A agonia da Uerj, vítima da crise do estado do Rio

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no dia 6 de abril de 2017

A volta do ano letivo está atrasado em mais de três meses, mas um grupo de alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) assiste a uma aula bem diferente das outras: na calçada, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual.

Na verdade, a aula é uma forma original de protestar contra a falta de recursos que impede a Uerj, uma instituição tradicional de ensino superior no País, de funcionar normalmente, uma das muitas vítimas da grave crise financeira de um estado à beira da falência.

"A Uerj nunca conheceu uma crise tão extensa e tão duradoura em seus 76 anos de história. Acreditamos há meses que a situação iria melhorar, mas parece que cada vez mais se aprofunda o buraco onde estamos", lamenta o reitor da Uerj, Ruy Garcia Marques.

A universidade, que tem mais de 30 mil estudantes, teve dois juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux e Luís Roberto Barroso, entre seus alunos da faculdade de Direito, uma das mais respeitadas do país.

Mas a crise tem consequências devastadoras: os funcionários acumulam mais de três meses de salários atrasados e até mesmo os professores passam apuros para chegar ao fim do mês.

"Estou com dois meses de aluguel atrasado, é uma negociação diária com a imobiliária, uma situação humilhante. Às vezes não tenho dinheiro para ir ao supermercado, tenho que pedir dinheiro para meus pais", conta, com lágrimas nos olhos, Mariana Pimentel, professora de Teoria da Arte.

Ela não dá aulas desde dezembro, mas todas as quartas-feiras ela monta ateliês para manter contato com os estudantes, que praticamente estão com um ano de atraso nas aulas.

"Normalmente, eu já deveria ter me formado. Não tenho aulas desde dezembro, mas não posso ficar de braços cruzados", diz Juliana Martins, estudante de nutrição, que participa da 'aula-manifestação' em frente ao palácio do governador.

'Extrema dificuldade'

A volta às aulas tinha sido antecipada para 17 de janeiro para tentar compensar os atrasos causados por uma greve de professores no primeiro semestre de 2016, mas a data já foi adiada cinco vezes porque a Universidade não tem recursos para manutenção.

"Precisamos de 7,5 milhões [de reais] mensais para despesas de manutenção, o que da 90 milhões anuais. No ano passado, tivemos repasse de apenas 15 milhões, equivalente a dois meses dessa despesa", critica o reitor.

Ele espera, no entanto, que a volta às aulas ocorra na próxima segunda-feira, após ter conseguido convencer os terceirizados a retomar os serviços básicos de manutenção e limpeza.

Mas a volta só ocorrerá se o estado pagar as bolsas de estudantes de cotistas e fornecer um calendário preciso para o pagamento de salários.

"Temos histórias de funcionários em extrema dificuldade, gente vendendo carro, vendendo casa, pegando empréstimos a juros altos... E não são exemplos isolados, são exemplos até frequentes, infelizmente", enumera o reitor.

"Não há outra forma de definir isso senão como tortura. Estamos numa situação de descumprimento da legalidade, com uma situação análoga a um trabalho escravo", denuncia Dario Souza e Silva, professor de sociologia, que diz estar endividado até o pescoço devido à falta de pagamento de salários.

Questão de prioridades

Há duas semanas, o governador do Rio, Fernando Pezão, ameaçou reduzir em 30% os salários do pessoal da Uerj, uma iniciativa invalidada dias depois por decisão da Justiça.

"Me sinto humilhada. Trabalhamos com muita dedicação, mas vemos que isso não vale nada para esse governo, que acha que pode reduzir nosso salario de uma hora para outra", protesta Ana Carolina Feldenheimer, professora de nutrição.

Em um comunicado enviado à AFP, o governo do Rio explicou que o congelamento de contas do Estado e as escassas receitas obtidas de impostos locais não permitiram regularizar o pagamento dos salários.

"É verdade que o estado não tem recursos. Mas será que a ciência e tecnologia tem que ser uma das últimas a ser lembrada? Já pagaram os salários do pessoal da segurança, educação, meio ambiente, cultura, judiciário. Somos um dos últimos a receber os salários. No mínimo, deveria haver isonomia. Não pode pagar de uma vez, paga percentual a todos...", critica o reitor, lembrando que os estudantes mais pobres dependem das bolsas para pagar a passagem para frequentarem às aulas.

"A Uerj talvez seja a universidade mais colorida do Brasil. Cursos noturnos, sistema de cotas para que filhos de trabalhadores, em sua grande maioria negros, conseguissem ter acesso a cadeiras historicamente ocupadas pela elite. Isso incomoda determinados setores da sociedade", acusa Eduardo Torres, professor da faculdade de medicina.