Pancadão x cassino clandestino: há 'marcador social' nas aglomerações durante a pandemia?

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Mesmo com mais de 420 mil mortos pela Covid-19, país ainda registra festas clandestinas e aglomerações de forma recorrente - Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images
Mesmo com mais de 420 mil mortos pela Covid-19, país ainda registra festas clandestinas e aglomerações de forma recorrente - Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images

Além da possível omissão de autoridades no combate à pandemia do novo coronavírus, discute-se atualmente o papel da população na contenção da crise sanitária ao redor de todo o planeta. No Brasil, mesmo com mais de 420 mil mortos pela Covid-19, sobram registros de festas clandestinas sendo interrompidas e estabelecimentos sendo autuados por desrespeito às normas sanitárias vigentes.

Ainda assim, mesmo quando o assunto é aglomeração, é preciso ponderar algumas questões essenciais antes de apenas criticar os envolvidos. É o que acredita Wesllen Cosme de Souza, professor e antropólogo, pesquisador do Núcleo de Antropologia Urbana da USP (NAU-USP) e do Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (GEAC-USP).

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O professor lembra que o ser humano é um ser social e que as pessoas têm necessidade do lazer. Este, por sua vez, deve ser encarado como um direito e não algo que é oposição ao trabalho simplesmente.

"É preciso mantar o distanciamento social, isso é indiscutível. Contudo, durante a pandemia, principalmente o jovem, acaba buscando aglomerações, festas clandestinas, entre outros, pela necessidade de se construir como alguém dentro de algo. Há toda uma pressão social para estar dentro de um grupo que não é a família, nem o ciclo de colegas da faculdade", pondera Wesllen ao Yahoo!.

Segundo o antropólogo, há um componente social a ser destacado na questão. Para ele, as classes mais favorecidas do país têm dificuldades em lidar com limitações de seus privilégios, o que ajudaria a entender as festas de luxo que são flagradas com recorrência durante a crise sanitária. Contudo, para Wesllen, a forma como as aglomerações na periferia são encaradas pela sociedade é distinta.  

Em pleno auge da pandemia, polícia catarinense chegou a monitorar por uma semana grupo de que organizou festa de luxo com lanchas -  Foto: Polícia Militar/Divulgação
Em pleno auge da pandemia, polícia catarinense chegou a monitorar por uma semana grupo de que organizou festa de luxo com lanchas - Foto: Polícia Militar/Divulgação

"É uma questão histórica. A gente fala do racismo no Brasil que é estrutural. É justamente essa questão de você poder tratar o outro de maneira diferente. A lei da vadiagem ela surgiu para atingir determinado grupo social, era aquele jovem negro que era tocando samba, fazendo a capoeira. Nos bailes da elite poderia ter barulho que não era considerado vadiagem. Isso é uma questão estrutural de classe social. Há uma musica ruim, um lazer ruim, uma diversão ruim", diz Wesllen, em referência a como setores da sociedade encaram os pancadões na periferia, por exemplo.

Ao Yahoo!, o mestre em Ciências Sociais Ronaldo Bispo dos Santos também já havia analisado a diferença do impacto que imagens de aglomeração nas praias causavam na opinião pública em comparação com a cenas recorrentes de transporte púbico lotado em pleno auge da pandemia

“Em uma sociedade com histórico escravocrata como o nosso, onde o trabalho é praticamente uma obrigação para as classes mais desfavorecidas, essa atividade vale o preço da sobrevivência, mas também o preço da sua imagem perante a sociedade", avalia ele sobre a percepção de parte da população sobre a questão.

Lazer na periferia

Polícia de São Paulo interrompe uma festa clandestina na Região Metropolitana de São Paulo - Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
Polícia de São Paulo interrompe uma festa clandestina na Região Metropolitana de São Paulo - Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

Classificar as recorrentes aglomerações na periferia como ignorância quanto aos verdadeiros riscos da pandemia de Covid-19 é uma "análise rasa", de acordo com o antropólogo. Para Wesllen, muitos entendem os riscos, mas ainda assim optam por saírem de suas casas em busca do lazer.

"As pessoas têm necessidade: precisam comer, trabalhar, se divertir, entre outras coisas. A cidade já é historicamente negada para quem mora na periferia. A pandemia está apenas evidenciando um problema que é a questão da desigualdade social. Não há condições adequadas de trabalho, saneamento e moradia. Portanto, é muito fácil apontar o dedo quando você não conhece a situação do outro. Classificar como "bárbaros' os que vão aos bailes é uma cegueira social", avalia o antropólogo. 

Wesllen ressalta também que o lazer na periferia precisa ser entendido como forma de resistência, embora, atualmente, devesse estar regulado exatamente pelo risco de contaminação pelo novo coronavírus.

"Aos olhos de alguns, o jovem da periferia precisa ficar contido nos espaços onde vivem. Se ele tenta sair, é retido. Isso é um resquício de autoritarismo, o que explica parcialmente a alta circulação dos jovens em eventos locais. Na periferia 'quem não é visto, não é lembrado'. É importante para o jovem estar visível, ter status dentro de seu grupo", diz Wesllen, que é morador do bairro periférico Mirante da Mata, em Cotia, há 30 anos.

Resistência periférica

A crise socioeconômica que já era grave no país tem sido acentuada pela alta letalidade e longa duração do pico da pandemia no país. Por diversas razões, as periferias são as regiões mais afetadas por esse cenário. Ainda assim, Wesllen vê um potencial de reviravolta a partir de dentro. 

"Os anos 90 foram muito duros para os periféricos no Brasil, mas a periferia sobreviveu graças a seu senso de comunidade. Acho que é preciso resgatar isso novamente. É preciso ajudar os comércios locais, consumir internamente, ajudar a gerar emprego e renda dos seus próximos. O mundo pós-pandemia é uma incógnita, mas a solução é voltar a pensar junto. Se o problema é de todos, a resposta tem que ser de todos em conjunto", destaca o antropólogo. 

Para ele, o lazer na periferia, quando a crise sanitária for superada, seguirá se reinventando apesar das críticas e da repressão.

"A periferia tem a criatividade no DNA. As mães solteiras inventam a 'mistura' com pouco alimento para fazer uma refeição, as crianças inventam brinquedo com latas e assim seguirá. Não serão a pandemia e nem os conflitos que vão frear o lazer dos mais pobres. Quanto maior a crise, maior a necessidade de criatividade". 

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