Agricultura regenerativa é o futuro, diz o ator Marcos Palmeira, Zé Leôncio da novela 'Pantanal'

Sucesso da faixa das 21h da TV Globo, com índices que superam com frequência os 30 pontos de audiência na Grande São Paulo, de acordo com dados do Kantar Ibope, o remake da novela “Pantanal” tem trazido assuntos que não constavam no texto original do dramaturgo Benedito Ruy Barbosa. Um desses temas é a agricultura regenerativa, ao apresentar conceitos como a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF).

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O ator Marcos Palmeira, que interpreta o fazendeiro José Leôncio, participou também do elenco da primeira versão da novela, produzida pela extinta Rede Manchete, em 1990, quando atuou como o personagem Tadeu.

Na ficção, José Leôncio começa a aprender técnicas regenerativas para agricultura de suas fazendas com auxílio do filho Joventino (interpretado pelo ator Jesuíta Barbosa). Na vida real, Palmeira produz e vende alimentos orgânicos, em paralelo à carreira artística.

A produção de orgânicos de Palmeira está localizada na Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. O ator recuperou a propriedade de 200 hectares, que antes estava com o solo degradado. Para isso, a fazenda passou a ser uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), mecanismo que transforma a propriedade em unidade de preservação sob controle privado.

Na prática, o fazendeiro torna-se responsável pelo cuidado com a área, ganhando em troca isenção de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e benefícios de crédito, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, do governo federal.

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Na fazenda, Palmeira produz leite orgânico, que é utilizado para a fabricação de laticínios como queijos e iogurtes, e comercializa produtos como mel e cacau em parceria com outros produtores. Os produtos do ator podem ser encontrados em redes de supermercado do Rio de Janeiro, como Zona Sul e Hortifruti.

Ele também faz parte do conselho do Instituto Brasil Orgânico, organização que tem como objetivo promover a produção de alimentos orgânicos no país.

Palmeira conversou com o Prática ESG sobre a representatividade da agricultura regenerativa, preservação ambiental e as diferenças que percebeu no Pantanal 32 anos depois da primeira versão da novela.

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Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Como você começou a sua produção de orgânicos? Chega a utilizar práticas de agricultura regenerativa?

Comecei a produzir orgânicos quando descobri que aquilo que eu produzia antes não era orgânico e eu não sabia. Quando os funcionários da fazenda não quiseram comer aquilo que estavam plantando, foi quando caiu minha ficha: de que aquele adubo orgânico que botávamos no solo, aquele remedinho, o agrotóxico, enfim, que davam como remédio, a gente tinha que colocar na planta, que aquilo tudo era veneno.

A partir de então, esqueci a planta e foquei no solo, na terra. E a cultura regenerativa é uma mistura de tudo, o foco realmente é a fertilização do solo, matéria orgânica no solo, muita biodiversidade. Esse é o nosso processo, a gente trabalha com muita adubação verde.

O que você particularmente acha de técnicas que integram floresta/agricultura/pecuária, como ILPF?

Eu acho que essas técnicas são o futuro. Na fazenda, trabalhamos com pecuária regenerativa, que é a pecuária dentro da agrofloresta, o que é muito interessante porque temos um gado comendo um capim de qualidade e ainda produzimos alimentos para a própria comunidade.

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Você percebe uma maior preocupação por parte do público sobre esses temas de sustentabilidade ambiental, uso de defensivos agrícolas alternativos, preservação da floresta?

Vejo que o consumidor está mais preocupado com isso, mas ainda é muito forte. O marketing do outro lado é muito pesado, a briga ainda é desigual, de informação, é muita desinformação. Mas acho que o consumidor é o carro-chefe, é a ponta principal desse negócio.

Quanto mais consciência o consumidor tiver, mais vai exigir que as gôndolas tenham produtos de qualidade, que tenham origem, que ele saiba de onde está vindo o produto.

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É possível perceber isso na prática, no contato com as pessoas?

Nesses 30 anos que eu estou lidando com isso, percebo que as pessoas vêm me perguntar e normalmente são mães. Isso porque, quando você tem um filho, acaba tendo mais preocupação com a alimentação do seu filho e você começa a descobrir a sua alimentação também. Tem uma mudança de mercado acontecendo, mas ainda é muito pequena para o potencial que nós temos.

O que você percebe de valor em práticas mais sustentáveis no campo?

