Agricultores gaúchos lamentam perdas em meio a maior seca que já enfrentaram: 'não dá para olhar, está tudo morto'

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Com ao menos 200 de seus 497 municípios em situação de emergência por causa da ausência de chuvas, e, principalmente, o oeste do estado bastante castigado pelas temperaturas que chegam a até 42 graus, o Rio Grande do Sul sofre, no início desse ano, o impacto nas produções de arroz, soja, milho, uvas e hortaliças em geral. As perdas da safra já estão estimadas, por enquanto, em 25% no atual ciclo da soja, e de 60% do milho. Em relação ao arroz, cujo cultivo gaúcho é responsável por 70% da produção nacional, cultivadores dizem que, se não chover nos próximos 10 dias, a projeção é de "colapso na produção". Além dos prejuízos comerciais na indústria, que já calcula um baque de R$19 bilhões, pequenos agricultores tentam encontrar meios para sobreviver enquanto a chuva não volta.

Moradora de Ipê, na Serra Gaúcha, Sandra Campagnollo leva seus produtos, cultivados em sua propriedade familiar de agricultura ecológica e orgânica, para vender em feiras toda sexta, no próprio município, e aos sábados, em Porto Alegre. Neste final de semana, porém, só pôde colocar à venda tomate e cebola, as únicas plantações que conseguiram ser salvas, e um pouco de alface, emprestado do vizinho. Isso porque seus cultivos de couve-flor, brócolis, couve, alface, tomate, melão, melancia, abobrinha, cenoura e beterraba foram perdidos, com a seca.

— Temos três açudes e as três estão secas, tenho mais nada de produto verde. Só consegui preservar o tomate, que fica numa estufa e que abasteço com um pequeno reservatório a cada dois dias. E nessa sexta vendi um pouco da cebola que deu para colher. Hortaliças perdi tudo, não tem como salvar sem água. E o sol está muito forte, se você não tem uma irrigação boa, tudo queima — lamenta Campagnollo, que prevê uma retomada da produção apenas no meio do ano. — Até dezembro conseguia colher algumas coisa. Em janeiro só tive perda. Depois que voltar a chover, leva pelo menos dois meses para ter a produção de volta. Não adianta plantar agora, porque não vai vingar.

A água disponível hoje em dia, nos poços artesianos da comunidade, só é o suficiente para consumo próprio, ou para os animais. Para sobreviverem com baixas na plantação, os moradores recorrem a trocas de produtos com vizinhos, e precisam conciliar as perdas financeiras com a necessidade de se gastar mais nos mercados.

Campagnollo vive numa propriedade de três hectares com seus pais, já idosos, e o filho de 14 anos, que a ajuda no trabalho do campo. Ela admite que a situação desmotiva os jovens, que hoje em dia preferem buscar outros trabalhos, por vezes nas áreas urbanas.

— Meu filho vê que a produção está toda morrendo, e aí vai viver do quê? Isso muda a cabeça, ele tem mais vontade de viver de outro negócio. É difícil dar continuidade ao negócio familiar assim, hoje vemos poucos jovens na agricultura — diz Campagnollo, que só lembra de outra situação semelhante em 2004, mas ainda assim menos intenso. — Essa é a pior estiagem que já vivemos. Vamos ver o que os governos vão poder oferecer. Vivemos disso, não tem outra renda. Espero que olhem para nós e nos ajudem, pelo menos com máquinas para açudes maiores, para irrigação. Vemos vizinhos perdendo tudo, está horrível. Não dá para olhar, está tudo morto.

Juarez Righez é também agricultor ecologista de Ipê e coordenador da cooperativa Econativa, que abrange 75 famílias no norte gaúcho. Hoje em dia, sua plantação serve mais para a própria subsistência e ele diz que vai conseguir enfrentar a seca com a água ainda armazenada no seu reservatório. Mas a situação coletiva é sua maior preocupação.

— A cooperativa teve pelo menos 50% de perda, essa é a pior seca que já enfrentei. Houve outras duradouras, mas não com essa intensidade. Para ter ideia, hoje (sexta) aqui está 32 graus, e a média no verão é de pouco mais de 20. Se persistir mais uma semana sem chuva, todos os açudes vão secar e basicamente só vai ser vendido o que já estava plantado. Não tem mais plantação nova, porque não tem mais água, e isso vai gerar escassez de alimentos.

Rio Uruguai com nível abaixo do normal

Uma das cidades em que o calor está mais forte é Uruguaiana, no Oeste Gaúcho. O engenheiro agrônomo Ramiro Toledo vive no município há 33 anos e tem uma consultoria que presta serviços a cerca de 45 lavouras de arroz, principal cultivo da cidade. Mas ele já vem sentindo no bolso o prejuízo associado à estiagem.

— Nunca vivi uma seca tão intensa como essa. Se não chover daqui a 10 dias, a produção de arroz vai entrar em colapso. A minha renda depende diretamente das colheitas, e estimo um prejuízo pessoal de 50 a 60% com a crise — explica Toledo, que diz que 90% das lavouras são irrigadas pelos reservatórios e barragens privados, e a menor parte pelo rio Uruguai. — Quando o rio está alto, com nível normal, um desvio de três segundos da sua vazão já seria suficiente para irrigar 100% das lavouras. Mas não há um plano emergencial para esse momento, talvez fazer pequenas represas, mas o rio Uruguai é internacional, não é tão simples.

Também engenheiro agrônomo e morador de Uruguaiana, Fabio Machado diz que hoje o rio Uruguai está com uma altura de 67 centímetros. O normal é ter de quatro a cinco metros, e chega até a 12 nos períodos de cheia. Com o problema da seca, ele conta que a administração municipal já vem orientado os moradores a fazerem racionamento do consumo de água

— Prefeitura está sugerindo economizar, que não lavem carros ou molhem jardins. Isso eu não tinha vivido antes, é inédito. Para voltar a ter volume de água no rio, tem que chover lá em cima, onde é a nascente. Se não chover até quarta-feira (18), aí não vai ter mais água, e não sei o que vai acontecer— afirmou Machado.

Incentivo a sistemas agroecológicos

Alvaro Longhi, diretor do Centro de Tecnologia Alternativas Populares (Cetap), que atua há 37 anos no Rio Grande do Sul, conta que, nas últimas semanas, passou a ouvir muitos relatos de famílias que perderam suas produções, e de jovens que estão desistindo do trabalho no campo.— As consequências da estiagem vão além do aspecto comercial. E nós veremos esses impactos perdurando por muito tempo ainda. A seca está afetando a produção de subsistência de algumas famílias, tem gente que falou que o feijão plantado já não vai dar para alimentar todo mundo, então vai ter que comprar no mercado. Mas, ao mesmo tempo, estão com menos renda e dinheiro para consumo. É preciso pensar em formas de apoio financeiro.

Calor no Sul: Porto Alegre pode ser a capital brasileira mais quentePara Longhi, o governo deveria tomar medidas não só em momentos de emergência, como nas aberturas de mais poços, mas também com ações de preservação dos recursos naturais, das nascentes, da conservação de matas ciliares e das águas subterrâneas.

— A médio e longo prazo é preciso incentivar sistemas de produção mais eficientes na questão do armazenamento e uso de água, não adianta só abrir mais açude. Os sistemas agroecológicos mais complexos, como agroflorestais, têm demonstrado resiliência maior e resistem aos impactos da seca, por terem maior capacidade de retenção da água.

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