Agrotech pode ser a chave para um futuro mais verde?

Agrotech está em rápido desenvolvimento e pode beneficiar bilhões de pessoas
Agrotech está em rápido desenvolvimento e pode beneficiar bilhões de pessoas
  • Agrotechs são um dos pilares da agricultura 4.0

  • Agricultura 4.0 tem como principal demanda otimizar a produção e gestão agrícola

  • Setor agro foi responsável por 27,4% no PIB brasileiro

Cada vez mais a tecnologia invade não só o dia a dia das grandes cidades, mas também do meio rural. Desta forma, o agronegócio também enxerga a era digital como uma forma de se modernizar e tentar trazer um futuro mais verde ao planeta

Hoje, boa parte do setor aposta em AgTechs para se manter cada vez mais competitivo no mercado, mas como isso acontece?

O que são AgTechs

As AgTechs nada mais são do que startups que procuram soluções tecnológicas para o agronegócio, pensando principalmente no modus operandi do mercado rural.

Visto que o Brasil é um dos maiores produtores de comida do globo, estas empresas possibilitam um grande avanço no setor por meio da otimização de processos e automação da rotina campestre gerando um aumento na produtividade.

Onde as AgTechs atuam

Em busca da otimização de processos, as AgTechs podem atuar em todos os segmentos do agronegócio.

Desta forma, elas oferecem sistemas específicos para logística, pecuária, grãos, colheitas. Além disso, auxiliam na automatização dos processos e soluções financeiras.

Quais vantagens as AgTechs promovem

Antes de tudo, é preciso esclarecer que as AgTechs comercializam serviços e sistemas de software especializados em gestão de campos. Assim, pode ser considerada um dos pilares da Agricultura 4.0, já que fornecem robôs, sensores, drones e biotecnologia etc.

Esse modelo de negócio proporciona inovações tecnológicas para o setor rural, facilitando os processos desde o plantio até a colheita bem como os processos de gestão do produtor.

Como funciona a agricultura 4.0

A agricultura 4.0 precisa de softwares, sistemas e uso integrados de máquinas para que possa existir. Com isso, os processos se tornam otimizados e é possível aproveitar insumos de forma inteligente.

Por meio das tecnologias, é possível realizar o monitoramento da produtividade agrícola, estudo de solo e controle de pragas, Mas ela também auxilia na gestão, distribuição de recursos e processos de administração.

O principal objetivo da agricultura 4.0

O que a agricultura 4.0 tem como principal demanda é otimizar a produção e gestão agrícola em todas as suas etapas.

Com a automação, trabalhadores rurais possuem maior proveito dos insumos, além de aumentar a segurança dos funcionários e reduzir impactos ambientais negativos.

O Brasil tendo papel importante nesse setor

Principal exportador mundial de soja, suco de laranja, café, açúcar e das carnes bovinas e de frango, o Brasil atualmente não só tem potencial de produção para alimentar a sua população, como é também responsável pelo abastecimento de vários outros países. Os especialistas apontam que esse papel importante na produção de comida só deve aumentar nos próximos anos, principalmente por conta do aumento populacional.

Crescendo ano a ano, o agronegócio brasileiro multiplicou sua produção e expandiu seu mercado de vendas pelo mundo. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA/USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o PIB do Agronegócio cresceu 8,36% no ano passado, quando se compara 2021 com 2020. O setor foi responsável por 27,4% no PIB brasileiro, marca não alcançada desde 2004, quando bateu 27,53%.

Um futuro que depende do Agro

A população mundial deve chegar a 10 bilhões de pessoas até 2050, segundo a ONU, exigindo mais produção de comida. O Brasil, que tem vocação natural para agropecuária por conta da sua estrutura geográfica, pode ser o protagonista do mercado no futuro, como um grande fornecedor de alimentos. Somente de grãos, o país deve produzir mais de 270 milhões de toneladas esse ano, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em torno de 12 milhões a mais do que o ano passado.

Os números tendem a se manter em alta. O diretor técnico adjunto da CNA, Reginaldo Minaré, diz que a estimativa pro futuro do agro brasileiro é muito otimista. “A gente acredita que com a incorporação de mais terras, que hoje são dedicadas às pastagens e muitas até um pouco degradadas, somada à produção de sementes mais produtivas, a estimativa é que a produção continuará aumentando. Mercado tem. Competência para produzir nós temos. E área para plantar a gente tem também sem precisar desmatar”, comenta.

Drone no copyright in a soybean field,
Drone no copyright in a soybean field,

O diretor do Centro de Ciências Agrárias da UFV, Mário Chizotti, explica que o Brasil não apenas fornecerá alimentos, mas também desenvolverá novas tecnologias para outros países, atreladas à consciência ambiental, como energias mais limpas e sistemas agroflorestais. “Espera-se crescimento também na produção de fibras, de bioenergia e de papel. Florestas plantadas para produção de celulose também tendem a aumentar bastante, tendo em vista uma maior demanda esperada por produtos renováveis e embalagens”, projeta.

Esse mercado mais tecnológico demanda para as universidades a formação de profissionais conectados com a inovação. “A demanda pelos cursos de agronegócio ou relacionados a essa bioeconomia tem sido crescente, muito em função do bom resultado econômico do procedimento presente, a boa empregabilidade dos profissionais desse segmento e boas perspectivas de absorção dessa nova mão de obra capacitada para o uso dessas novas ferramentas tecnológicas”, comenta o diretor do CCA da UFV.

Massa produtora ou produção em massa?

A agricultura familiar é responsável por 77% dos estabelecimentos agrícolas do Brasil, segundo último Censo Agropecuário, realizado em 2017 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A prática emprega 10 milhões de pessoas, o que corresponde a 67% da força de trabalho ocupada em atividades agropecuárias.

