Aglomeração nas ruas e até manifestação marcam o primeiro dia de feriado no Rio

Marcos Nunes, Gilberto Ribeiro, Flávio Trindade e Pâmela Dias*
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RIO — O Rio passa por seu pior momento desde o início da pandemia, apesar disso o carioca parece não estar preocupado. O primeiro dia do feriadão adotado para tentar conter os números alarmantes de casos de Covid-19 foi marcado por ruas cheias, ônibus lotados e até uma manifestação. Especialistas alertam que medidas de restrição podem não surtir efeito.

Em Botafogo, na Zona Sul, as ruas amanheceram movimentadas. A circulação de pessoas, algumas inclusive sem máscaras, subiu 21%, de acordo com dados do levantamento feito semanalmente pela empresa de inteligência artificial Cyberlabs, a partir das imagens das câmeras do Centro de Operações Rio (COR). A metodologia leva em consideração a quantidade de pessoas nas ruas em relação a uma sexta-feira normal, antes da pandemia do coronavírus.

- Tem menos gente na rua, mas não o quanto eu esperava. Eu mesmo só saí de casa para comprar um remédio. Estou me cuidando. Tive familiares que pegaram Covid-19 e sei o que é isso - disse o jornalista Francisco Teixeira, de 67 anos.

A maior parte do comércio ficou fechado. A exceção foram serviços considerados essenciais como mercados, farmácias, padarias e postos de gasolina. Algumas lanchonetes abriram para fazer delivery. Apesar disso, para a advogada Josélia de Araújo, de 63 anos, a circulação nas ruas do bairro foi maior que o esperado.

- Não vi tanta diferença dos outros dias. Está quase a mesma coisa. Há muita gente na rua - disse.

Em Copacabana, um grupo de pessoas realizou uma manifestação contra as medidas de restrição na cidade. Muitas, inclusive estavam sem máscara. Eles andaram pela orla da Praia de Copacabana, que também registrou movimento nas areias.

O trânsito ficou melhor e chegou a registrar até 94% menos de engarrafamento em comparação com uma sexta-feira normal, segundo dados do Centro de Operações da Prefeitura do Rio. Mas quem precisou pegar transporte público para trabalhar não encontrou uma situação diferente de um dia útil.

- Para mim não mudou nada. Tenho de pegar dois ônibus para chegar ao trabalho, em Nova Iguaçu. Hoje saí de casa às 7h e só consegui embarcar no Cesarão quase 9h. O 759, que vai para Coelho Neto, já saiu com todos os bancos ocupados e umas poucas pessoas em pé, mas na Avenida Brasil ficou superlotado como sempre. Não adianta nada as medidas do governo, se reduzem o número de ônibus na rua. Tem gente como eu que precisa trabalhar – reclamou o corretor de imóveis Rafael Lourenço, de 27 anos, morador de Santa Cruz.

O Zelador Jorge Luiz de Araujo, de 51 anos, morador em Mesquita, conta que o trem para o Centro do Rio veio quase tão cheio como em um dia normal.

- Peguei o trem hoje às 6h25, em Mesquita, e consegui vir sentado, porque tinha menos gente. Mas o vagão começou a ficar lotado a partir de Deodoro e foi assim quase a viagem toda. Eu diria que a viagem foi mais suave, porque vim sentado, mas ainda estava longe de ser o ideal – contou.

Na Baixada Fluminense também houve registro de ruas cheias. Em Belford Roxo, pelo menos 300 pessoas aguardavam numa fila de banco, na rua, sem qualquer distanciamento social. Em Caxias, onde o comércio foi liberado para abrir normalmente, a circulação nas ruas era normal. O mesmo foi registrado em São João de Meriti.

Para Celso Ramos Filho, infectologista e Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, caso as pessoas não respeitem o feriadão que foi imposto para conter a transmissão do Covid-19, de nada vai adiantar as restrições feitas pelas prefeituras.

- A gente entende que muitas pessoas são afetadas com essas medidas, mas já que elas foram implementadas, é preciso segui-las. No momento, o isolamento social é essencial, porque vai reduzir dentro de duas semanas a curva de incidência da doença – explicou o especialista, que acrescenta:

-Nós tivemos mais de 300 mil mortes até agora e, caso não seja respeitado o distanciamento social, até o fim deste semestre serão mais de 500 mil mortes. Isso é muito grave, pois a vacina ainda vai demorar para chegar para todos, especialmente por ser duas doses. Então é preciso redobrar a fiscalização nas ruas, colocar carros de som para manter a conscientização das pessoas e pedir para que fiquem em casa.

Já o médico e professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, Mario Dal Poz, acredita que o fato de o governo ter chamado o recesso de 'feriado' foi ruim, pois passa a sensação de folga para as pessoas.

- Foi uma decisão muito equivocada chamar esses dez dias de feriado, pois o feriado passa para as pessoas a sensação de que é folga, de que pode viajar, ir à praia, e aí perdemos a visão de falar sobre o essencial, que é o aumento de casos de Covid. Para que surja efeito é preciso que as esferas federais, estaduais e municipais estejam articuladas, porque fica muito confuso para a população cada lugar ter uma medida restritiva. É difícil estar informado sobre tudo o tempo todo. E caso as restrições não sejam respeitadas vamos chegar a 5 mil mortes por dia, porque a situação é de caos. Está morrendo mais do que morreram nas guerras e tudo isso pode ser evitado, se as pessoas respeitarem as medidas sanitárias.

Restrições em vigor nesta sexta

As restrições anunciadas pela prefeitura e o governo contra o Covid-19 entraram em vigor nesta sexta. A prefeitura montou três barreiras sanitárias (uma na Linha Amarela, na altura da saída 4, sentido Barra da Tijuca; uma segunda no Trevo das Missões; e outra na Avenida das Américas, na Grota Funda, no sentindo Barra da Tijuca) para evitar que ônibus ou vans, que não são de linhas convencionais, entrem na cidade durante o período do recesso.

Os dez dias de combate à Covid-19, que começam hoje e vão até 4 de abril, Domingo de Páscoa, terão duas frentes importantes. Uma delas é um grande esforço para esvaziar as ruas do Rio no período, que, embora tenha sido chamado de feriadão, é na verdade um recesso forçado para combater o avanço do coronavírus. A outra é uma tentativa de reduzir a fila para UTIs no estado que na quinta-feira superou a marca de 600 pacientes — a maior desde o início da pandemia —, não só diminuindo a circulação de pessoas, mas também abrindo novos leitos hospitalares.

O Rio registrou na última semana o seu pior momento desde o início da pandemia de Covid-19. De acordo com declaração nesta sexta-feira do secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, atualmente são 663 pessoas internadas em leitos de CTI. A mortalidade nas UTIs da cidade chega a 40%, acrescentou o secretário. De acordo com o subsecretário de Vigilância Epidemiológica, Márcio Garcia, há um crescimento de casos das novas cepas da doença na cidade. Em uma semana, segundo Garcia, triplicou o número nos diagnósticos laboratoriais por Covid-19, a maior parte da variante P1.

*Estagiária com supervisão de Vera Araújo