Agricultura sem falsas dicotomias

O debate sobre métodos e técnicas de produção agrícola costuma ser travado entre dois extremos: o da agricultura de larga escala, feita de forma predatória, e o da agricultura orgânica, que serve à subsistência, ou a um mercado gourmet, de nicho. Nenhum destes extremos é sustentável.

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A agricultura de larga escala, que consegue produção suficiente —ou quase — para alimentar sete bilhões de pessoas, consome uma quantidade crescente de fertilizantes químicos e pesticidas ruins para o ambiente, usa em torno de 70% da água doce disponível do planeta e é responsável por um terço da liberação de gases de efeito estufa e causa diversos desequilíbrios ecológicos.

O manejo orgânico, aplica ideias mais sustentáveis como rotação de culturas e recuperação do solo com adubo orgânico, mas para alcançar a mesma produção da agricultura convencional, precisaria de mais terra e mais água, porque o rendimento por hectare é menor. Ou seja, não seria sustentável em larga escala.

Orgânicos não são livres de pesticidas. O manejo permite o uso de defensivos, desde que sejam “naturais”. O defensivo orgânico usado para combater fungos, o sulfato de cobre, é classificado como altamente tóxico para pequenos mamíferos e pássaros, e persiste no solo e na água. Por não poderem usar herbicidas sintéticos, agricultores orgânicos recorrem mais a técnicas de aragem da terra, o que prejudica a microbiota e gasta mais combustível fóssil. O manejo orgânico também não admite o uso de culturas geneticamente modificadas, rejeitando até mesmo variedades que poderiam diminuir drasticamente o uso de pesticidas.

A dicotomia entre os extremos leva a uma polarização ideológica que produz desastres, como mostra a recente experiência do Sri Lanka. O presidente Rajapaksa comprometeu-se a tornar a agricultura do país 100% orgânica em dez anos. Por razões não muito claras, resolveu encurtar o prazo e, da noite para o dia, instituiu uma proibição nacional do uso de fertilizantes químicos.

O país, antes autossuficiente na produção de arroz, acabou sendo obrigado a gastar US$ 450 milhões para importar o alimento, enquanto assistia a um aumento de 50% nos preços internos. O chá, principal produto de exportação, sofreu perda de safra de 18%, afetando gravemente a balança comercial. A nação, que havia atingido o grau de país de renda média-alta, agora vê 500 mil pessoas de volta à linha da pobreza.

O uso de fertilizantes químicos era subsidiado pelo governo, e o presidente Rajapaksa pode ter visto a meta de uma agricultura 100% orgânica como estratégia para cortar gastos e fazer marketing ambiental ao mesmo tempo. O Ministério da Agricultura, entretanto, estava repleto de entusiastas sinceros, quase todos membros de uma ONG pró-orgânicos. Agrônomos e cientistas foram afastados. Como resultado, o Sri Lanka hoje passa por enorme crise de abastecimento. O presidente fugiu do país. O que podemos aprender com a crise?

Primeiro, políticas públicas não se definem por canetada e marketing. Segundo, e talvez mais importante: é preciso acabar com a polarização entre agricultura moderna e orgânica, e considerar quais são as boas práticas de agricultura sustentável, sem rótulos.

Se o objetivo é diminuir o uso de pesticidas e fertilizantes químicos, não faz sentido vetar tecnologias de modificação genética que podem gerar plantas mais resistentes a pragas. Por outro lado, adubo orgânico e rotação de culturas que permitem recuperar o solo talvez mereçam mais subsídio e atenção do que a indústria de fertilizantes.

Precisamos de estratégias reais para preservar o solo, usar menos água, menos terra e reduzir gases de efeito estufa. Existem estratégias tecnológicas e técnicas de manejo orgânico que cumprem este papel, mas que precisam ser integradas, saindo de suas caixinhas ideológicas.

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