AIEA alerta contra 'intimidação' de seus inspetores

Por Sophie MAKRIS
Diretor da AIEA, Rafael Grossi, em foto de 2019

"Os países não devem interferir no trabalho dos inspetores" da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), advertiu em entrevista à AFP seu novo diretor, o argentino Rafael Grossi, depois que o Irã retirou a credencial de uma funcionária da instituição.

"É essencial que se respeite a imunidade dos nossos inspetores. Os países não devem interferir no trabalho dos inspetores e esta é a mensagem que enviamos a nossos colegas iranianos", explicou o diplomata argentino, que assumiu o cargo na terça-feira (3) na agência da ONU encarregada de promover o uso seguro e pacífico das tecnologias nucleares.

A agência da ONU é encarregada de comprovar no terreno se Teerã aplica o acordo sobre seu programa nuclear, assinado em 2015 em Viena com as grandes potências para garantir que o país não vá desenvolver armas atômicas.

O regime de inspeção de instalações nucleares iranianas, posto em marcha pelos inspetores da AIEA é o mais severo do mundo.

Em um momento em que o acordo se encontra debilitado, desde que os Estados Unidos se retiraram em 2018 do tratado e Teerã adotou medidas em represália, um incidente incomum causou mal-estar entre a AIEA e o Irã no fim de outubro.

Uma revista a uma inspetora na entrada da fábrica de enriquecimento de urânio de Natanz (centro) fez soar o alarme, provocando preocupação de que pudesse levar com ela "um produto suspeito", denunciou Teerã.

As autoridades iranianas retiraram a credencial desta inspetora. A AIEA considerou "inaceitável" que Teerã tivesse "impedido momentaneamente" sua funcionária de deixar o país.

"É um assunto sério", declarou Grossi, que disse esperar que este "incidente lamentável" seja um caso isolado.

"Os inspetores não devem ser intimidados", acrescentou, assegurando que a agência da ONU, cuja sede fica em Viena, "apoiará sempre" suas equipes, encarregadas de controlar as instalações nucleares no mundo.

- Energia nuclear e clima -

O presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, advertiu no domingo que o país está disposto a "reconsiderar seriamente" seus compromissos com a AIEA se os europeus decidirem ativar um mecanismo previsto pelo acordo de Viena, que possa levar a um restabelecimento das sanções da ONU.

"Prestamos atenção a estas declarações [...], mas estas não afetam de forma direta o que fazemos", afirmou Grossi, para quem este tipo de ameaças se inscrevem dentro "de uma discussão política" entre o Irã e as grandes potências, entre as quais não está a AIEA.

A agência defende seu status de instituição técnica, independente de pressões diplomáticas, as quais são numerosas no expediente iraniano.

Antes de uma possível visita ao Irã, para a qual ainda não há data, Rafael Grossi indicou nesta terça-feira que planeja um encontro esta semana com representantes iranianos que se encontram em Viena para uma reunião com os europeus, Rússia e China sobre o futuro do acordo de 2015.

O novo diretor da AIEA, de 58 anos, fará sua primeira viagem à COP 25, em Madri, na semana que vem.

Muitos ambientalistas consideram a energia nuclear uma fonte de contaminação e de insegurança.

Rafael Grossi disse estar disposto a iniciar um debate com todos, destacando que "a energia nuclear, é um fato científico, libera um nível muito baixo de emissões" e que isto poderia "ser parte da solução" na luta contra as mudanças climáticas.

"Se os países industrializados, altamente dependentes da energia nuclear [...] deixarem de usar a energia nuclear, a situação ambiental na questão das emissões seria catastrófica", acrescentou.