Agora, regra no estado do Rio é procurar atendimento médico aos primeiros sintomas de coronavírus

Luiz Ernesto Magalhães e Vera Araújo

Com a promessa de que seu foco será “salvar vidas”, sobretudo diante da gravidade do avanço da doença em favelas do Rio, o novo secretário estadual de Saúde, o médico infectologista Fernando Ferry, anunciou, ontem, uma mudança no protocolo para o tratamento do coronavírus. Em vez da orientação para que a pessoa infectada só procure uma unidade de saúde caso seu quadro se agrave, com falta de ar, a nova regra que passa a valer é que a população busque atendimento assim que surgirem os primeiros sintomas. Ferry espera que os hospitais de campanha tornem-se grandes centros de recepção desses pacientes, principalmente com a chegada de 500 respiradores até o fim do mês.

Só hoje, 135 equipamentos vão chegar, o que permitirá a abertura de 200 leitos de UTI do Pavilhão B do Hospital de Campanha do Maracanã. Por enquanto, a unidade funciona com metade de sua capacidade. Outros seis hospitais de campanha, geridos pelo Instituto de Atenção Básica e à Saúde Avançada (Iabas), devem ser inaugurados até o fim do mês, inclusive na Baixada e em municípios como Campos, Casimiro de Abreu e Nova Friburgo. Ontem, a Fiocruz inaugurou sua unidade exclusiva para Covid-19, que, quando estiver plenamente instalada, oferecerá 145leitos.

Ferry — que ficou conhecido ao dirigir a ambulância do Hospital Universitário Gaffrée Guinle, onde era diretor, para socorrer pacientes vítimas de um incêndio no Hospital Badim, na Tijuca — falou ao lado do governador Wilson Witzel, no Palácio Guanabara. Ele disse que a nova diretriz se baseia em sua experiência à frente do hospital universitário.

— No Gaffrée Guinle, temos um corpo clínico altamente técnico. No início da doença, em março, atendemos 1.800 casos. Hoje, já chegamos a 7 mil. Aprendemos muito sobre a doença. No início, o foco era tratar os pacientes graves que precisavam de UTI. Se a oxigenação (do paciente) era boa, dentro do padrão, mandava para casa. Só que, depois, ele retornava grave. A ideia é internar o paciente na fase dois da doença, quando ele está com 20% a 25% de sua capacidade pulmonar comprometida — explicou Ferry, que afirmou nunca ter visto nada semelhante ao coronavírus. — Essa doença provoca o que chamamos de tempestade de citocina, que leva a um grande processo inflamatório.

Sobre as denúncias de fraudes em contratos na saúde, Witzel afirmou que não descarta punir com multas as Organizações Sociais envolvidas no escândalo. Ele adiantou também que estuda, com entidades empresariais, o afrouxamento do isolamento social por área da cidade, de acordo com a curva epidêmica:

— Acho que, até agosto, haverá quase uma retomada. É uma avaliação que eu falo em cima de dados de hoje. Na verdade, estou trabalhando com a retomada gradual a partir de junho.

Preso pela PF do Rio cita Witzel e Bretas

Numa interceptação telefônica feita pela Polícia Federal, autorizada pela Justiça, um dos presos da Operação Favorito, desencadeada pela força-tarefa da Lava-Jato no Rio, citou o nome do juiz Marcelo Bretas numa das conversas. Luiz Roberto Martins, um dos principais operadores do empresário Mário Peixoto, conhecido por ter montado um esquema fraudulento com Organizações Sociais para lesar os cofres públicos, diz para um cúmplice que Bretas estaria atuando, inicialmente, a favor do governador de Wilson Witzel, para proteger o aliado, mas que teria mudado de lado. Ainda de acordo com a gravação, o juiz teria passado para o lado do presidente Jair Bolsonaro em troca de uma vaga de ministro no STF:

“O nosso governador, o WW, ele tinha um parceiro que estava encobrindo as coisas dele, que é um ‘tripolar’, que é o nosso Juiz, o Bretas. E de repente o Bolsonaro cooptou o Bretas”, disse Martins ao homem identificado como Elcy Silva, ex-diretor da IDR, Organização Social contratada pelo governo do estado na área da saúde.

Tanto Martins como Peixoto estão preso. Witzel disse que trata os empresários de forma institucional.

— Não tenho relação pessoal com os empresários. Nem com esse que foi preso na operação. Menções que foram feitas ao meu nome são de terceiros. Ele fez uma afirmação mentirosa e será devidamente processado por mim. Essa mesma pessoa fez uma afirmação em relação a mim e ao Bretas, de que ele estaria acertado com Bolsonaro para me prejudicar. São duas coisas absurdas! — respondeu Witzel durante entrevista coletiva no Palácio Guanabara.