Agora Lula encara a parte mais difícil: tocar um país

Eleito, Lula encarará agora o maior desafio (Danilo Martins Yoshioka/Anadolu Agency via Getty Images)
Eleito, Lula encarará agora o maior desafio (Danilo Martins Yoshioka/Anadolu Agency via Getty Images)

Um dos princípios básicos da democracia representativa é a alternância de poder. E é no resultado das urnas que a vontade popular se materializa. Jair Bolsonaro demorou quase 48 horas para entender isso e perceber que a tolerância é o princípio liberal definidor da política moderna.

Veio a público com um discurso de dois minutos. Depois de provocar o caos no país com seu silêncio. E, no seu pronunciamento, foi vítima do monstro que ajudou a criar: a subjetividade.

A paralisação dos caminhoneiros em protesto ao resultado legítimo das urnas não acabou como se imaginava que aconteceria depois da fala do presidente. Isso porque Bolsonaro não disse com todas as letras: “caminhoneiros, liberem as estradas”. Defendeu o direito de ir e vir, o que bastaria para qualquer leigo, mas em se tratando do bolsonarismo, foi entendido como uma mensagem subliminar para que os protestos continuassem. A bolha bolsonarista entendeu a mensagem como se Bolsonaro estivesse precisando da ajuda de seus leais seguidores. E as manifestações continuaram.

Daqui em diante, Bolsonaro deve ter um cargo de direção no poderoso PL, partido de Valdemar da Costa Neto, e deve organizar uma oposição ferrenha à Luis Inácio Lula da Silva. A oposição democrática acontecerá, inevitavelmente. A que Bolsonaro prepara é a ideológica. O Congresso, além de conservador, tem características bolsonaristas e esses não se aliarão ao conchavo que o Centrão de Arthur Lira já começa a organizar.

Mas Bolsonaro tem outro entrave que ele mesmo criou: o bolsonarismo sobrevive quando falamos nele. Sem a mídia diária, o desafio é fazer com que o movimento “Deus, pátria e família” continue inflamado até 2026.

No primeiro ano de governo Lula a tarefa não deve ser fácil já que Lula terá que engolir algumas palavras que disse na campanha como “a Guerra da Ucrânia não afeta em nada a economia brasileira”. Que belo engano. Lula vai amargar um país paralisado com orçamento estourado vítima de pandemia, de guerra sim, de choque inflacionário global e da PEC Kamikaze. Vai viver um 2023 paralisado e vai ter muita coisa para explicar e muitos entraves em suas pautas progressistas. A linha divisória entre governantes e governados deve se manter bem definida no ano que vem, não se enganem.

Mas política é a prevalência do que for considerado justo ou verdadeiro suportando a crítica e o dissenso. Que Lula consiga devolver ao país a previsibilidade, tranquilidade e estabilidade que tanto disse que traria. Que as negociatas, esquemas de corrupção e desvios éticos fiquem no passado. A vitória foi apertada. Dois milhões de votos num país como o Brasil numa campanha presidencial é nada.

O ano de 2022 foi a redenção de Lula. Que a vontade popular materializada em dois milhões de votos a mais possibilite a igualdade que a esquerda tanto defendeu depois que saiu do poder achincalhada por essa mesma população que lhe dá uma segunda chance.

A frase “a voz do povo é voz de Deus” ilustra a sabedoria encarnada nos valores da justiça que emanariam da lei, cujo fundamento último seria a “vontade geral”. Que a vontade da população brasileira seja cumprida por aqueles que, depois de 12 anos, voltam ao poder pelas mãos daqueles mesos que os tiraram da política.

Aos 58 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro, que façam a oposição democrática. E, dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E ao Brasil, o que ele pediu. Boa sorte.