Agro próximo a Lula afina propostas com foco em crédito verde e incentivo a biodefensivos

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Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - Empresários do agronegócio ligados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afinam nesta semana as propostas do setor que serão entregues à campanha presidencial do petista, com foco no crédito mais barato como incentivo a práticas verdes, incluindo o uso de biodefensivos, e na ampliação da rede de internet no campo.

O desenho das ideias, que ainda vão ser analisadas pelos coordenadores do programa de governo de Lula, reverbera o pleito central do agro da melhoria do acesso ao crédito no Brasil e inclui a proposta já endossada pela campanha, revelada pela Reuters, da criação de uma linha de crédito com juros mais baixos para agricultores que façam a conversão de pastagens em terra agriculturável e economia de baixo carbono.

O plano é uma importante ferramenta para Lula, que tenta atrair a simpatia de um setor que, insumos incluídos, responde por cerca de 25% do PIB brasileiro e apoia majoritariamente o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), segundo lugar nas pesquisas. O petista tem repetido que é possível apoiar a produção agropecuária enquanto fortalece medidas ambientais que levem ao desmatamento zero.

O grupo de empresários do agro que vem trabalhando com Lula --entre eles estão Carlos Ernesto Agustin e os ex-ministros da Agricultura Blairo Maggi e Neri Geller-- propõe que o acesso ao crédito verde, mais barato, seja maior ou menor de acordo com a adesão dos agricultores a medidas de sustentabilidade e de redução da emissão de carbono.

"Temos que sair na frente nessa questão ambiental. Temos tecnologia para isso. Só temos que oferecer juro mais barato para o comprometimento de melhoria ambiental", defendeu Agustin.

O Brasil tem um programa voltado para práticas agrícolas mais sustentáveis, mas os recursos ainda são exíguos, apenas 2% do total orçado para financiamentos Plano Safra (341 bilhões de reais). As taxas de juros do programa, embora mais baixas do que as de outros, subiram para até 8,5% ao ano, na esteira da Selic.

As outras propostas do grupo agro ligado ao PT incluem, por exemplo, a ampliação do uso de defensivos agrícolas biológicos e o incentivo à oferta de benefícios aos empregados do setor, como planos de saúde privados, previdência, entre outros.

"O Brasil está começando a se especializar em defensivo biológico...", disse Agustin, acrescentando que o agricultor já consegue fabricar esse insumo na própria fazenda. "(O defensivo biológico) Pode não substituir 100% (o químico), mas pode começar aos poucos", explicou.

Em todas as conversas com o agro, a melhoria do acesso ao crédito é uma das reivindicações centrais. Entre as propostas, está a abertura para que o crédito agrícola que usa recursos que obrigatoriamente devem ser aplicados em empréstimos ao setor seja operado pelas Fintechs --ideia já debatida pela Associação Brasileira de Fintechs com Geraldo Alckmin (PSB), vice na chapa de Lula, mas que só deve ser analisada de fato na transição, no caso de eleição do ex-presidente.

Mas as propostas vão além. Uma das reclamações é que os contratos de longo prazo firmados com juros altos, como está a taxa Selic nesse momento, são firmadas sem uma previsão de revisão no caso de redução dos juros --uma prática que não é apenas para o agro, mas para vários financiamentos longos, como o da casa própria, por exemplo. "Deveria ao menos ter um juro variável", defende Agustin.

Outra proposta é a possibilidade de ampliação de financiamento em dólar --atualmente existe uma opção de se financiar utilizando Cédula de Produto Rural(CPR) financeira em dólares. O empresário explica que o agro para exportação recebe em dólar, então um financiamento atrelado à variação da moeda norte-americana não traria perdas para o campo.

"Isso é um dogma, não ter financiamento em dólar. Eu vendo em dólar, não faz diferença. São novos mecanismos que precisam ser estudados", defendeu.

A proposta do agro inclui ainda a necessidade de expansão das redes de internet para o campo. Agustin explica que, hoje, a maior parte das máquinas agrícolas são inteligentes, mas precisam de conexão para trabalhar a contento, o que não existe na maior parte do interior do país.

A proposta completa deve ser entregue até o fim desta semana, em São Paulo, a Aloizio Mercadante, coordenador de programa de governo da campanha de Lula para ser discutido internamente.

(Reportagem de Lisandra Paraguassu. Edição de Roberto Samora e Flávia Marreiro)