Com as práticas sustentáveis no campo, você melhora o bem-estar de toda propriedade, dos produtores, de todos os envolvidos. E você está oferecendo para as pessoas um produto de qualidade, que vai beneficiar com o que oferece de vitaminas e minerais, sem nenhum resíduo.

Tenho muito orgulho de poder oferecer um produto que você possa dar tanto para um bebê, quanto para uma senhora porque é um alimento saudável. Eu enxergo o alimento como um remédio e o primeiro grande remédio da nossa vida é o que a gente se alimenta, o que realmente nos mantém. Quanto melhor você comer, menos vai gastar com remédio.

De que forma a sociedade (e os produtores/ agricultores/pecuaristas) pode(m) contribuir para a redução de desmatamento e mudanças em áreas como o Pantanal? Como ir além da conscientização sobre o assunto?

A questão do desmatamento é muito difícil. Na indústria desse "alimento" que é a produção de soja, do milho transgênico, na verdade, você está produzindo commodity para vender para fora. O Brasil ainda é um país colonial, onde a gente vende a matéria-prima para ser beneficiada fora e depois compramos a ração para alimentar o nosso gado.

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O Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Agricultura precisam trabalhar juntos para fortalecer a agricultura sustentável, que está muito distante do que a gente vem praticando de modo geral no Brasil.

É um absurdo ainda falarmos em desmatamento no Brasil. Temos muitas áreas degradadas que precisam ser recuperadas, que foram abandonadas. O Brasil está sendo mal manejado. Tem uma frase do Ernst Götsch [produtor que foi um dos pioneiros da agrofloresta no Brasil], que gosto muito: “Não existe área degradada, existe área mal manejada”.

Comparando a novela original e a atual, o que você percebe de diferenças no Pantanal? Poderia citar destaques positivos e negativos?

Vi um Pantanal bem mais pobre. O solo está mais pobre. O Pantanal mudou completamente, com menos animais, mais desmatamento e mais seca. Há 30 anos, já havia problemas e uma grande pressão ambiental. Acho que tem destaques mais negativos do que positivos.

De positivo, vejo a velha luta do homem pantaneiro, desse homem apaixonado por aquilo, mas que realmente não consegue ter acesso a um manejo diferenciado. Ainda assim, existem práticas no Pantanal muito bem feitas. Um exemplo é o boi verde, produzido pelo Leonardo de Barros, que faz um trabalho de gado orgânico.

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Também há a possibilidade de implementação da agrofloresta, e acredito também que o Pantanal tem que fazer uma política de resgate dos animais silvestres. Mais do que área de produção de alimentos, o Pantanal é uma área de preservação. Só que o Pantanal também depende da Amazônia. O desmatamento da Amazônia influencia diretamente no Pantanal. Enquanto não percebermos que um depende do outro, em que nós somos dependentes, não vamos conseguir enxergar o Brasil como um todo.

Você acredita que a novela e o seu trabalho na produção podem impulsionar uma maior consciência do público em relação às mudanças climáticas e também o papel dos produtores em mitigar os efeitos disso?

Eu faço porque eu acredito nisso de verdade. Muitas vezes, meu trabalho artístico ajuda a trazer mais informação para mais pessoas, pois, como elas estão interessadas no personagem, vão acabar me escutando ao falar do meio ambiente. Eu procuro juntar as duas coisas.

Mas acho que ainda falta muito, especialmente políticas públicas que realmente tratem de preservação. Tem um jargão meio barato, mas que é verdade: a floresta em pé é muito mais rica do que a floresta deitada. E disso eu não tenho a menor dúvida. A floresta deitada beneficia poucos contra muitos e a floresta em pé beneficia muitos contra poucos.

Na novela, você faz um personagem que é ainda relutante com a sustentabilidade. O que você, Marcos Palmeira, diria ao Zé Leôncio?

Eu diria: “Zé Leôncio, você é um homem que tem consciência empírica e ambiental, só falta agora se unir com outras pessoas que façam você levar isso adiante”. É que eu tive um avô assim. Ele era um cara totalmente antenado, que sempre questionou a monocultura.

Ele era um grande pecuarista e sempre questionava: como é que o cara vive na roça e compra comida na feira? Por que ele não planta na própria casa dele? Só que ele nunca teve ninguém ao lado dele que entendesse isso e fosse a fundo com ele. Falam em monocultura, soja, milho, cana, mas ninguém está falando em alimento.

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