Apresentando valores inversos, no entanto, o valor de produção da agricultura familiar representa 23% dos mais de R$ 462 bilhões de receita, contra R$ 356 bi do agronegócio. A maior crítica dos órgãos de defesa dos pequenos produtores é que pouco dessa produção agrícola vai para a mesa dos brasileiros. Em 2017, o Brasil aumentou o volume do produto mais vendido pelo país: a soja. Das 115 milhões de toneladas colhidas, 78% foram para a China. A exportação de milho também cresceu.

Os dados do IBGE mostram que quase 70% do feijão consumido pelos brasileiros é produzido pela agricultura familiar, assim como um terço de todo o arroz , quase metade do milho e mais da metade do leite. Alimento básico nas regiões norte e nordeste do país, a mandioca tem mais de 83% das suas plantações em pequenas propriedades, que segundo o mesmo levantamento do IBGE, sofrem ainda com a falta de sinal de telefonia e internet móvel.

O Brasil tinha, em 2017, 5,07 milhões de estabelecimentos rurais. Mais de 3,6 milhões delas não tinham acesso à internet, um percentual que passa de 71%. “O Brasil possui uma programa para democratizar o acesso à telecomunicações, mas nos últimos anos ele vem sendo capturado pelo agronegócio, que vem recebendo do Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) verbas do governo federal que deveriam ser investidas em áreas menos favorecidas”, aponta Bruno Bassi, coordenador de projetos do observatório do agronegócio De Olho nos Ruralistas.

Conectividade falha

A falta de conexão no meio rural é uma reclamação mesmo entre as empresas, hubs e profissionais mais ligados à corporações do agronegócio que formam o ecossistema que permitiu o boom das agrotechs. De 2016 a 2022 elas passaram de cem para mil, de acordo com o hub AgTech Garage, situado em Piracicaba.

Sergio Barbosa, gerente executivo da EsalqTec – órgão de fomento às agrotechs ligado a Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP – o Brasil é o maior movimento de startups do agronegócio do mundo, superando EUA, Canadá e Israel. Para ele, o avanço só não é maior pela falta de conectividade no campo, algo que demanda um maior investimento por parte das operadoras de telefonia.

Automated smart farming facility using robotics and artificial intelligence.
Automated smart farming facility using robotics and artificial intelligence.

“Temos ecossistemas de integração entre as grandes empresas, órgãos estaduais e jovens empreendedores espalhados por todo o país, além de uma nova geração de produtores que sabe lidar com a internet, com computadores”, defende.

Barbosa reconhece que os investimentos são focados nos grandes produtores em detrimento dos pequenos. “Tudo que está sendo criado são empresas, e no nosso sistema, o objetivo da empresa é lucro; então não tenha dúvidas que o empreendedor de uma startup vai buscar o que realmente tem escala pra ele, ele vai primeiro querer o peixe grande”, afirma.

Modelos agroflorestais, ou SAFs

Enquanto grandes empresas buscam aliar os mais recentes desenvolvimentos tecnológicos e digitais para tentar minimizar seus impactos no meio ambiente, um outro paradigma de produção agrícola vem há milhares de anos aliando a produção e a restauração ambiental: os sistemas agroflorestais, ou SAFs.

Diferenciado pelo seu modo de uso e ocupação do solo, onde os cultivos agrícolas são plantados lado a lado com espécies forrageiras e árvores, os sistemas agroflorestais trazem um grande número de benefícios tanto para o solo quanto para o produtor.

O produtor, por exemplo, tem acesso a uma renda mais estável podendo aliar plantações que vão gerar rendimentos no curto, médio e longo prazo. Professor e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, Ciro Abbud Righi afirma que as possibilidades de plantações sobre esse sistema são inúmeras, tendo já visto agroflorestas com mais de 150 espécies diferentes.

O plantio de diferentes espécies ainda traz melhorias para o meio ambiente, permitindo um maior depósito de nutrientes no solo, o crescimento de raízes mais profundas e uma melhor cobertura vegetal, o que previne a erosão do solo. No entanto, ressalta Ciro, a coexistência dessas diferentes espécies também demanda outros tipos de cuidados que o agricultor deverá ter, desde como realizar bons pareamentos até o manejo e a colheita. "Não é tão simples passar uma colhedora quando se tem uma árvores no meio da plantação".

Os SAFs também são capazes de gerar um maior retorno econômico por área, dependendo das espécies plantadas. No mesmo metro quadrado é possível ter mais de uma planta ocupando o mesmo espaço, diferentemente de um plantio de monocultura extensa, onde uma soja ou um milho não podem ficar tão próximos assim para não competirem por luz solar e nutrientes do solo.

No entanto, por produção total o sistema agroflorestal por definição não compete com uma agricultura mais tradicional. "Em um terreno dedicado à plantação de soja terá uma produção maior de soja do que em um com diversas espécies, é claro".

A adoção de sistemas agroflorestais já é uma realidade no Brasil, sendo adotada por milhares ao redor do país, como agricultores familiares e organizações de movimentos sociais como o MST. Só na Amazônia, a Aliança pela Restauração da Amazônia identificou mais de 1.600 iniciativas desse gênero, que além de realizarem o plantio, ajudam a restaurar espécies nativas da região.

Ciro destaca que, apesar das esperanças de restauração da mata original e preservação da biodiversidade dos ambientalistas, as SAFs ainda devem seguir uma lógica voltada para a produção. "De nada adianta uma área biodiversa, mas sem produzir alimento e riqueza para a população. É lindo, mas os interesses econômicos vão passar por cima disso rapidamente".

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