2023, enquanto os EUA encomendaram mais 2,5 milhões de doses.

(RFI e AFP)

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