Agenda migratória de Biden: uma reviravolta após quatro anos de repressão

Catherine TRIOMPHE, Laura BONILLA
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Imigrante mexicano exibe cartaz que diz "Biden: iluminamos o caminho para uma reforma migratória humana", durante uma vigília de imigrantes e seus defensores na passagem de fronteira de San Ysidro em Tijuana, Baja Califórnia, México, em 19 de janeiro de 2021

Em seus quatro anos no governo, Donald Trump aprovou mais de 400 decretos executivos para frear a imigração e punir os imigrantes em situação ilegal.

Horas depois de assumir a Presidência, Joe Biden reverteu várias destas medidas e deu início a uma audaciosa agenda migratória, que inclui um projeto de lei para legalizar os 11 milhões de estrangeiros sem documentos residentes nos Estados Unidos, se não tiverem antecedentes criminais e pagarem impostos.

"Agora, tenho esperanças de que me façam justiça, estes últimos quatro anos foram o pior que nos aconteceu na vida", disse à AFP Aura Hernández, uma guatemalteca de 39 anos, que em 2018 passou oito meses refugiada em uma igreja de Manhattan com o filho pequeno, quando o governo de Trump quis deportá-la.

Um dos decretos assinados por Biden na quarta-feira, horas depois de assumir o cargo, detém quase todas as deportações por cem dias.

Outros freiam a construção do muro na fronteira com o México, revogam a restrição de entrada ao país para cidadãos de vários países muçulmanos, aumentam a proteção de jovens chamados "Dreamers" - trazidos ainda crianças ilegalmente aos Estados Unidos pelos pais, e a quem o ex-presidente Barack Obama protegeu da deportação em 2012 através do decreto executivo DACA - ou asseguram que os migrantes em situação ilegal serão contados no censo nacional.

- "Uma tarefa hercúlea" -

A agenda migratória de Biden inclui principalmente um ambicioso projeto de lei que prevê um caminho de oito anos para que os irregulares obtenham a cidadania.

Além disso, se o projeto for aprovado, os "Dreamers" e os imigrantes com status de proteção temporária (TPS), assim como os trabalhadores agrícolas, obteriam automaticamente o "green card" ou residência permanente, haverá mais juízes migratórios para acelerar os trâmites e ajuda externa para enfrentar os problemas causados pela migração, entre outras medidas.

Mas o projeto deve ser votado no Congresso, onde apesar de controlarem as duas Câmaras, os democratas terão que obter nove votos republicanos no Senado para alcançar maioria de 60, "uma tarefa hercúlea", disse na quinta-feira por videoconferência o senador democrata Bob Menendez, principal patrocinador do projeto na Câmara Alta.

Menendez pediu ajuda ao empresariado para defender o projeto, a começar pelos setores agrícola e tecnológico, que precisam de mão de obra estrangeira.

O presidente da Apple, Tim Cook, responsável pela imigração na associação Business Roundtable, disse na quarta-feira estar disposto a trabalhar com o governo e o Congresso "em soluções globais para reparar nosso fracassado sistema migratório".

"Após quatro anos de guerra contra a imigração e os imigrantes", a agenda de Biden "é como o despertar de um novo dia", disse à AFP Krish O'Mara Vignarajah, presidente da Organização de Reassentamento de Refugiados LIRS (Lutheran Immigration Refugee Services).

Biden "não só está revertendo ações de Trump, como o muro fronteiriço, como vai além, ao propor novas políticas audaciosas, baseadas na compaixão e no senso comum", acrescentou, lembrando que a admissão de refugiados muçulmanos durante o governo Trump caiu de quase 40.000 em 2016 para 2.500 em 2020.

"A nuvem escura que tínhamos sobre nossas cabeças foi embora", concordou Camille Mackler, advogada migratória que chefia a organização Immigrant Advocates Response Collaborative, nascida a partir da proibição de viagens de países muçulmanos, como Irã e Iêmen.

Após quatro anos de "estancar o sangramento tanto quanto possível (...), agora podemos arregaças as mangas e começar a trabalhar".

- "Um sonho que virou realidade" -

Milhões de ilegais no país vivem há anos no limbo migratório, correndo o risco de ser deportados e sem possibilidade de ser regularizados se não pagarem impostos.

"Este é um grande problema migratório que não foi resolvido durante décadas. Cada vez que um presidente democrata tenta encontrar um caminho para a legalização, os republicanos o fazem retroceder", explicou Sahar Aziz, da faculdade de Direito da Universidade Rutgers em Nova Jersey.

Juana Alejandro, uma "dreamer" mexicana de 23 anos que trabalha em uma universidade de Nova York, viveu estes quatro anos com medo de que Trump pusesse fim ao DACA - sua tentativa foi bloqueada pela Justiça - ou que seus pais fossem deportados.

"Meus pais vivem nos Estados Unidos há quase 22 anos, mas não têm documentos, para eles a legalização seria um sonho que virou realidade", disse à AFP.

Mas além de esperança, também há cautela. Quando Biden era vice-presidente de Barack Obama (2009-2017), o governo deportou a maior quantidade de ilegais da história: mais de 3,2 milhões em oito anos.

Com Biden, "não queremos nos iludir demais pelo que aconteceu antes", disse Hernández, a mãe que se refugiou em uma igreja e que agora vive escondida em uma casa ao norte de Nova York.

"Vivíamos calados, fugindo (...), mas agora podemos falar sem que fiquem nos perseguindo. Estamos nos preparando para a luta. Porque isto vai ser uma luta".

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