Agentes do Tijuca Presente foram convocados para evento no qual Rodrigo Amorim pediu voto para o irmão

Gabriela Oliva*
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RIO — Integrantes de um dos principais programas de Segurança Pública do governo do estado foram convocados para um evento de campanha de um candidato a vereador do Rio. Na noite da última terça-feira (3), o coordenador do Tijuca Presente, capitão Fábio Bonfim, solicitou o comparecimento de todos os integrantes do programa, dois dias depois, em um evento de lançamento de um livro do deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ), no qual ele pediu votos para o irmão Rogério Pires Amorim, candidato a vereador pelo município do Rio pela mesma sigla.

— Queria pedir atenção de vocês para os candidatos que estão do nosso lado e que defendem as nossas bandeiras e pedir um voto de confiança para que nessa reta final a gente consiga, um a um, multiplicar os votos, montar um grande time e fazer que o movimento que fizemos em 2018 de romper o sistema não caia por terra. A estratégia inicial, quando eu não saio candidato a prefeito, ela desmorona. O meu irmão Rogério Amorim será a continuidade do trabalho que faço na Assembleia Legislativa, na Câmara Municipal — discursou o parlamentar.

Rogério ficou a maior parte do tempo ao lado do irmão e discursou brevemente no final do evento. Apesar do seu pronunciamento ter ressaltado bandeiras políticas, a data das eleições e a importância da escolha de um vereador que representa os valores conservadores, o neurocirurgião disse ao GLOBO que o evento não era representativo para sua campanha à vereança.

— O evento não significou nada na minha candidatura. Nós somos irmãos e entrosados na vida. Esse evento representa uma comemoração porque a ordem pública fazia parte da candidatura dele à prefeitura e o município nunca assumiu essa responsabilidade — disse.

Durante a reunião, que possuía cerca de 50 agentes do Tijuca Presente sem uniforme, os integrantes do programa interagiram com o parlamentar levantando a mão quando Amorim perguntou quem da plateia atuava na operação. Eles também fizeram patrulhamento maciço em volta do clube que sediou o evento, o Tijuca Tênis Clube.

Atualmente, o programa Segurança Presente é pago pelo governo estadual. O custo mensal — incluindo salários, manutenção e abastecimento de veículos, confecção de coletes e estrutura administrativa— é de cerca de R$ 15,5 milhões. Em nota, o governo do estado informou que o número pode variar de acordo com a quantidade de policiais que não são fixos e se habilitam para trabalhar na operação durante a folga no batalhão.

Um agente do programa que não quis se identificar informou ao GLOBO que em um grupo de agentes fixos do Tijuca Presente no WhatsApp, chamado de Fixos Tijuca, Bonfim enviou uma mensagem convocando a presença integral de todos os membros do programa do bairro para participar do evento. A reunião contou com a presença do ex-presidente do Detran e subsecretário de Ações Estratégicas Antônio Carlos dos Santos, responsável pelo Segurança Presente, que elogiou a atuação do parlamentar no programa.

"Na quinta, às 18h, teremos um evento em nossa área e nos foi solicitado junto à administração o comparecimento maciço. Desta forma solicito o comparecimento de todos os integrantes do Tijuca Presente", escreveu o capitão, que confirmou a autoria da mensagem ao GLOBO.

Segundo Bonfim, não existiu nenhum tipo de obrigatoriedade por parte da coordenação do Tijuca Presente para os agentes irem ao evento.

— Recebemos determinação expressa para convocarmos ao evento apenas voluntários, em hipótese alguma efetivo de serviço foi autorizado a ir. Como se tratava de um evento dentro da área da Tijuca, foi solicitado uma boa adesão, porém discricionário. Estamos em período eleitoral, logo todas as nossas ações de comando devem ser pautadas na legalidade e integridade — disse ele.

O título do livro de Amorim, "Restaurando a ordem _ Ideias de segurança pública para a reedificação do Rio de Janeiro", faz alusão a uma declaração do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Quando Amorim e o deputado federal Daniel Silveira (PSL) destruíram uma placa em homenagem a Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada em março de 2018, o filho do presidente Jair Bolsonaro afirmou que os aliados "nada mais fizeram que restabelecer a ordem", uma vez que o tributo tinha sido afixado sobre o nome real do local: Praça Marechal Floriano, no Centro do Rio.

— Todos vocês acompanharam quando em 2018, ao lado do deputado federal Daniel Silveira, fizemos um gesto de restauração da ordem pública. Nós retiramos aquela placa indevida e ilegítima fruto de uma ação da esquerda. Esse livro foi sintetizado nessa palavra que deu um norte àquelas ações e inspirou o gesto de tirar uma placa arbitrária — comentou.

Vânia Aieta, professora da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e advogada especializada em Direito Eleitoral explica que a convocação pode se configurar como criminosa:

— Os agentes podem participar do evento desde que seja fora do horário de serviço. Agora, se ele chamou dentro do horário, pode se configurar conduta vedada e abuso de autoridade por parte da chefia desses guardas. No caso do candidato a vereador Rogério Amorim, ele pode estar na ação como beneficiário da conduta ilegal de terceiros.

Rodrigo Amorim se referiu ao Tijuca Presente em grande parte do seu discurso.

— Chega do programa Segurança Presente ser penduricalho de político. Chega de pilantra querendo indicar politicamente pessoas que não têm disposição de enfrentar vagabundo. Pode me denunciar no Conselho de Ética, mas tem muito pilantra que usa o programa como cabide de emprego. Gradativamente a gente vai acabar com isso — disse.

Questionado pelo GLOBO sobre a convocação dos integrantes do Tijuca Presente para o evento, Amorim respondeu:

— Eu sou o deputado mais atuante na área da segurança pública e ordem. Todos que estão aqui admiram o meu trabalho. Acha que tenho diálogo com vagabundo e traficante? Como jornalistas como você têm? Meu diálogo é com a polícia. Não teve convocação. Ainda que tivesse, estou do lado da polícia. Estou do lado da tropa e estarei sempre. Lancei um livro público em um clube que fui criado. Não foi um gesto de campanha, apesar do meu irmão estar do meu lado e ele ser candidato, assim como outros postulantes que vieram de municípios diferentes — disse o parlamentar.

(* Estagiária sob supervisão de Fernanda Krakovics e Leila Yousseff )