Mães de Beslan obtêm justiça 13 anos depois da tragédia

Virgínia Hebrero

Moscou, 13 abr (EFE).- Treze anos depois, o Tribunal de Estrasburgo condenou a Rússia por não ter protegido os reféns tomados por terroristas em uma escola de Beslan, reavivando aquelas 52 horas de horror que deixaram 334 mortos, mais da metade crianças.

Com sua sentença largamente esperada, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) deu a razão aos familiares das vítimas e aos reféns sobreviventes, que exigiam justiça e o reconhecimento de que as autoridades não impediram o sequestro, apesar de saber que era preparado um atentado dessas caraterísticas.

O veredito condena a Rússia ao pagamento de uma indenização total de 3 milhões de euros aos 409 demandantes, por considerar que houve "graves erros" na gestão da crise, que terminou com um autêntico massacre.

Na manhã de 1 de setembro de 2004, um comando de rebeldes armados que exigia o fim da guerra da vizinha Chechênia entrou em uma escola da pequena localidade de Beslan, na região caucasiana russa de Ossétia do Norte, e tomou como reféns mais de 1,2 mil pessoas, 800 delas crianças, além de pais e professores.

As primeiras vítimas morreram no tiroteio que começou entre os terroristas e os polícias que chegaram ao local, após o qual o comando agrupou os reféns no ginásio da escola, cheio de explosivos

Começavam 52 horas de horror, nas quais apenas foi possível conseguir a liberdade de 30 reféns. Além disso, começou a faltar água e alimentos e algumas mães tiveram que optar por salvar um de seus filhos e deixar outros em meio a esse inferno.

Em 3 de setembro, uma confusa operação de resgate iniciada pelas forças de segurança russas terminava com mais de 330 mortos, dos quais 186 eram crianças.

Desde então, as Mães de Beslan, organizadas para exigir justiça, trataram de combater o esquecimento e de conseguir a condenação dos culpados, comparecendo todos os ano ao ginásio da velha escola convertida em local de peregrinação e lembrança.

Hoje, a Corte europeia determinou que as autoridades russas "dispunham de suficiente informação precisa sobre um plano de ataque terrorista na região, ligado ao início do curso escolar".

O Tribunal de Estrasburgo acredita que era preciso ter tomado "medidas de prevenção e proteção" em todos os centros escolares da região.

E o erro conclui que "não houve uma investigação adequada sobre a maneira na qual morreram as vítimas" e que não foi investigado devidamente o uso indiscriminado por parte das forças da ordem de lança-granadas, lança-chamas e um canhão na tomada do colégio, entre outras acusações.

Apesar da alegria pela sentença, os demandantes - mais de 400 entre familiares dos mortos e reféns que ficaram feridos - consideram insuficiente a indenização estipulada.

"Alguns receberão 5 mil euros, outros 20 mil. Estas somas são insuficientes para cobrir o enorme dano moral. Mas o objetivo principal não era a compensação do dano moral, mas sim estabelecer os culpados do atentado", disse Aneta Gadieva, representante das Mães de Beslan.

Logo após a revelação da sentença, o Kremlin a qualificou de "inaceitável", em palavras de seu porta-voz, Dmitri Peskov, e o Ministério de Justiça anunciou que se recorrerá no prazo correspondente.

Os demandantes querem agora comparecer ao Supremo Tribunal da Rússia para exigir que sejam apontadas as responsabilidades das autoridades que agiram com negligência e não adotaram as medidas necessárias para evitar a morte dos reféns.

Muitas mães de crianças mortas na tragédia responsabilizam o presidente russo, Vladimir Putin, por ter ordenado uma operação de resgate apesar de saber que esta tinha muitas possibilidades de terminar com a morte de centenas de inocentes.

Uma delas, Emma Betrozova, perdeu durante a controversa operação das forças especiais russas seu marido e seus dois filhos, de 14 e 16 anos.

Assim como Janna Tsirijova e Svetlana Marguiyeva, que foram reféns dos terroristas e viram suas filhas morrerem durante a operação policial. EFE