'Agora, vamos sepultar o meu pai sem poder vê-lo', diz filha de idoso que morreu sem conseguir vaga em UTI

Rafael Nascimento de Souza
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RIO — Gentil, brincalhão e de bem com a vida. É assim que familiares e amigos descrevem Pedro Bezerra Costa, de 63 anos, que morreu em uma cadeira na madrugada desta terça-feira na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) da Tijuca, na Zona Norte do Rio. Ele esperava por uma vaga em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e não resistiu. O aposentado procurou a unidade de saúde, pela primeira vez, a pouco mais de uma semana relatando falta de ar e muita tosse. Entretanto, segundo familiares, foi orientado a voltar para casa. No último sábado, com o estado de saúde agravado, Pedro voltou para a unidade de saúde. Horas depois foi entubado, e os médicos pediram urgência na Central de Regulação de Vagas para uma UTI. Não houve tempo de fazer a transferência e, no fim desta madrugada, o paciente morreu.

A única filha de Pedro Bezerra, Flavia Bezerra, conta que o pai foi internado no último sábado e no domingo foi entubado. O aposentado morava em Pilares, na Zona Norte do Rio, e continuava trabalhando para completar a renda como motorista de funcionários de uma churrascaria na Zona Sul da cidade.

— Meu pai chegou a fazer o raio-x. Ele estava com falta de ar, tosse e com o pulmão comprometido. Foi o que os médicos disseram. Ele, que estava com todos os sintomas da doença, chegou a fazer a testagem, mas só sairá daqui a 12 dias — lembra Flavia.

Sem espaço adequado para cuidar de pacientes com a Covid-19, médicos e enfermeiros da UPA da Tijuca tiveram que montar um espaço para receber quem chegava com sintomas da doença. E foi nesse espaço que Pedro Bezerra ficou desde sábado. Funcionários da unidade relataram ao EXTRA que quatro pessoas estão hospitalizadas no local com a Covid-19 e precisam ser transferidas para Centros de Tratamento Intensivo (CTIs). No entanto as vagas ainda não foram disponibilizadas pelo governo estadual.

— Sábado, antes do meu pai ir para esse local (sala improvisada de isolamento), foi o último dia que o vi. Desde então, não mais. Ele chegou a ser entubado, mas precisava ser transferido, o que não aconteceu. Meu pai era um homem honesto, trabalhador, uma pessoa muito querida. Agora, vamos sepultar o meu pai sem poder vê-lo — contou Flavia Bezerra.

O sepultamento será realizado nesta quarta-feira, no Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte do Rio. O caixão estará lacrado, e a família terá apenas 30 minutos para se despedir do aposentado.

A Central de Regulação chegou a disponibilizar uma vaga para Pedro Bezerra, no Hospital Regional do Médio Paraíba Doutora Zilda Arns Neuman, em Volta Redonda, a 120 quilômetros da capital fluminense. No entanto, a vaga foi transferida para uma mulher que estava com situação mais critica.

Amigo da família, o técnico de enfermagem João de Deus Almeida Neto, de 39 anos, diz que as UPAs do estado estão superlotadas de pessoas com sintomas de coronavírus e os pacientes dão entrada para morrer nesses locais. Além disso, segundo Neto, há falta de material e pessoal.

— Está faltando material para os profissionais desses locais trabalharem. Além disso, os salários estão atrasados. São profissionais que estão dedicando suas vidas, podem ser contaminados e que não estão tendo o mínimo de respeito do governo estadual. Trabalho na rede privada de saúde e tenho todo o suporte. Mas, meus amigos contam que estão desamparados. É muito triste isso — diz o técnico de enfermagem.

A Secretaria estadual de Saúde foi procurada para que comentasse as denúncias. No entanto, não houve retorno até a publicação desta reportagem.