Agropecuária é associada a mais de 90% do desmate em áreas tropicais

***ARQUIVO***APUÍ, AM, 20.08.2020 - Fiscais do IPAAM (Instituo de Proteção Ambiental do Amazonas), escoltados por policias militares, vistoriam um desmatamento recente no município de Apuí, no sul do Amazonas. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)
***ARQUIVO***APUÍ, AM, 20.08.2020 - Fiscais do IPAAM (Instituo de Proteção Ambiental do Amazonas), escoltados por policias militares, vistoriam um desmatamento recente no município de Apuí, no sul do Amazonas. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A grande maioria do desmatamento em florestas tropicais no mundo está direta ou indiretamente relacionada à agropecuária, mas não necessariamente a uma atividade agrícola produtiva. Uma fatia expressiva dessa derrubada está ligada a pontos muito familiares à realidade brasileira de perdas amazônicas, como desmate para especulação e problemas fundiários.

É o que mostra uma nova pesquisa publicada na Science, uma das principais revistas científicas do mundo, nesta quinta-feira (8).

Segundo o estudo, a agropecuária foi o principal vetor da perda de florestas em pelo menos 90% das terras tropicais desmatadas no mundo. A expansão de pastos é responsável por aproximadamente metade da derrubada associada à atividade agrícola. O Brasil é parte dessa regra e o desmate por aqui é especialmente associado à criação de gado, de acordo com dados de outros estudos e levantamentos

A pesquisa também aponta que os cultivos de soja e de óleo de palma são responsáveis por cerca de 20% do desmate, enquanto culturas de cacau, café, arroz, milho, mandioca e para produção de borracha estão associadas a praticamente todo o resto da destruição.

A soja também costumava ser um grande problema no desmatamento brasileiro. A situação, porém, foi, em grande medida, controlada, após o país colocar em prática a moratória da soja, que freou o desmate associado ao grão na Amazônia.

Mesmo assim, há pesquisas que apontam que remessas desse cultivo plantadas em áreas de desmatamento recente ainda "contaminam" os grãos comercializados. Um outro estudo (nomeado "As maçãs pobres do agronegócio brasileiro") publicado na mesma revista Science, em 2020, apontou que a destruição da Amazônia e do cerrado, que está concentrada em uma minoria de fazendas, pode estar contaminando cerca de 20% da soja e pelo menos 17% da carne exportadas para a UE (União Europeia).

A nova pesquisa publicada, nesta quinta, também aponta que há problemas para rastrear adequadamente os desmatamentos relacionados a diferentes culturas, especialmente por falta de dados ou por informações de qualidade não necessariamente elevada.

"Isso mostra que, apesar do papel crítico de políticas públicas e privadas promovendo cadeias internacionais de produção livres de desmatamento, a habilidade delas em reduzir, de fato, o desmate é fundamentalmente limitada", dizem os autores do estudo.

E isso porque, de acordo com a pesquisa, de cerca de um terço a metade do desmate associado à agropecuária não resulta em áreas de fato produtivas. Além disso, a maior parte (cerca de 75%) da expansão de áreas agrícolas sobre florestas tem como vetor o mercado interno dos países, com destaque para produção de carne e cereais.

"Esses dados sugerem que as medidas em cadeias internacionais de produção podem ter um impacto maior através intervenções em áreas de risco de desmatamento focadas no fortalecimento do desenvolvimento rural sustentável e na governança territorial", dizem os pesquisadores que assinam o trabalho.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.